Desmistificando o TDAH: um transtorno associado a dívidas, drogas e suicídio

Apesar de potencial para provocar danos, o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade tem tratamento seguro

As crianças com TDAH podem ter dificuldades em concentrar-se e concluir os trabalhos escolares | Foto: Reprodução/Ministério da Defesa

O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é uma condição crônica que afeta cerca de 5% da população global e pode causar prejuízos em diversas áreas da vida. Novos estudos mostram que pessoas que sofrem de TDAH têm maior probabilidade de adquirir dívidas, passar por divórcios, abusar de drogas e até cometer suicídio. O transtorno também está associado à depressão e outros. Entretanto, o TDAH é carregado de estigmas e seu tratamento, embora seguro, ainda encontra a resistência de alguns pesquisadores e profissionais da saúde.

O transtorno neurobiológico tem causas genéticas e ambientais, surgindo durante a infância e frequentemente acompanhando o indivíduo por toda a sua vida. Sua herdabilidade é de cerca de 70%, semelhante ao observado para outras condições genéticas complexas. Ele se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. Por não possuir um marcador biológico claro e por seu caráter múltiplo – múltiplo de causas e de sintomas – o diagnóstico é considerado difícil por psicoterapeutas, e frequentemente passa despercebido por pais e professores. 

Na infância, pessoas com o transtorno têm maior reprovação escolar e rejeição social | Foto: Masae / Domínio público

A professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), Sandra de Fátima Barboza Ferreira, é especialista em neuropsicologia e doutora em psicologia, e há mais de vinte anos diagnostica, trata e pesquisa o TDAH. A pesquisadora afirma que o tratamento em geral é formado por uma combinação da farmacologia com diversas abordagens terapêuticas. “Em relação ao tratamento, existe resistência, mas os profissionais sérios consideram a intervenção multimodal pois as consequências do TDAH não tratado são muito sérias”, afirma Sandra de Fátima Ferreira.

Causas do TDAH 

A especialista em neuropsicologia afirma que nem tudo que é genético é herdado. Isso significa que existem fatores exógenos que podem alterar a genética. Sandra de Fátima Ferreira explica: “A contaminação por chumbo é um fator importante para o desenvolvimento do TDAH, porque é um neurotóxico que pode perturbar o desenvolvimento normal do cérebro, mas a contaminação por chumbo não é herdada. Então, sendo um transtorno multifatorial, o ambiente pode minimizar ou potencializar a expressão do transtorno.” 

Sandra de Fátima Ferreira afirma que os sintomas do transtorno também estão relacionados ao desenvolvimento de crianças em ambientes adversos e situações de vulnerabilidade social. “Qualquer situação adversa persistente altera nossa fisiologia, e durante a fase de desenvolvimento, a neuroquímica do indivíduo pode ser transformada de forma a causar prejuízos funcionais duradouros. Muitas crianças são tratadas cedo e conseguem gerenciar aspectos da impulsividade e inquietude, mas frequentemente ficam com outras dificuldades por toda a vida”.

Sandra de Fátima Barbosa Ferreira | Foto: Reprodução/UFG

A neurocientista cita o livro “Vencendo o TDAH”, de Russell A. Barkley e Christine M. Benton, psicólogos internacionalmente reconhecidos por seus estudos sobre o transtorno. “O entendimento na neurociência sobre a fisiologia do transtorno está aumentando. O que está claro é que precisamos monitorar as possíveis causas em termos preventivos. Precisamos de promoção de saúde; a alternativa mais promissora é o esclarecimento dos pais sobre o que é um ambiente saudável para seus filhos. Não quero depositar toda responsabilidade na família, pois dificuldades são inevitáveis, mas uma vez que se tem um filho, as famílias precisam ter acesso amplo a orientação, informação, a acompanhamento com profissionais com quem possam discutir as dificuldades e assim detectar o TDAH mais cedo”.

Sobre a realidade brasileira, Sandra de Fátima Ferreira afirma que as necessidades são mais básicas: “Não temos acesso amplo ao sistema de saúde e existe na população brasileira a expectativa de ir ao médico para ser medicado. Precisamos de políticas no campo educacional que orientem os pais e professores sobre a condução do tratamento; formas de tratamento na educação dos filhos. Enquanto outros países orientam suas populações sobre o planejamento familiar, não temos no Brasil uma política ampla de preparo para a paternidade e maternidade. A maior parte dos brasileiros têm vidas carregadas de adversidade social, o que é um fator que aumenta a manifestação do transtorno.”

Diagnóstico e tratamento

Enquanto o diagnóstico precoce é importante para evitar consequências indesejadas associadas ao transtorno – como abandono escolar –, os próprios sintomas do TDAH fazem com que as pessoas que sofrem dele sejam difíceis de serem tratadas. Afinal, indivíduos com pouco gerenciamento sobre a própria vida têm menos propensão a ir ao médico ou psicólogo e abandonam os tratamentos mais facilmente. 

Na infância, afirma Sandra de Fátima Ferreira, a prevalência do TDAH é maior. Por ser um transtorno do neurodesenvolvimento, é mais comum que o diagnóstico ocorra na infância. “São alunos inquietos, desatentos, com atividade sem direção, que alteram a rotina na sala de aula. O transtorno causa prejuízo no desempenho escolar, mas não causa dificuldade de aprendizado”. Mais tarde, na fase adulta, quem não for tratado pode aprender a controlar a hiperatividade mas algumas dificuldades são persistentes como as alterações de humor e tendência a impulsividade.

Russell A. Barkley | Foto: Reprodução

Por possuir tantas manifestações, é difícil traçar um perfil, mas pode-se dizer que aqueles que sofrem de TDAH têm dificuldades para concluir tarefas e suas ações carecem de ordenação e efetividade. Sandra de Fátima Ferreira diz: “Isso redunda em uma diversidade de condutas que são prejudiciais funcionalmente, com repercussão na vida acadêmica, laboral e nas relações interpessoais.”

Em relação ao tratamento, Sandra de Fátima Ferreira afirma: “São preconizados uma combinação de terapias que incluem fármacos, psicoterapia e manejo educacional. A farmacoterapia deve ser considerada em alguns casos mas não é a única alternativa. Sendo um transtorno de causa multifatorial merece uma abordagem multimodal. A falta de tratamento pode levar pessoas para a marginalidade ou outros transtornos de personalidade e de conduta. Uma pessoa tratada pode ser bem sucedida, apesar de ainda poder apresentar comprometimento em alguma esfera da vida.”

Quão sério é o TDAH?

Diversos estudos já compararam as estatísticas entre aqueles que sofrem de TDAH e a população geral. As pesquisas apontam que, na infância, pessoas com o transtorno têm maior reprovação escolar e rejeição social. Na idade adulta, esse segmento da população tem taxas mais altas de abandono da faculdade, pior desempenho no trabalho, dificuldade em manter o emprego e salários mais baixos do que colegas de inteligência semelhante. Crianças, adolescentes e adultos diagnosticados com TDAH também se envolvem em comportamentos impulsivos e de alto risco, incluindo abuso de substâncias, automutilação e tentativas de suicídio.

Um recente estudo envolvendo uma amostra impressionante – toda a população da Suécia (11,5 milhões de pessoas) – analisou a situação financeira de quem sofre de TDAH. No país escandinavo, onde o diagnóstico da doença é precoce e existe a possibilidade de cruzar dados entre o sistema de saúde e os sistemas bancários, os cientistas (Beauchaine, Ben-David e Bos) descobriram um padrão assombroso: dificuldades financeiras estão associadas a um risco quatro vezes maior de suicídio entre aqueles com TDAH.

Para homens com TDAH que se suicidam, a dívida aumenta nos 3 anos anteriores e, na faixa etária dos 40 anos, o risco de inadimplência chega a ser seis vezes mais alto do que o da população em geral. Não se tratam de grandes débitos: a maioria das pendências envolvem itens relativamente pequenos (como multas de trânsito não pagas). Não existem padrões semelhantes entre pacientes de outros transtornos que se suicidam.

Os autores do estudo discutem que jovens adultos com TDAH dependem mais financeiramente de seus familiares e serviços sociais. Os sintomas de hiperatividade e impulsividade estão associados ao fardo da dívida – empréstimos com altas taxas de juros e pagamentos atrasados – ​por conta da preferência por recompensas menores e imediatas. “Não sabemos se a angústia financeira contribui diretamente para a ideação suicida, mas uma possibilidade é que as finanças ruins, desemprego, subemprego e baixos salários podem comprometer o senso de propósito entre aqueles com TDAH”, discutem os autores.

Correlação entre TDAH e suicídio | Foto: Reprodução/Science

“Para os homens, tais sentimentos podem ser mais agudos e difíceis de lidar com os papéis tradicionais de gênero; finanças cada vez mais pobres podem eventualmente induzir uma sensação de desesperança que piora com o tempo à medida que a dívida se acumula e a dependência de outros se torna arraigada. Por sua vez, baixa autoestima e sentimentos de fracasso podem eventualmente contribuir para comportamentos suicidas”, se lê na discussão dos resultados do estudo.

“No geral, nossos achados se somam a uma literatura crescente que indica comprometimento funcional generalizado e persistente entre adultos diagnosticados com TDAH e destacam a necessidade de tratamentos mais eficazes ao longo da vida. Conforme observado acima, pesquisas anteriores sugerem benefícios do tratamento farmacológico na qualidade de vida e outros resultados”, concluem os autores.

Controvérsia

Se o TDAH é tão danoso e seu tratamento é seguro, por que o transtorno ainda enfrenta estigmas na sociedade? Diferentemente de outros transtornos como a depressão, o TDAH não esteve no centro dos movimentos de conscientização sobre a importância da saúde mental dos últimos anos. As controvérsias sobre sua caracterização geralmente envolvem argumentos que problematizam o transtorno como mero traço de personalidade. 

Em 2001, o psiquiatra americano Peter Breggin escreveu uma carta ao periódico científico Science em que afirmava: “os sintomas de TDAH podem ser causados por qualquer coisa, desde a energia normal da infância até salas de aula chatas ou pais e professores sobrecarregados.” Responderam as críticas os psicólogos Stephen V. Faraone e Joseph Biederman, chefe dos Programas Clínicos e de Pesquisa em Psicofarmacologia Pediátrica e TDAH, em uma publicação na própria  Science

Na publicação, os autores escreveram: “Culpar pais e professores é estigmatizante e contraproducente. Também ignora dados mostrando que os genes desempenham um papel importante na etiologia do TDAH. Além disso, existem diversas variações extremas da fisiologia ‘normal’ (como a hipertensão) que precisam ser tratados medicamente se estiverem associados ao sofrimento ou à deficiência.”

Os autores concluem afirmando que negar às crianças diagnosticadas com TDAH tratamentos seguros e eficazes é errado, pois os médicos devem usar dados, não dogmas, para planejar o tratamento de seus pacientes. Desde então, diversas publicações vêm mostrando que é o transtorno, e não seu tratamento, o verdadeiro problema de saúde pública.

2 respostas para “Desmistificando o TDAH: um transtorno associado a dívidas, drogas e suicídio”

  1. Avatar Ingrid disse:

    Finalmente um conteúdo que também cita as dificuldades do adulto TDAH.

  2. Avatar Lucas disse:

    Maior merda que eu já li

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