Dívida sobe, renda desce

Inflação e os juros mais altos do mundo são dois dos resultados mais nefastos gerados pela condução errada da política econômica

Estimulada pela política equivocada de Lula da Silva e Dilma Rousseff, população foi às compras: endividamento das famílias brasileiras bate recorde | Fernando Leite/Jornal Opção

Estimulada pela política equivocada de Lula da Silva e Dilma Rousseff, população foi às compras: endividamento das famílias brasileiras bate recorde | Fernando Leite/Jornal Opção

Cezar Santos

J.C.S. é casado há sete anos, tem dois filhos. A família mora num pequeno apartamento de dois quartos na Vila Brasília, financiado há seis anos. A parcela do financiamento habitacional é de pouco mais de R$ 1 mil por mês. Com o salário da mulher, a renda familiar supera um pouco os R$ 3 mil mensais. O problema é que a família paga mensalidade de financiamento de 60 meses de um automóvel popular e, com isso, a renda está comprometida no limite — aliás, mais do que o limite, pois chega a 65%. Como se diz popularmente, sobra mês no fim do salário na casa de J.

O vigilante admite que nos últimos anos acabou comprometendo a renda familiar acima do que seria recomendável, ainda mais que há seis meses a mulher foi demitida, ficou dois meses desempregada e teve de assumir outro trabalho, com salário menor. J. é um dos milhões de brasileiros que embarcaram na onda do consumo estimulado pelo governo federal, desde o segundo mandato de Lula da Silva, e aprofundado na primeira gestão de Dilma Rousseff.
Não é de hoje que se sabe que acabou o sonho consumista imposto pelos governos petistas de Lula e Dilma. A política de estímulo à demanda, com isenções fiscais a determinados setores da economia, principalmente o automobilístico e o da chamada linha branca (eletrodomésticos) funcionou durante certo tempo. Mas o que os analistas previam aconteceu: o esgotamento desse sistema seria questão de tempo.

Milhões de famílias foram às compras, estimuladas pelo governo. Inevitavelmente, a conta iria chegar, como chegou. Na semana passada, o Banco Central (BC) divulgou que o endividamento das famílias em relação à renda acumulada dos últimos 12 meses atingiu novo recorde, e chegou a 46,3% em abril. É simplesmente o maior índice desde que o dado começou a ser analisado, em janeiro de 2005, quando a proporção era de 18,42%.

A situação econômica do País é o que explica o aumento desse descompasso entre o que as famílias brasileiras ganham e o que elas têm de pagar. “O índice de endividamento das famílias tende a acompanhar a escalada dos jutos. O primeiro sintoma de que carregar uma dívida está mais difícil é esse indicador”’, disse ao Correio Braziliense o economista Fábio Bentes, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

E a inflação, é evidente, tem culpa nesse passivo. Com a renda crescendo cada vez menos a alternativa para manter o nível de consumo acaba sendo recorrer ao crédito — cartões, crediário, etc. — que está, porém, cada vez mais caro, via aumento dos juros — o Brasil tem as mais altas taxas de juros do mundo. Nessa ciranda de dívida, até o velho cheque, na forma de pré-datados, tem sido usado. J., o personagem do início dessa reportagem, está com seis “borrachudos” pendurados na oficina mecânica.

Se muita gente ainda está gastando com supérfluos, há quem recorra ao crediário para saldar despesas do dia a dia, como contas de luz e de água, que ficaram muito mais caras desde o início do ano — contas essas que Dilma Rousseff disse há alguns meses que iriam ficar mais baratas, lembra?

Essa realidade é corroborada pelos dados do BC: em abril, 21,98% do orçamento das famílias foi destinado ao pagamento de débitos, com 12,52% desse total em amortização da dívida e 9,46% para pagar juros — é o maior porcentual destinados a juros desde janeiro de 2012, quando foi de 9,51%.

O economista Fábio Bentes diz que o endividamento deve se manter estável até o fim do ano por causa da retração do consumo à baixa da inflação, que foi puxada pelo aumento das tarifas, o que não deve se repetir até o fim do ano. Se o economista se mostra otimista com uma possível baixa da inflação, já que o aumento das tarifas não vai se repetir, não se pode esquecer que há previsão de aumento dos combustíveis, portanto, o otimismo pode não ser tão realístico.

Estímulo ao consumo em vez de reformas 
Guido Mantega: ex-ministro inventou nova matriz econômica que tem sido um desastre para o País | Ruy Baron

Guido Mantega: ex-ministro inventou nova matriz econômica que tem sido um desastre para o País | Ruy Baron

Para que a onda do consumo durasse mais, o governo Dilma Rousseff aprofundou o que Lula da Silva tinha implantado no segundo governo. Com a política econômica nas mãos de Guido Mantega, tentou-se implantar a tal da nova matriz econômica, que seria abandonar o tripé instituído no governo de Fernando Hen­rique Cardoso para estabilizar a economia. Esse tripé estava assentado em responsabilidade fiscal, sistema de metas de inflação, e taxa de câmbio flutuante.

Guido Mantega, que se achava um gênio da economia, respaldado por Dilma, que também se acha uma gênia da economia e da política, quis reinventar a roda com sua nova matriz econômica, caracterizada por expansão fiscal (estímulos), crédito abundante a juros subsidiados, e taxa de câmbio controlada.

Os economistas constataram que a responsabilidade fiscal foi trocada por expansão fiscal; o sistema de metas de inflação saiu para dar lugar a uma expansão de crédito público, a juros subsidiados, o que forçou a adoção de medidas heterodoxas — controles diretos de preços (gasolina e energia, por exemplo) e desonerações tributárias — no combate a inflação; e a taxa de câmbio flutuante foi substituída por intervenções no mercado cambial, na tentativa de gerar o que o governo chamou de taxa de câmbio com­petitiva (?).

O que resultou disso, e que dezenas de analistas alertaram durante todo o tempo: crescimento baixo, inflação alta, e situação insustentável das finanças públicas. O Brasil é o país emergente que menos cresce no mundo; a inflação estourou o teto da meta, que o governo fingia que queria respeitar; as finanças públicas estão em frangalhos e o governo teve de maquiar números para disfarçar a tragédia.

E o pior é que Lula e Dilma optaram por não fazer as reformas estruturais necessárias ao país, justamente quando havia condições para isso, já que eles herdaram a estabilidade necessária que o tripé econômico de FHC havia proporcionado. Os dois petistas preferiram investir na política equivocada de estimular o consumo, criando um falso “paraíso” de uma nova classe média emergente — para os PT, quem ganha acima de 300 reais é “classe média”, o que lhe serviu de propaganda eleitoreira.

Dilma fez ainda pior, ao ver que sua política desastrada estava claramente dando errado: maquiou as contas públicas na tentativa de disfarçar a política ruinosa. Não teve como disfarçar, é claro, porque o Brasil não é a Argentina nem Venezuela, em que os governos subjugam a imprensa seja pela censura financeira, seja pelo terrorismo judicial.

Aqui, os economistas e veículos de co­municação independentes mostraram que as “pedaladas” fiscais de Dil­ma iriam resultar em desastre, como re­sultaram. O Tribunal de Contas da U­nião (TCU) recomendou a rejeição das contas do governo e Dilma Rous­seff terá de se explicar (leia artigo na co­luna Ponto de Partida, na página 8).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.