Disputa de força entre Temer e Maia abre cenário para um novo DEM

De olho no aumento da força de seus partidos no Congresso, presidente da República e presidente da Câmara tentam atrair deputados federais dissidentes do PSB, o que sugere uma distante, porém não descartada, fusão DEM-PSB

Rodrigo Maia, de olho no fortalecimento de seu partido na Câmara, disputa com Michel Temer dissidentes do PSB | Foto: Carolina Antunes/PR

Enquanto um aproveita o recesso parlamentar do Congresso para negociar sua permanência com oferta de valores mais robustos na emendas destinadas a deputados federais e tenta atrair deputados federais com cargos no segundo e terceiro escalões do governo federal, o outro tenta ampliar a força de seu partido para se mostrar como um político com base suficiente para assumir o cargo de presidente da República se isso vier a acontecer. Está se falando do presidente Michel Temer (PMDB-SP) e de Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, o próximo na linha sucessória do Palácio do Planalto caso, com possibilidade por enquanto muito remota, seja aceito pelo plenário da Casa o pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) de investigar Temer no Supremo Tribunal Federal (STF).

Nesse jogo de disputa de forças, entra um número considerável de deputados federais do PSB, partido que discute sua permanência na ba­se do governo Temer, assim como o faz o PSDB, que analisam a possibilidade de deixar o ninho pessebista. Há divergência sobre o total de parlamentares que avalia a mudança de sigla. O mínimo seria de 6 e o máximo poderia chegar a 16 ou 18. O mais crível até o momento é que o total de deputados dissidentes hoje no PSB chegue a algo em torno de dez parlamentares.

Como foi noticiado durante a semana, um início de crise entre Temer e Maia se deu pelo fato de que esse grupo de dissidentes, que negociava uma possível ida para o DEM do presidente da Câmara, foi procurado pelo peemedebista para negociar uma acolhida no PMDB do presidente da República. De um lado está em jogo o fortalecimento dos Democratas, que tenta pular da oitava colocação no número de deputados, hoje com 29, para um muito otimista terceiro posto na Casa, com até 50 parlamentares. Do outro vem o PMDB, que pretende negociar votos no plenário da Câmara para derrubar o pedido de abertura de inquérito contra Temer feito pela PGR.

Tratado hoje como assunto descartado pelos presidentes nacionais do PSB e DEM, há a possibilidade de se negociar uma fusão entre os dois partidos. Se isso vier a acontecer, o que ainda é o cenário mais improvável, essa nova sigla uniria os 29 deputados dos Democratas com 36 parlamentares pessebistas. Isso representaria uma guinada conjunta da oitava e sexta força na Câmara para a primeira posição na Casa, com 65 deputados federais. Da forma como está a composição, PMDB é o líder no número de parlamentares com seus 62 deputados e tem o PT no segundo lugar com 58. PP vem em seguida com 47 e PSDB tem 46.

Para ampliar o cheiro de novidade no ar, o ministro de Ciência, Te­c­nologia e Comunicações, Gilberto Kassab, presidente nacional licenciado do PSD, deu declarações na última semana de que há uma possibilidade de as siglas com tamanho médio no Congresso buscarem fusões para manter suas forças eleitorais após um possível fim das coligações proporcionais para o pleito de 2018. Kassab inclusive sinalizou que um dos partidos que teria mais a ver com a programática do PSD seria o DEM, que busca ampliação de suas forças baseado na figura de Maia à frente da Câmara e primeiro político atrás de Temer na linha sucessória da Presidência da República.

Tanto que chegou a ser noticiada a possibilidade de uma fusão do DEM com o PSB e o PSD. Pense em uma nova legenda que passe a existir com os 65 deputados federais democratas e pessebistas unidos a 37 pessedistas. Seria um partido com 102 parlamentares na Câmara. Mas, pelo menos até 17 de julho, antes de começar o recesso no Con­gresso, esse assunto não era tratado entre as siglas. “Não existe no PSD hoje qualquer conversa sobre fusão com outro partido. A chance de isso acontecer é nula”, declara o deputado federal Thiago Peixoto (PSD).

De acordo com o parlamentar por Goiás, nem a discussão sobre a antecipação da janela que permite a mudança partidária sem que o deputado corra o risco de perder o mandato de março de 2018 para até outubro deste ano na nova reforma política é algo definido. Pela legislação, o político que exerce mandato eletivo no legislativo só pode mudar de legenda em três situações. A primeira é se ele for expulso pela direção da sigla. Em seguida vem a criação de um novo partido, se­ja por fusão ou autorização de fun­dação de uma nova agremiação partidária, como aconteceu em 2011 com o surgimento do PSD.

Reflexo em Goiás

Como Thiago afirma que o PSD descarta a possibilidade de se unir a outro partido em uma fusão, o cronograma de discussão para definir os rumos pessedistas em Goiás seguem inalterados. “Já anunciamos que a decisão sobre em que lado estaremos nas eleições de 2018 só será feita no ano que vem. O PSD está aberto ao diálogo com todos os partidos.” Segundo o deputado, a relação com a base aliada do governador Marconi Perillo (PSDB) é natural, já que ela existe desde o começo, quando foi definida a aliança com o Executivo estadual.

Mas isso não impede que o PSD converse com partidos da oposição ao governo. “Eu tenho uma boa relação com o deputado federal Daniel Vilela (PMDB)”, diz Thiago. Para ele, talvez o diálogo mais complicado de ocorrer seja entre seu partido e o DEM do senador Ronaldo Caiado, até pela relação conturbada e cheia de conflitos entre Caiado e o presidente estadual do PSD, o secretário estadual Vilmar Rocha.

Do outro lado da especulação sobre uma fusão com o DEM, o PSB goiano, presidido pela senadora Lúcia Vânia, também é uma sigla aberta ao diálogo, mas que tem como sua maior força eleitoral a parlamentar, que é cotada como uma possível candidata a reeleição ao Senado ou até mesmo para o cargo de governadora. Em entrevista à imprensa goiana na última semana, Lúcia Vânia afirma que o cenário político hoje em Brasília “é imprevisível” tanto na crise institucional e o que pode acontecer com Temer, até nas definições para 2018. “As coisas que acontecem hoje a gente não sabe se tem sequência no dia seguinte.”

Para a senadora, a situação de Temer como presidente só muda se aparecer um fato novo. Sobre as eleições de 2018, Lúcia Vânia afirma que não há ainda qualquer pré-candidato ou nome para governador que esteja consolidado. “Nós temos que primeiro superar o 2017, porque a gente não sabe o que vai acontecer amanhã. O País está em uma incerteza tão grande que você fazer qualquer projeto, esse projeto está arriscado a não se concretizar”, explica. De acordo com a presidente estadual do PSB, qualquer definição de qual será o futuro eleitoral dela depende da decisão partidária.

O ninho pessebista em Goiás conta com a senadora, três deputados estaduais que não foram eleitos pelo PSB – Diego Sorgatto, Lissauer Vieira e Marlúcio Pereira –, dez prefeitos, 15 vice-prefeitos e três presidentes de Câmaras Municipais, além de dois vereadores em Goiânia – Elias Vaz e Oséias Varão. O presidente metropolitano é Vanderlan Cardoso, que foi prefeito de Senador Canedo por dois mandatos (2004 e 2008), candidato a governador duas vezes (2010 e 2014) e tentou ser prefeito de Goiânia nas eleições do ano passado.

O maior peso eleitoral do PSB goiano é a senadora Lúcia Vânia, que foi reeleita senadora em 2010 com 1.496.559 votos. Em 2014, para deputado federal, os pessebistas se coligaram com o PRP e o PSC. O vereador Jorge Kajuru (PRP) era um dos candidatos à Câmara dos Deputados e recebeu 106.291 votos, 13.346 a mais do que o deputado Jovair Arantes (PTB), que se reelegeu naquele ano com ajuda do quociente eleitoral na coligação do PTB com PSDB, PR, PP, PSD, PDT, PPS, Pros e PRB. O PSB, em 2014, não conseguiu ajudar Kajuru a se eleger deputado federal.

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