De vereador de Planaltina a “dono” do Pros e “amigo da Dilma”

O ex-vereador do interior de Goiás se aventurou a criar um partido a partir do zero.  Deu certo e ele foi o único goiano no palco em que a reeleita Dilma Rousseff fez o discurso da vitória. Agora, promete ser a ponte entre Goiás e o Planalto

Eurípedes Júnior (primeiro à esquerda), no seleto  grupo que esteve no palco da vitória da candidatura de Dilma à reeleição Foto: Alan Sampaio/iG Brasília

Eurípedes Júnior (primeiro à esquerda), no seleto grupo que esteve no palco da vitória da candidatura de Dilma à reeleição  Foto: Alan Sampaio/iG Brasília

Elder Dias

A cena ficará para a posteridade. Depois do segundo turno mais disputado da história das eleições presidenciais e uma grande expectativa pelo resultado final — a divulgação das parciais foi postergada até o fim da votação no Acre, três horas depois, por causa do fuso horário —, a presidente Dilma Rousseff (PT) apareceu em um palco para dar sua mensagem após o triunfo sobre Aécio Neves, com 51,62% dos votos válidos contra 48,38% do adversário tucano.

Ali, na foto da vitória suada, em um hotel perto do Palácio da Alvorada, na capital federal, estava um único goiano: Eurípedes Júnior, o presidente do Partido Republicano da Ordem Social (Pros), um dos oito partidos que participaram da coligação que reconduziu Dilma para ficar mais quatro anos naquele endereço. “Tenho uma amizade muito boa com a presidenta Dilma”, assegura o político, chamando-a da forma adotada pelos mais próximos ideologicamente ao PT. Até chegar a se tornar um integrante da bancada goiana no Congresso — hoje ele é suplente, mas vai assumir — e estreitar ligação com a presidente da República, um adjetivo pode resumir a trajetória de Eurípedes: surpreendente.

Até 2004, Eurípedes Gomes de Macedo Júnior, hoje com 39 anos e pai de quatro filhos, era apenas o “Júnior do Sintético”, um cidadão de Planaltina de Goiás proprietário de um campo de futebol de grama sintética — daí o codinome. Seu negócio lhe rendia alguma popularidade e, então, os amigos fizeram-lhe a sugestão: por que não se candidatar a vereador? “Eu não tinha intenção de mexer com política. O povo de Planaltina me chamou porque tenho facilidade em fazer amizades; então, resolvi tentar.”

Política hereditária

Não que Júnior não tivesse familiares com currículo na atividade: em sua árvore genealógica há pelo menos três gerações de políticos importantes de cidades do Nordeste goiano. O avô, Jorge Moreira, foi prefeito de Damianópolis; seu primo Vanderlan Moreira dos Santos, prefeito por dois mandatos (de 1997 a 2004) de Mambaí, município que hoje é administrado por Júnior Moreira (PDT), outro primo; Iso Moreira (PSDB), também primo, é ex-prefeito de Simolândia e deputado estadual reeleito agora para o quinto mandato, além de pai de Alessandro Moreira, ex-prefeito de Alvorada do Norte. A mulher de Iso, Ildete Ferreira, também já foi prefeita de Simolândia.

Foi ainda como Júnior do Sintético que tentou se eleger vereador por Planaltina. Candidatou-se pelo PDT e teve uma votação boa para os parâmetros do município (342 votos), mas não o suficiente para lhe garantir uma vaga na Câmara. Ficou na segunda suplência do partido. Em 2008, mais experiente e já no PSL — depois de ter uma rápida passagem pelo PTN — elegeu-se, com 810 votos, o terceiro mais bem votado do município. À sua ficha política Eurípedes acrescentaria ainda dois outros partidos, o PRP e o PRTB, antes que vivesse apenas para o Pros.

No Legislativo, com sua facilidade de articulação, alcançou logo a presidência da Casa. Mas ainda passaria por situações políticas que o levaram a mais duas filiações (PRP e PRTB). Eurípedes diz que seu espírito “questionador” foi um dos motivos que o levaram a pensar na fundação do próprio partido. O hoje presidente do Pros relembra os tempos de vereança. “Por questão de brigas partidárias, eu me via proibido de apoiar um prefeito ou usar a tribuna para fazer determinado pronunciamento. Entendi que como vereador não conseguiria fazer muita coisa.”

Em 2010, pelo PRP, tentou uma cadeira na Assembleia. Passou longe: 3.093 votos. Na cabeça, porém, ele já gestava o projeto Pros. O início da sigla foi no próprio gabinete da Câmara de Planaltina de Goiás. De lá, saiu à caça das necessárias 500 mil assinaturas de eleitores para viabilizar a ideia. Aquele vereador do interior de Goiás fundar seu próprio partido era, até então, na visão dos céticos, uma alucinação, dessas que acometem algumas centenas de brasileiros com a mesma meta. Mas uma coisa é certa e óbvia: se menos de 1% dos que encaram a postulação tiveram sucesso na empreitada, 100% fracassaram dos que até gostariam, mas nem tentaram. Em 2011, o PSD e o PPL conseguiram a meta. Dezoito outras siglas não lograram alcançar o mínimo de assinaturas. O Pros ficou para a próxima. E Eurípedes abriu mão de voos municipais em 2012 para continuar trabalhando por sua criação.

Outra tautologia de quem busca um determinado objetivo: coincidências positivas só podem ocorrer para quem está à disposição delas. Eurípedes Júnior corria contra o tempo para fundar o Pros para as eleições de 2014. O governo procurava um antídoto contra o Solidariedade (SD), partido criado pelo sindicalista e deputado federal Paulinho da Força, que anunciava saída do PDT para formar uma sigla de oposição ao PT. Aquela ideia ousada do político goiano estava já em estágio adiantado e vinha a calhar. Para fechar a costura, a aproximação do empresário Júnior Friboi — que procurava então abrir seu caminho para uma candidatura ao governo de Goiás e queria apoio partidário — selou o destino de sucesso.

Assim foi que, em outubro de 2013, juntaram-se para fundar o Pros — e, pela brecha da lei, trocar de partido sem sofrer processo por infidelidade partidária — dois governadores: José Melo (ex-PMDB), do Amazonas, e Cid Gomes (ex-PSB), do Ceará. A sigla de Eurípedes também começou com 21 deputados federais. Nada mau para quem, naquele momento, estava sem mandato.

Em Goiás, Eurípedes Júnior colocou o partido à disposição do projeto de poder de Júnior Friboi, que, naquele momento, ainda tinha as bênçãos de Iris Rezende para levar adiante sua pré-candidatura pelo PMDB. Não foi o que se confirmou mais à frente, como se sabe. O empresário, desgostoso, sairia do primeiro plano da cena política e deixaria o aliado aberto a negociações com os demais candidatos.

Eurípedes salienta que criou o Pros com o propósito de aproximá-lo dos partidos de esquerda. “Particularmente, sempre apoiei o PT.” O lógico então seria esperar que, sem Friboi, o escolhido do leque de opções fosse Antônio Gomide. Mas foi o tucano Marconi Perillo que agregou o Pros em sua trajetória rumo à reeleição. “Em Goiás foi um pouco diferente”, assinala Eurípedes, em relação ao alinhamento ideológico. No Paraná, também: o Pros elegeu Cida Bor­ghetti como vice na chapa do governador Beto Richa (PSDB), que derrotou, ainda no primeiro turno, a ex-ministra petista Gleisi Hoffmann.

Agora Eurípedes Júnior tinha estrutura, um partido pra chamar de seu. Tentaria não um mandato estadual, mas um voo maior, rumo ao Congresso. Ao fim da eleição deste ano, ficou com a segunda suplência em uma chapa fortíssima, com 72.781 votos. Em votos, superou nomes tradicionais da política goiana, como a deputada Iris Araújo (PMDB), o deputado Valdivino de Oliveira (PSDB) e o ex-deputado Antonio Faleiros (PSDB).

Euripedes Júnior: sonhador de uma “alucinação” que virou realidade

Euripedes Júnior: sonhador de uma “alucinação” que virou realidade

Mais do que um posto honroso, um resultado frutífero: Marconi Perillo abrirá caminho para que ele assuma o mandato. Uma manobra que interessa a todos os envolvidos. A consequência direta é que Eurí­pedes Júnior assume e o Pros aumenta sua bancada de 11 eleitos. A consequência decorrente é a efetivação de dois nomes — o primeiro suplente é Sandes Júnior (PP) — de partidos aliados à presidente Dilma, mostrando um gesto de abertura do governador que deverá trazer retorno positivo para Goiás.

O futuro congressista conta, como demonstração de seu poder de aglutinação, ter sido um intermediador do fechamento do acordo definitivo entre o Estado e a União sobre o destino da Celg, em agosto. “Conversei com a presidente e com o governador, separadamente. Então, o encontro ficou marcado.” Ele relata que, na antessala (Dilma e Marconi encontraram-se de forma reservada), estavam com ele o prefeito de Planaltina, Eles Reis (PTC), a quem Eurípedes levava para uma audiência com Dilma, e, pelo lado do Planalto, o ministro de Relações Institucionais, Ricardo Berzoini.

Em suma: o Pros, sonho do vereador de Planaltina de Goiás, hoje está junto com quem ocupa o poder no Estado e na esfera federal. “Mas não estamos na política em troca de cargos. Queremos é dar condições de governabilidade, para que tanto Dilma como Marconi deem continuidade a seus projetos.”

Vida corrida

A vida do ex-proprietário de campo de futebol e hoje dono de partido político também mudou bastante. “Recebo de 150 a 200 ligações por dia”, o que significa ter assessores para fazer a triagem do fluxo. Continua a residir em Planaltina, o que não deixa de ser estratégico, já que a cidade fica a menos de 60 quilômetros de Brasília. Como presidente do Pros, tem de viajar por todo o País — “já estamos fixados em mais da metade dos municípios brasileiros” — e fica em casa de duas a três vezes por semana. Mas, mesmo em família, ele percebe o ônus que a política traz. “Não tem como se desligar, porque quando chego em casa as pessoas vão me procurar. E o telefone também não para.”

Da mesma forma, sobra pouco tempo para os hobbies. Jogar futebol com os amigos, para ele que era dono de um espaço de lazer para tal fim, ficou impraticável. Ele aproveita o tempo para estar com a mulher, Sandra, e os filhos. Leituras? “Apenas jornais, para acompanhar de perto o que está acontecendo”, admite.

Para o próximo mandato de Dilma, Eurípedes Júnior espera ver o Pros contemplado com um ministério. E com força em Goiás, também — o partido elegeu Sérgio Bravo, vereador em Senador Canedo, para a Assembleia. “Temos como ajudar muito o Estado. Se participarmos do governo federal com um ministério, quero aproximar cada vez mais o governador. Não temos de pensar em sigla, é preciso pensar que fomos eleitos para prestar serviço para a população. A eleição já acabou, agora é trabalhar pelo povo”, resume. E ele já elegeu dois pontos de ataque para consolidar a ponte entre a petista Dilma e o tucano Marconi: segurança pública e saúde. “Esses são os principais pontos para tratar entre Estado e União.”

Sobra orgulho a Eurípedes Júnior para falar do Pros. Ele não nega que sempre quis ter “seu” partido. “Escolhi tudo, desde o nome até a logomarca.” A opção pelo número 90, obviamente, também foi dele, que diz não ter nisso nada de superstição ou mística. “É um número fácil, grande. E tem o simbolismo da ‘pedra 90’, que transmite força, credibilidade [90 é a pedra mais alta em algumas modalidades de bingo].” Sim, o Pros é um partido a mais na já muito sortida sopa de letrinhas da política brasileira. Mas isso não é culpa dele. No entanto, por trás dele, há uma história de foco, assertividade, persistência e senso de oportunidade construída a partir de uma só pessoa. E não dá para não admirar quem consegue tal façanha partindo apenas de si próprio.

Análise – Marconistas terão mais influência no governo Dilma do que PT e PMDB de Goiás

Dilma Rousseff e Marconi Perillo: deixando questiúnculas políticas para trás  Foto: Wagnas Cabral

Dilma Rousseff e Marconi Perillo: deixando questiúnculas políticas para trás Foto: Wagnas Cabral

A política tem essas coisas estranhas, que costumam chamam também de “dinâmica” do poder: em Goiás, o PT se aliou ao PMDB de Iris Rezende para derrotar Marconi Perillo (PSDB) no segundo turno das eleições. Sem êxito: o tucano foi reeleito. PMDB e PT são da base de apoio à presidente Dilma Rousseff, que foi bombardeada pelo PSDB durante a campanha — e vice-versa, é bom que se diga. Sem êxito também: a petista ganhou novo mandato, ainda que por uma pequena diferença sobre Aécio Neves, apoiado pelo governador de Goiás.

Em tese, pela lógica até, tudo caminharia para que PT e PMDB goianos tivessem um raio de influência maior no governo federal. Mas não é o que deverá acontecer. Para começo de conversa, as bancadas no Congresso eleitas pelas coligações dos partidos são pífias: o PMDB terá dois deputados (Daniel Vilela e Pedro Chaves) e ajudou a eleger um extremo opositor ao PT para o Senado — Ronaldo Caiado, do DEM; já o PT goiano terá apenas Rubens Otoni a representá-lo no Parlamento.

Ironia do destino, hoje os nomes que mais podem ajudar o Estado de Goiás em um futuro governo Dilma, são três líderes políticos ligados a Marconi Perillo: além de Eurípedes Júnior, presidente nacional do Pros, também o deputado Jovair Arantes, líder da bancada do PTB na Câmara, e Eduardo Machado, presidente nacional do PHS.

Jovair Arantes está no rol dos mais experientes congressistas. Dos parlamentares goianos, somente Roberto Balestra, deputado federal desde 1987, tem mais vivência em Brasília do que ele. É um dos políticos fora do PT em quem Dilma Rousseff mais confia. Eduardo Machado esteve com Marina Silva (PSB) no primeiro turno, mas migrou para a base governista.

Mas é o fato de Eurípedes Júnior ter assegurado sua vaga no Congresso — Marconi fez esse compromisso — que torna o enredo especial. É que, por ele ser o segundo suplente da base aliada, será elevado à titularidade juntamente com o primeiro, Sandes Júnior (PP), que também é de um partido da base da presidente. Para quem perdeu 35 deputados aliados para o ano que vem, com as contas das urnas de 5 de outubro, não é nada ruim trocar dois opositores por parlamentares companheiros.

Marconi e Dilma não se preocuparão com questiúnculas políticas. Ambos precisam se sair bem para dar sequência ao projeto de poder de seus grupos políticos. A presidente sabe que tem de fazer um bom governo para, provavelmente, devolver o bastão a Lula, como preveem dez entre dez analistas. O governador quer voo nacional, mas precisa ter as benesses federais para seguir com segurança nesse rumo. Defi­nitivamente, os opostos se atraem.

Uma resposta para “De vereador de Planaltina a “dono” do Pros e “amigo da Dilma””

  1. Francisco disse:

    A Política Brasileira é para VAGABUNDOS e DESOCUPADOS.

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