Desafio de Caiado será convencer o trabalhador

Após votar pela aprovação do texto-base da reforma trabalhista, goianos questionam postura do democrata

Decisão do senador do DEM em votar a favor da aprovação da reforma trabalhista no Congresso é avaliada como um erro por parte do eleitorado goiano

Felipe Cardoso

Com quase três décadas de vida pública, Caiado se tornou um velho conhecido do povo goiano. Muitos não se lembram, mas em 1989 o anapolino chegou a disputar as eleições como candidato a presidente da República. Porém, diferentemente do esperado, obteve menos de 1% dos votos, mais precisamente 0,68%. Posteriormente elegeu-se para seu primeiro cargo político, assumindo a cadeira de deputado federal no ano de 1991, em Brasília. De lá para cá, tentou o governo do Estado apenas uma vez. Com 23% dos votos, o médico terminou a disputa em terceiro lugar. A estadia no Palácio das Esmeraldas foi definida em segundo turno disputado entre Maguito Vilela e Lúcia Vânia.

De todas as fases da vida pública do atual candidato ao governo do Estado, uma polêmica marca foi perpetuada entre os anos de 1986 e 1989, quando fundou e presidiu a União Democrática Ruralista (UDR). Trata-se de uma entidade de direita, mobilizada por proprietários de terras. Seu objetivo estaria voltado a defender os principais interesses dos produtores rurais do País, especialmente no que diz respeito à preservação do direito de propriedade.
Desde então, essa entidade tem atuado de maneira contrária a aprovação de leis em benefício da reforma agrária. Reforma essa que luta pela reorganização da estrutura fundiária, com o objetivo de redistribuir as propriedades rurais de todo País. Ou seja, acaba por atuar contra os interesses de fatia da população que luta por questões ligadas ao direito de propriedade.
A imagem de Ronaldo Caiado, que tem suas origens em uma família de produtores rurais, se perpetuou ao longo dos anos na política brasileira. No ano passado, o candidato juntamente com Wilder Morais, ambos, hoje, no mesmo partido, votaram pe­la aprovação do texto-base da reforma trabalhista, o que gerou insatisfação em grande parte dos trabalhadores goianos.
Quanto aos feitos e propostas em prol das demais classes de trabalhadores do Estado, o Jornal Opção ouviu alguns políticos e sindicalistas que opinaram sobre a possível representatividade do político frente ao cargo máximo do Executivo goiano.

Mauro Rubem: “Nunca trouxe nada para melhorar a vida do trabalhador, aprova tudo o que vai contra o interesse do povo brasileiro” | Foto: Fernando Leite

De acordo com Mauro Rubem, que foi designado ao cargo de presidente da Central Única dos Traba­lha­dores no Estado de Goiás (CUT-GO) em 2015 e hoje se encontra licenciado por razões eleitorais, o candidato representa uma das três faces do governo Temer em Goiás. Para ele, Caiado “destruiu a Consolidação das Leis de Trabalho (CLT), vota contra os trabalhadores, nunca trouxe nada para melhorar a vida do trabalhador, aprova tudo o que vai contra o interesse do povo brasileiro e ainda entrega o patrimônio nacional –petróleo-”, enumerou.

Em nota, a CUT-GO se pronunciou dizendo que a cada dia, a antirreforma trabalhista mostra seu lado mais perverso na medida em que, nas negociações salariais, os patrões estão cortando cada vez mais direitos dos trabalhadores baseados no texto da nova lei. “As categorias que estão em campanha salarial encontram dificuldades nas negociações e os trabalhadores começam agora a perceber a profundidade das mudanças que estão atingindo sua vida no trabalho e na organização sindical”, ressalta o documento.

Antônio Gonçalves: “Colocam o trabalhador como um vilão, e não como alguém que pratica um serviço em benefício da sociedade”

Com uma avaliação mais ampla sobre o assunto, o presidente do Sindicato Municipal dos Servidores da Educação de Goiânia (Simsed), Antônio Gonçalves, atribuiu as críticas não só ao senador, mas também aos demais candidatos que lideram as intenções de voto no Estado. “Na nossa avaliação, os três representam uma ameaça para o servidor público. Nenhum deles coloca esse serviço de forma a valorizar tanto a população goiana como também o próprio servidor. Ao contrário disso, buscam iniciativas de privatização do servidor público, colocando o trabalhador como um vilão, e não como alguém que pratica um serviço em benefício da sociedade”, expressou.

Já na interpretação de Alair Luiz dos Santos, que preside a Federação dos Trabalhadores Rurais na Agricultura Familiar do Estado de Goiás (Fetaeg), “enquanto trabalhadores rurais, agricultores familiares e pequenos proprietários de terras do Estado, temos certa rejeição à candidatura do senador”.

Explicou sua declaração dizendo que o fato de defenderem a reforma agrária em prol da distribuição de terras e de renda vai contra a história dos Caiados. “Ele representa diretamente o empresariado, não vou dizer que os outros candidatos não representam também, mas agora nessa reforma trabalhista ele votou contra a classe trabalhadora e pela retirada de direitos de trabalhadores rurais assalariados”, lamentou Alair.

Gilvan Rodrigues: “Temos que conscientizar a sociedade para não eleger aqueles que são contrários aos direitos dos trabalhadores”

Em entrevista, o membro da direção do Movimento Sem Terra (MST), Gilvan Rodrigues, afirmou que na visão dos integrantes do movimento, Caiado representa um atraso para a política goiana. “Com ele –no governo- nós teremos vários retrocessos no que diz respeito a questão dos direitos humanos e outros direitos fundamentais para a vida do cidadão.” Acrescentou ainda que o senador representa concentração de terra, o crescimento da migração rural para o meio urbano e vários outros problemas sociais. “É um representante da burguesia agrária do Estado. Ele não dialoga com os interesses do povo goiano, em especial os da classe trabalhadora”.

Gilvan disse também que estamos em um Estado onde os políticos eleitos para o Congresso Nacional são extremamente conservadores e, sobretudo, contrários aos direitos relacionados e conquistados pelos trabalhadores. “Votar na reforma trabalhista é praticamente a mesma coisa de legitimar, em alguma medida, o trabalho escravo ou análogo a escravidão. Então esses políticos que votaram nessa reforma fizeram consciente de que estavam retirando direitos dos trabalhadores e colocando-os numa situação de extrema vulnerabilidade”, pontuou.

Já a presidente da Comissão de Habitação, Reforma Agrária e Urbana da Assembleia Legislativa (Alego), deputada estadual Isaura Lemos, do PCdoB, ressaltou ao Jornal Opção que os trabalhadores goianos não veem na candidatura do Caiado, nem nas demais, propostas em relação a mudança da estrutura fundiária do Estado. “O que nós vemos é que, infelizmente, temos vastas extensões de terras que poderiam ser aproveitadas pela reforma agrária. Terras essas que poderiam ser destinadas àqueles que de fato querem produzir”, disse.

Isaura Lemos: “Temos vastas extensões de terras que poderiam ser aproveitadas pela reforma agrária”

A deputada justificou dizendo que há milhares de trabalhadores que acabaram vindo para as cidades, mas não encontraram nelas as condições de sobrevivência. Contudo, acabam por viverem no subemprego. “Essas pessoas poderiam também se capacitar pois hoje a agricultura é mecanizada e muito se utiliza da tecnologia. Tanto a candidatura do Ronaldo Caiado, como as demais candidaturas, não apresenta uma boa perspectiva para os trabalhadores rurais que querem produzir na terra.”

Para Isaura, as candidaturas dos setores conservadores não atendem os interesses dos trabalhadores. Sobre o assunto, disse que “todos esses partidos conservadores e também o senador Ronaldo Caiado se posicionaram a favor da reforma trabalhista que retira o direito dos trabalhadores”, finalizou dizendo que espera que os eleitores percebam isso.

Candidato a ocupar uma cadeira no Senado Federal, o deputado estadual Luis Cesar Bueno, do PT, disse à reportagem que Goiás sofre uma carência de representatividade política no Congresso Nacional. De acordo com o parlamentar, o senador Ronaldo Caiado, juntamente com Lucia Vânia e Wilder Morais, não deu respostas concretas às demandas da sociedade ao longo de seus mandatos. “Aliás, gostaria muito que os três fizessem uma prestação de contas ao povo goiano dizendo quais projetos importantes eles apresentaram. Desses, que digam quais deles foram aprovados. Que digam quais articulações fizeram para trazerem benefícios ao Estado. O resultado será extremamente negativo”, lamentou o parlamentar.

Luis Cesar Bueno: “Goiás sofre uma carência de representatividade política no Congresso Nacional”

No que diz respeito a esfera nacional, o petista afirmou que Caiado tenta associar a figura do presidente da República, Michel Temer (MDB), ao Partido dos Trabalha­dores. “Mas ele foi um dos senadores responsáveis pela presença do Temer no poder. (…) Essa relação com o presidente fez com que a bancada de Goiás articulasse o tempo todo a reforma trabalhista que tirou direitos históricos dos trabalhadores.”

“Mas não só, também foram articuladores e responsáveis pelo projeto da reforma da Previdência. Projeto esse que tira direitos históricos dos trabalhadores que estão em via de aposentadoria. Enfim, o balanço não é nada positivo.” O candidato finalizou o seu discurso dizendo que, paralelo à disputa de Caiado ao governo do Estado de Goiás, os outros políticos que tiveram uma postura semelhante no Senado também disputam à reeleição. “Minha impressão não se resume apenas ao Caiado, mas a toda bancada de senadores que atuaram de forma extremamente negativa e não legislaram a favor de ninguém.”

Na última semana, o Democratas, partido liderado por Ronaldo Caiado em Goiás, oficializou a candidatura do senador na disputa pela estadia de quatro anos no Palácio das Esmeraldas. Caiado concorrerá ao lado de Lincoln Tejota, do Pros, e terá outros doze partidos aliados na chapa majoritária, conforme anunciado durante a convenção.

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Vicente

Mais O povo de goiás ja se convenceu que nao aceitará viver na chibata e na escravidão desse grupo que fez o povo de escravo para pagar as riquezas desse grupo que saquearam a dignidade do povo de goiás.. A resposta datemos na urna..