Depois de 2 anos em viagem pelo mundo, casal goiano fica 1 mês em camping no Laos durante pandemia

Ana Clara Lima e Marcello Dantas largaram empregos e começaram a viajar dentro e fora do Brasil em julho de 2018. Na parte final do roteiro, as fronteiras do Laos fecharam

Casal goiano no alto de montanha em Thakhek, depois de escalar parede de 130 metros de altura, no Sul do Laos, país que fica no Sudeste da Ásia | Foto: Maysa Gomes

Casal goiano no alto de montanha em Thakhek, depois de escalar parede de 130 metros de altura, no Sul do Laos, país que fica no Sudeste da Ásia | Foto: Maysa Gomes

O plano dos goianos Ana Clara Lima e Marcello Dantas era terminar os quase dois anos de viagem pelo mundo na Índia. Os dois começaram a se aventurar pelo Brasil e outros países no dia 12 de julho de 2018. Mas a viagem foi interrompida pouco antes do final do roteiro, em maio, enquanto os dois estavam no Laos, no Sudeste da Ásia.

Quando as fronteiras começaram a fechar por medidas restritivas adotadas durante a pandemia da Covid-19, o casal se viu isolado em um camping em Thakhek, no Laos. E lá ficou por um mês com outros viajantes de vários lugares do mundo. O retiro de escalada de Ana Clara e Marcello virou um refúgio distante da realidade de isolamento e distanciamento social impostos ao mundo por medidas sanitárias de prevenção contra a transmissão do Sars-CoV-2.

Detalhes da viagem foram documentados na página “Leve de Viagem”, no Instagram. Quando o Jornal Opção conversou com os dois, os goianos, que estavam em Vientiane, capital do Laos, viviam a expectativa de iniciar a volta para o Brasil pouco mais de três dias antes do começo do retorno. O primeiro voo estava marcado para 0h15 do sábado, 30 de maio, do Laos para Seul, na Coreia do Sul.

Problema na volta

Depois da entrevista, muita coisa mudou na viagem de volta. Depois de quase um mês de negociação com o governo brasileiro para serem repatriados, Ana Clara e Marcello saíram do Laos e iriam para Doha, capital do Catar, depois de uma escala de mais de 30 horas. Durante a espera no aeroporto, tiveram um problema no meio do retorno para o Brasil e os planos precisaram mudar. “Voltar está do outro lado do mundo para nós”, brinca a economista.

Com o roteiro inicial da volta, os dois estariam no Aeroporto de Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo, às 17 horas de segunda-feira, 1º de junho. Mas, ainda no sábado, o governo da Coreia do Sul não autorizou que os goianos ficassem mais de 24 horas no aeroporto de Seul. “Teve um novo pico de coronavírus no dia anterior”, conta Dantas.

A solução encontrada pela Embaixada do Brasil em Bangcoc, na Tailândia, foi negociar com a empresa aérea e tirar os brasileiros do aeroporto na Coreia do Sul em menos de 24 horas. O governo sul-coreano adotou a medida de restrição porque foi registrado um novo pico de Covid-19 no país, relatou o casal.

De Londres a Goiânia

“Por isso, a gente veio para Londres (Inglaterra) para compensar o tempo. […] Saímos do futuro e viemos para o tudo normal”, brinca o jornalista e fotógrafo. Depois do imprevisto, os dois partiram da capital britânica para Doha, onde fizeram uma conexão para Guarulhos.

O casal chegou ao Brasil na noite de segunda, avisou que dormiria em um hotel e voltaria para Goiânia na manhã de terça-feira, 2. “Foram 92 horas de jornada ao todo. Foi beeeeem longa a viagem”, descreve a cansada Ana Clara, ainda perdida no fuso horário na madrugada de quarta-feira, 3. A chegada à capital goiana veio às 10 horas de ontem, desembarque compensado no reencontro dos parentes e no sono acumulado.

Enquanto estavam no Laos, os dois chegaram a achar que a pandemia passaria até maio. As fronteiras começaram a fechar no Sudeste asiático no começo de abril, justamente quando estavam no camping em Thakhek.

Dantas descreve que o processo de repatriação não foi rápido. “Até chegar ao ponto de sair do Laos, ir para a Coreia, depois Catar e São Paulo, demorou um tempo para termos a informação certa. A gente não tinha passagem. A Embaixada do Brasil em Bangcoc, na Tailândia, que estava organizando tudo isso, porque no Laos não tem embaixada brasileira.” O jornalista diz que o casal negociou a volta pelo Camboja, Malásia e Vietnã, o que durou cerca de um mês.

Continuar viagem

Ana Clara descreve que não era a intenção dos dois pedirem a repatriação no início. “Estávamos no Laos há poucos dias quando as fronteiras fecharam. Tínhamos combinado de encontrar um amigo no Camboja – ele estava no Vietnã.” Foi quando essa pessoa comunicou aos goianos que a Embaixada do Brasil na Tailândia queria saber quantos brasileiros estavam no Laos.

De acordo com a economista, o primeiro contato com o governo brasileiro foi feita há quase três meses. “Comunicamos no formulário on-line que estávamos no Laos à Embaixada na Tailândia. Até então, não tínhamos nenhuma expectativa de sermos repatriados e voltar ao Brasil. No começo, achamos que a pandemia seria uma coisa pequena, que as fronteiras reabririam e continuaríamos viajando”, lembra Ana Clara.

O primeiro contato de Ana Clara e Marcello com as autoridades brasileiras foi basicamente protocolar, para avisar onde estavam. “Só que a pandemia foi avançando, mais fronteiras foram fechadas. Os países vizinhos do Laos começaram a receber voos dos países para resgatar seus cidadãos. De um dia para o outro, amigos alemães tiveram de ir embora para conseguir sair do Laos.”

Gravidade da situação

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Nesses dois últimos meses, enquanto todo mundo se voltou pras redes sociais para fugir do dia-a-dia, vivemos outra realidade. Nós passamos esse tempo no Laos. Em um camping pra escaladores na zona rural de Thakhek. Lá não cabia rede social. A gente ou estava escalando ou sem sinal ou a internet simplesmente não funcionava. Isso fez com que nos afastássemos do holofote dos celulares e aproveitássemos a natureza em que estávamos. A verdade é que fomos muito privilegiados. A gente, até agora, não experienciou distanciamento social. Nós ficamos fechados no paraíso da escalada com mais 40 pessoas. Comendo junto no restaurante, jogando voley, nadando no rio e, especialmente, escalando à vontade. Aí, acabou. A gente começou o processo de voltar pro Brasil. Saímos de Thakhek e viemos pra Vientiane. Saímos da natureza e caímos no mundo on-line. Então vamos com calma, mostrando pra vocês o que que aconteceu nesses últimos meses e preparando uma retrospectiva da viagem inteira, que depois de quase 2 anos, tá chegando ao fim. #greenclimbershome #laos #travellaos #levedeviagem

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Quanto mais informação a Embaixada em Bangcoc pedia aos goianos e mais fronteiras se fechavam, o casal começou a ter mais noção da gravidade da situação. No meio de abril veio a lista de repatriação. Como os dois achavam que a pandemia passaria até maio, Ana Clara e Marcello ficaram na dúvida se pediam a repatriação.

Mesmo assim pediram para serem repatriados para o Brasil. No momento em que decidiram voltar, as fronteiras no Laos fecharam. “Percebemos que estávamos em uma situação difícil. Todas as fronteiras terrestres estavam fechadas e sem voos”, descreve Ana Clara. Nos países vizinhos, como Camboja e Tailândia, a frequência de partidas dos aeroportos era de uma vez por semana. “No Laos, foram mais de 30 dias sem voos e mais de 20 dias com as fronteiras estaduais fechadas. Foi muito duro o lockdown.”

A economista, que fez aniversário durante a viagem, no dia 30 de março, viu o lockdown no país em que os goianos estavam começar no dia seguinte. “Chegamos ao Laos pelo Norte da Tailândia por volta do dia 10 de março. Não sabíamos o que iria ocorrer, mas sabíamos onde a gente queria passar os últimos dias em um local de escalada no interior do Laos, no meio das montanhas”, descreve o jornalista.

Lockdown no camping

Pouco mais de dois dias no camping próximo a Thakhek, a proprietária do local avisou que as fronteiras entre as províncias seriam fechadas. “Quem for ficar fica, que sair não volta mais”, Dantas se recorda do comunicado. “15 dias depois fecharam tudo. Como era parecido com uma fazenda, nós não podíamos sair nem da porteira para acessar a rodovia.”

No dia 3 de maio, veio a liberação para sair do camping e ir até a cidade. Dantas diz que Thakhek, capital da província Khammouane, às margens do Rio Mekong, “lembra uma cidade do interior de Goiás”. “Vimos um camping fechar inteiro com pessoas indo embora para os seus países.”

Os dois mantinham a esperança de que tudo melhoraria e retomariam a viagem. “Mas não”, lamenta o fotógrafo. Só no dia 17 de maio as fronteiras estaduais foram liberadas no Laos. “O governo do país começou a flexibilizar o lockdown aos poucos a cada duas semanas. Foram quase dois meses sem novos casos da doença de acordo com as informações do Laos – não sei a confiabilidade – com total de 14 casos e nenhuma morte”, detalha Ana Clara.

Brasileiros listados

A partir do momento em que os brasileiros no Laos estavam listados pela Embaixada de Bangcoc, uma van foi enviada ao camping para levar o casal até Vientiane, capital do país asiático. “Não vamos pagar nada do voo até São Paulo”, afirma Dantas. Para a economista, foi uma grande surpresa não ter custos na viagem de repatriação. “Nenhum outro país das 16 nacionalidades no camping repatriou as pessoas gratuitamente.”

A repatriação gratuita pesou na decisão dos goianos. “Um voo hoje do Laos para o Brasil custa US$ 2,7 mil. Com o dólar a R$ 6, são mais de R$ 16 mil. Muito caro”, explica Ana Clara. A brasileira conta o caso de quatro canadenses que estavam no camping e voltaram para a capital do Laos na quarta-feira, 27 de maio.

“O governo do Canadá não bancou nada. Só ajudou os cidadãos canadenses a pegar um empréstimo com carência de seis meses para pagar o voo. O mesmo com os governos belga, francês e australiano”, conta aliviada a economista. A ideia do casal era terminar a viagem na Índia, mais ou menos na mesma data em que voltaram ao Brasil.

Casamento de fatores

Para Dantas, houve uma combinação de fatores que o jornalista considera como sorte no fim do roteiro de quase dois anos: “O voo ser de graça, o dólar estar muito alto e calhar com nosso planejamento de final da viagem”. “Planejamos emocionalmente e financeiramente para viajar até o início de junho, terminando na Índia, porque o irmão da Ana vai se casar no dia 13 de junho.”

O casamento também foi afetado, apenas com a união civil mantida por causa da pandemia. “Serão seis convidados: nós dois, os pais da noiva e os pais do noivo”, explica Ana Clara. A economista diz que o “plano pré-coronavírus” era voltar para a festa de casamento.

Dantas diz que amigos entraram em contato depois de uma matéria veiculada no Jornal Hoje, da TV Globo, sobre “os únicos brasileiros que estão lá [no Laos]”, mas não fazia qualquer referência aos goianos. “Como assim? Vocês não estão no Laos?”, o jornalista lembra. Depois da informação de 31 de março, o jornal O Globo encontrou outro casal no Laos, mas também não eram Ana Clara e Marcello, em 14 de abril.

Foi aí que os dois pensaram “e a gente?”. “Só que estávamos em um lugar maravilhoso escalando: no camping em Thakhek”, descontrai o goiano, prestes a matar saudade de casa.

Para goianos Ana Clara Lima (foto) e Marcello Dantas, período de lockdown no Laos foi tempo dedicado ao contato com a natureza e prática da escalada | Foto: Leve de Viagem

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