Demografia aponta dia dos pais esvaziado

Em relação a década de 1970, as famílias estão menores e filhos se identificam menos com os pais por razões socioeconômicas

Julieta Drummond e Carlos Drummond de Andrade: a filha escritora e o pai, maior poeta brasileiro | Foto: Reprodução

É 2020 e o dia dos pais – data cardinal das meias, gravatas e carteiras de presente – é celebrado de forma cada vez mais estranha. Segundo os demógrafos (cientistas que estudam a dinâmica populacional humana por meio de estatísticas), a família não é mais a mesma. Cada vez menos numerosos por questões socioeconômicas e ainda mais distantes neste ano graças à pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2), os filhos preparam para seus pais um almoço de domingo muito diferente daquele que Sylvio Bhering desejou em 1953, ano em que foi firmado o primeiro dia dos pais no país.

Sylvio Bhering foi o publicitário que criou a campanha “O Dia do Papai” com o objetivo de atrair anúncios de produtos ao jornal O Globo e à rádio Globo, que Sylvio então dirigia. A iniciativa era local e direcionada ao público do Rio de Janeiro, mas acabou se espalhando para o restante do país. A data escolhida foi 16 de agosto, dia de São Joaquim, pai de Maria e avô de Jesus. Em muitos países católicos – Portugal, Espanha, Itália e outros – a data é celebrada em 19 de março, dia de São José, marido de Maria. 

Como nos Estados Unidos, o Brasil escolheu o segundo domingo de agosto para encaixar a data em um final de semana e possibilitar a reunião familiar. Entretanto, nos anos 1970, metade da população brasileira tinha menos de 15 anos, tamanha taxa de natalidade; hoje, a idade mediana do Brasil está em torno de 29 anos – é o que afirma Ronan Eustáquio Borges, professor de Demografia do Instituto de Estudos Socioambientais, da Universidade Federal de Goiás (Iesa-UFG).

Ronan Eustáquio Borges | Foto: Reprodução / UFG

“Isto não significa que as famílias tenham se tornado idosas, porque esse processo é relativamente recentemente. Mas simboliza uma diminuição da taxa de fecundidade”, afirma Ronan Eustáquio Borges. O número de filhos por família necessário para que a população de um país se mantenha constante é de 2,1. Atualmente, o Brasil tem 1,9 descendentes por união, enquanto tinha 3 na década de 1970. 

Aqui cabe um esclarecimento dos termos. Na demografia, a fertilidade é a capacidade de gerar filhos – que tem apenas aumentado em função de novas formas de conceber descendentes, como a inseminação artificial e a extensão do período fértil das mulheres. A natalidade se refere meramente ao ato de nascer. A taxa de fecundidade é uma estimativa do número médio de filhos que uma mulher teria até o fim de seu período reprodutivo.

As razões para o aumento da fecundidade são múltiplas, afirma Egmar Felício Chaveiro, professor de Demografia do Instituto de Estudos Socioambientais, da Universidade Federal de Goiás (Iesa-UFG). “A vida rural demanda mais filhos para ajudar com o trabalho no campo. Os filhos, no contexto rural, tinham um custo muito mais baixo do que após a modernização. No mundo todo, a partir dos anos 2000, temos mais gente vivendo em cidades do que no campo, e o custo do filho é altíssimo nas cidades, além de o tempo das famílias para cuidar da prole ser menor.” 

Uma pesquisa conduzida pelo cientista mostrou que a principal reclamação de filhos (62%) é de que seus pais não têm tempo. “Mas o fator mais interessante surge quando olhamos a forma como os pais vêm os filhos: com incompreensão. A aceleração histórica descolou o mundo cultural do filho e do pai. Uma quantidade expressiva de homens não quer ter filhos ‘num mundo tão perigoso’, porque afirma que ‘minha ação sobre meu filho é menor que a do mundo sobre ele’. É importante para o pai do mundo rural que o filho tenha sua moral. Isso não é mais possível numa sociedade moderna. A relação está abalada”.

Além disso, segundo Egmar Felício Chaveiro, nas cidades, os pais de classe-média querem que seus filhos tenham as mesmas condições de consumo enquanto têm de arcar com custos da educação. “Essa é uma leitura possível. Mas há também as hipóteses levantadas pelos movimentos de 1960 da juventude de Paris, como a do movimento feminista, que versa sobre como o imaginário feminino não se satisfaz mais somente com a maternidade. Enquanto antigamente as mulheres não realizavam o seu sentido sem ser mãe, as mulheres modernas podem se realizar na arte, política, no trabalho, estudos, entre outros.”

Egmar Felício Chaveiro | Foto: Reprodução / UFG

De uma forma ou de outra, segundo Egmar Felício Chaveiro, houve uma mudança na relação entre pais e filhos. “Enquanto no mundo rural havia uma divisão de gênero na relação com o filho – isto é, a mãe cuidava do afeto enquanto o pai trabalhava, hoje o pai também precisa dialogar e demonstrar afeto e a mãe precisa ir trabalhar, não há uma ruptura tão grande entre os dois mundos como antigamente. Isso altera o tempo da família”. 

As mazelas do envelhecimento

O Brasil não é o primeiro país a estreitar a base de sua pirâmide etária. Países europeus lidam com o envelhecimento da população há pelo menos quatro décadas. “Esse envelhecimento impacta as contas públicas. A Europa teve de fazer reformas previdenciárias; vimos os conflitos na França e Grécia em decorrência do envelhecimento. No Brasil, isso já está acontecendo. A queda da fecundidade acompanhada do avanço na medicina faz com que reformas sejam necessárias”, diz Ronan Eustáquio Borges.

Com exceção de alguns países africanos, a taxa de fecundidade vem caindo em todo o mundo. Soluções para a abundância de dependentes previdenciários e demanda de mão de obra foram encontradas na imigração de jovens qualificados, incentivada por estímulos financeiros. Há ainda o incentivo para que casais tenham mais descendentes por meio da assistência social. Na Noruega, por exemplo, uma família tem direito a um ano e quatro meses de férias. O sistema permitiu que a taxa de natalidade seja uma das mais altas do continente, com 1,8 criança por família. 

“A China é outro caso que vale a pena ser analisado”, diz Ronan Eustáquio Borges. Com 1,3 bilhões de pessoas, há uma política de filho único induzida por lei. Com o propósito de controlar o aumento demográfico e, dessa forma, possibilitar a admissão da população chinesa ao sistema de saúde e educação, o plano iniciado pelo governo chinês na década de 1970 consistia numa lei segundo a qual ficava proibido, a qualquer casal, ter mais de um filho. Famílias com mais de um descendente eram punidas por multas. Hoje, cerca de 90 milhões de filhos únicos na China. Em outubro de 2013, no entanto, o governo chinês aboliu a lei por causa do envelhecimento da nação.

Filhos únicos na China são conhecidos como pequenos imperadores | Foto: Reprodução

“Na década de 70 as ideias maltusianas foram vendidas fortemente. Políticas de planejamento e incentivo para tentar diminuir desigualdades foram adotadas, mas não surtiram grande efeito. Na minha opinião, é uma grande falácia a ideia de que o desenvolvimento viria daí. Até para receber fundos de banco no passado era necessário ter proposta de controle populacional. Isso se provou pouco eficiente”, afirma  Ronan Eustáquio Borges.

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