Desmatamento na Amazônia pode diminuir as chuvas em Goiás

Pesquisador da UFG alerta para os riscos da devastação da floresta para o clima no Centro-Oeste, pois ela tem ligação direta 75% das precipitações na região

Área queimada em Goiânia: todos os sistemas estão interligados | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Na década de 1960, o matemático e meteorologista Edward Lorenz propôs uma intrigante teoria: poderia o bater de asas de uma borboleta no Brasil causar um tufão no Texas, Estados Unidos? A figura apresentada pelo estudioso era uma forma de que as pessoas pudessem visualizar como fenômenos podem interferir em outros aparentemente desconectados. Nada mais atual.

Há algumas semanas o Brasil e o mundo discutem a questão das queimadas e desmatamentos na Amazônia e no Cerrado – infelizmente, em relação a este segundo bioma, que predomina em Goiás, sem a mesma ênfase com que se fala do primeiro. O debate ficou tão acalorado que desaguou em uma crise diplomática, permeada por interesses, que já está causando prejuízos econômicos a pecuaristas e agricultores brasileiros, com empresas e países boicotando produtos made in Brazil.

Nesse contexto, chamou a atenção o dia que virou noite em São Paulo. Na segunda-feira, 19, uma nuvem tapou o sol, pintando um cenário escuro às 15 horas na capital paulista. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), além de uma frente fria, partículas de fuligem e fumaça oriundas das queimadas na Amazônia contribuíram para o fenômeno. Imediatamente, “especialistas” de redes sociais refutaram e fizeram chacota.

Mas, na verdade, os fenômenos climáticos estão intrinsecamente ligados. E os goianos têm um motivo especial para se preocuparem com o que ocorre na maior floresta tropical do planeta: o regime de chuvas em Goiás depende da preservação da mata – que abrange 7 milhões de quilômetros quadrados e nove países (inclusive a França, por meio da Guiana Francesa).

Quem explica essa interconexão é o professor Diego Tarley Ferreira Nascimento, da Universidade Federal de Goiás (UFG). Segundo sua pesquisa de doutorado em geografia, em um ano típico, 75% dos dias chuvosos em Goiás correspondem à atuação do mecanismo de transferência de umidade da Amazônia.

Caminho preferencial

De acordo com o pesquisador, o clima de Goiás é determinado pela atuação de massas de ar de origem equatorial, tropical e polar, que se deslocam para a região seguindo o caminho preferencial condicionado pelo relevo, de acordo com o período do ano e respeitando o aquecimento desigual entre as estações do ano.

No período chuvoso e quente, que normalmente ocorre da segunda quinzena de outubro até abril do ano seguinte, há aquecimento maior na superfície terrestre em relação à temperatura oceânica. Essa conjunção favorece o transporte da umidade da região amazônica para o Centro-Oeste, num fenômeno chamado “rios voadores”. “Ele pode ser traduzido pela atuação da massa equatorial continental, proporcionando maior quantidade e volume de precipitação”, diz Diego Tarley.

Nos tempos de estiagem, que em Goiás se estende de maio à primeira quinzena de outubro, essa umidade amazônica fica presa à própria região de origem, por causa do esfriamento mais rápido da temperatura terrestre em relação à oceânica. “O mecanismo de transporte de chuvas da região amazônica se retrai, favorecendo a entrada de massas de origem tropical e polar”, explica.

Contudo, apesar de também úmidas em sua origem, o oceano Atlântico, elas tendem a perder essa umidade antes de chegar a Goiás. “Assim, temos um tempo estável, com pouca nebulosidade, ausência de chuva, baixa umidade relativa do ar e elevada amplitude térmica diária, com dias quentes e noites mais frias”, ressalta o professor da UFG.

Em Goiás, são absolutamente normais esses períodos de longas estiagens e tempo seco, como o que estamos passando atualmente. Em 2017, por exemplo, Goiânia ficou 125 dias sem chuva, entre 24 de maio e 26 de setembro. Este ano, a seca começou uma semana mais cedo: a última chuva registrada ocorreu em 17 de maio e, até este domingo, 8, são 114 dias de estiagem.

Diego Tarley, da UFG: “A conservação da Amazônica é fundamental para nossa sobrevivência” | Foto: pessoal

Já a umidade relativa do ar costuma ficar abaixo dos 30%, limiar considerado como preocupante para o conforto humano pela Organização Mundial de Meteorologia. Em 22 de setembro de 2007, por exemplo, a umidade relativa do ar chegou a apenas 11%. “Apesar de assustador, esse longo período sem chuvas é algo recorrente em nossa região”, lembra Diego Tarley. Historicamente, são sete meses com quantidades diferentes de precipitações e cinco de seca.

Equilíbrio delicado

Essas características dependem de um equilíbrio delicado, que pode facilmente ser ameaçado diante da exploração insustentável dos recursos da floresta amazônica. Este ano, segundo dados do sistema Deter (Detecção de Desmatamento em Tempo Real) analisados pelo Observatório do Clima, o desmatamento cresceu 45% na região, em comparação com o mesmo período de 2018. O sistema não é um retrato fiel do que está ocorrendo, pois o objetivo dele é alertar as autoridades, como o Ibama e órgãos estaduais de fiscalização ambiental.

“Apesar de ter causado o estranho evento [da nuvem negra] em São Paulo, a quantidade de focos de queimada na região amazônica não é tão alarmante, tendo em vista estar próxima da média histórica”, pondera o pesquisador da UFG. O que preocupa, porém, é que as queimadas recentes estiveram associadas a áreas em que ocorreu o corte raso da floresta – ou seja, a eliminação de toda a vegetação –, conforme alerta da Nasa, a agência espacial norte-americana.

“Isso evidencia que essa prática está sendo realizada para o desmatamento. Isso porque, costumeiramente, as queimadas são realizadas para limpeza de pastos, preparo de plantios e queima de bagaços, ou seja, ocorrem em áreas já desmatadas, o que não se deu nesse último ano”, afirma Diego Tarley.

Além disso, o desmatamento da Amazônia está em uma curva ascendente, conforme os recentes dados divulgados pelo Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo no Brasil (MapBiomas). “Essas informações apontam que 10% da formação florestal da Amazônia foram convertidos para uso agropecuário entre 1985 e 2018, especialmente na área considerada como arco do desmatamento da Amazônia, onde a fronteira agrícola avança em direção à floresta”, explica.

“Então, diante dessas polêmicas envolvendo os alertas de desmatamento, a quantidade de focos de queimadas e o embate entre política e dados científicos, vale destacar que a conservação da Amazônica é fundamental para nossa sobrevivência, tendo em vista que é a partir da floresta amazônica que partem as chuvas que ocorrem em nossa região”, ressalta.

Em uma frase: sem a Amazônia, não há chuva em Goiás.

Volume de chuva está abaixo da média desde 2015

É comum encontrar quem afirme que está chovendo cada vez menos. A percepção popular intui o que a ciência já captou: nos últimos quatro anos, a quantidade de chuva em Goiás ficou sempre abaixo da média histórica. A média anual é de 1.633,5 milímetros. Em 2015, choveu 1.503,4 milímetros; em 2016, 1.362; em 2017, 1.389; e, em 2018, 1.526,9.

Segundo o gerente do Sistema de Meteorologia e Hidrologia de Goiás, André Amorim, isso significa que há um déficit de 753 milímetros de chuva em Goiás. Este ano, de janeiro a agosto, a quantidade de chuva foi de 822 milímetros – o que ainda não permite estimar se 2019 repetirá os anos anteriores em relação às precipitações.

“Ainda não fechamos essa conta porque a comparação é anual. Vamos ter de continuar o monitoramento, pois temos de ver o comportamento do próximo período chuvoso”, diz André Amorim.

Segundo ele, a redução no volume de chuvas em Goiás é resultado da variabilidade climática. “Estamos vivenciando um ciclo de déficit, como no passado tivemos ciclos de excesso pluviométrico”, afirma. Contudo, mesmo que não faça alarme, Amorim diz que é preciso administrar a situação.

O resultado de pouco volume de chuva é também a diminuição da vazão do Rio Meia Ponte, principal fonte de abastecimento de Goiânia e cidades vizinhas. Na sexta-feira, 6, chegou a 2,6 mil litros por segundo. Segundo nota da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), os níveis desse ano estão melhores que os do ano passado. “O nível do Rio Meia Ponte está estabilizado desde o dia 14 de agosto de modo que não há nenhuma necessidade, neste momento, da suspensão das outorgas de empresas e de produtores rurais da região da bacia do Alto Meia Ponte”, diz nota do órgão.

Segundo a Semad, a média da vazão do Rio Meia Ponte está estável desde 14 de agosto, dentro do chamado nível crítico 3. Na escala, este é o penúltimo nível antes do patamar que indica a necessidade de racionamento.

Atualmente, a secretaria trabalha com a hipótese de que ele não seja necessário. Segundo o planejamento da Saneago, aprovado pela Agência de Goiana de Regulação (AGR), o racionamento ocorrerá caso a vazão do Meia Ponte caia para 1,5 mil litros por segundo. Caso seja necessário, haverá um rodízio no corte de água, com interrupção de fornecimento a cada quatro dias, em regiões alternadas de Goiânia e cidades vizinhas.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.