De Arendt e Tocqueville para os dias de hoje: a solução para a política só se dá pela política

Livro da pesquisadora e jornalista Rosângela Chaves compara conceitos dos dois pensadores, que têm muito a dizer sobre a conjuntura nacional e mundial

Hannah Arendt e Alexis de Tocqueville: visões sobre opinião, democracia e liberdade comparadas sob o olhar da pesquisadora Rosângela Chaves | Foto: Reprodução

Um dos arautos dos primórdios da democracia, Alexis de Tocqueville foi, por assim dizer, um “rebelde” em relação à própria origem: nascido na pós-Revolução Francesa, na Paris de 1805, pertencia a uma família aristocrata com origens na Normandia. Ao viajar da França para os Estados Unidos, enviado a trabalho em 1831, analisou in loco o nascedouro democrático no continente americano. A observação arguta rendeu nada menos do que o clássico A Democracia na América, obra seminal em estudos das ciências humanas, especialmente em filosofia e ciência política. Tocqueville consegue captar a aura energética daquela nova nação, mas, sobretudo, o quão intensamente as pessoas se esforçaram para que aquele novo regime se tornasse bem-sucedida.

Hannah Arendt é uma personagem do século seguinte, que viveu e estudou intensamente seu tempo. Em As Origens do Totalitarismo, a judia alemã que fugiu do nazismo em sua terra natal discute o antissemitismo, o imperialismo, o totalitarismo, mas também remete a reflexões sobre contradições dos direitos humanos. Com seu trabalho diante do julgamento de Adolf Eichmann no tribunal de Jerusalém, a pensadora criou o conceito de “banalidade do mal”, um dos mais discutidos – não sem razão, diga-se – na sociedade atual.

Espaçados entre si por mais de cem anos, os trabalhos de Tocqueville e Arendt possuem um ponto em comum: uma reflexão profunda colhida no calor dos acontecimentos e que, elaborada com especial brilhantismo, se tornaria atemporal. E o que dizer, então, de uma pesquisa detalhada comparando conceitos de ambos, Alexis e Hannah, sobre revolução, liberdade, democracia e opinião? Algo no mínimo desafiador.

“O dia de glória chegou”: referência à “Marselhesa” no título do livro evoca os valores republicanos | Foto: Divulgação

Foi exatamente isso que se propôs a jornalista, professora e pesquisadora Rosângela Chaves para tema de sua tese de doutorado, defendida em setembro de 2018 no Programa de Pós-Graduação em Filosofia (PPGFil) da Universidade Federal de Goiás (UFG) e que agora virou livro: O Dia de Glória Chegou: revolução, opinião e liberdade em Tocqueville e Arendt (547 páginas), publicado pelo selo Edições 70, da Almedina, uma das mais prestigiadas editoras de Portugal. A obra – lançada oficialmente em 22 de março, na livraria Leitura do Goiânia Shopping – abre ainda a Coleção Anpof, após ter sido selecionada em edital nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia em parceria com a editora portuguesa.

Não é a primeira contribuição acadêmico-literária de Rosângela: em 2009 ela já havia publicado A Capacidade de Julgar: Um Diálogo com Hannah Arendt (Cânone Editorial, 179 páginas), fruto de sua dissertação, também no PPGFil – “A liberdade de Julgar: por uma ética da responsabilidade em Hannah Arendt”, orientada pelo professor Adriano Naves de Brito.

Para o desafio de tecer no doutorado a comparação entre Arendt, a autora objeto de suas pesquisas até então, e Tocqueville, Rosângela contou com o suporte da professora Helena Esser dos Reis, que passou a orientá-la. Helena é uma das pioneiras no estudo do pensador francês no Brasil: sua tese, ainda de 2002, tem como título “A liberdade do cidadão: uma análise do pensamento ético-político de Alexis de Tocqueville”.

O texto de Rosângela traz uma vantagem sobre a maioria dos escritos relacionados a pesquisas de doutorado: é redigido com linguagem clara e objetiva, como convém a uma jornalista que se dirige a um leitor interessado no tema, mas que não precisa ser necessariamente um especialista da área. Ou seja, ter cursado Filosofia Política ou algo similar não é pré-requisito para se envolver com o conteúdo distribuído em mais de 500 páginas.

O título é uma referência a um verso de A Marselhesa, o hino nacional da França. “O título [“O dia da glória chegou”] está relacionado à ideia da revolução – que está no subtítulo –, da liberdade e da opinião, essa a primeira ponte que encontrei entre Tocqueville e Arendt”, explicou Rosângela ao Jornal Opção.

“Quando terminei minha dissertação, me interessei muito sobre as reflexões de Arendt sobre a opinião – a doxa, como é a palavra em grego. Ela busca recuperar a dignidade da opinião, que é algo ligado à política. O campo da política não é o da verdade, mas o da opinião. Se eu digo ‘esta é a verdade!’, a partir daí não há mais discussão, então não pode haver debate nem política”. diz a autora.

Rosângela Chaves: jornalista fez pesquisa inovadora ao comparar temas chave para o entendimento de valores democráticos em Tocqueville e Arendt | Foto: Divulgação

Em outras palavras, quando a esfera das verdades científicas (coma o tecnicismo) ou dogmáticas (como a religião), invade a esfera da política, perdem os dois lados, ressalta Rosângela. “A religião, por exemplo, está essencialmente centrada em dogmas. E justamente por isso é preciso separar religião e política, porque, quando se traz a religião para a política, pervertem-se política e religião.”

Por outro lado, se Arendt quer recuperar a dignidade da opinião, ela própria também faz a condenação da opinião pública, que seria uma contradição, em termos. “Para ela, não há uma opinião pública; opinião, por ser um ponto de vista, só pode ser particular. A massa não tem opinião, tem humor. Opinião é fruto de debate e massa não debate, age por efeito manada.”

Foi então que ligou o conceito ao tema da tirania da maioria que havia lido em A Democracia na América, de Tocqueville. “Ele diz, em seu clássico, que democracia é algo bom, mas alertando para o perigo de tirania da massa, da maioria, aquilo que é uma opressão e que pode levar ao pensamento único”, explica.

Ao estudar os dois pensadores para elaborar seu projeto, Rosângela percebeu que as afinidades entre ambos eram muito maiores do que aquela crítica pontual à opinião pública. “Por exemplo, a forma com que eles avaliam a revolução – tanto a Francesa como a Americana; a concepção de liberdade além da chave liberal, mas como participação e ação coletiva; e a forma de avaliar o tema da igualdade.

Os quatro capítulos de O Dia de Glória Chegou ficaram divididos de acordo com os temas em comparação: o primeiro, sobre a revolução na visão dos dois pensadores; o segundo, a opinião conjugada ao conceito de “despotismo democrático” em Tocqueville e do totalitarismo em Arendt; no terceiro, há o resgate do lema da Revolução Francesa (igualdade, fraternidade e liberdade) trabalhando o conceito de “felicidade pública” na experiência da participação na sociedade.

Por fim, no último capítulo, há a indicação de caminhos institucionais que ambos pensaram para que a prática dessa ação coletiva pudesse se dar. “Nesse sentido, Tocqueville fala sobre as comunas, experiências democráticas que ele observou percorrendo os Estados Unidos na década de 1830; Arendt exorta essa prática por meio de conselhos populares, do associativismo e da imprensa.”

Individualismo, uma doença cívica
Em um diagnóstico das questões da modernidade, Tocqueville, lembra Rosângela, é um dos primeiros a usar o termo “individualismo” em vez de “egoísmo”. “Ele percebe isso muito cedo ao escrever. Ao conceituá-lo, ele mostra o sujeito preocupado apenas com sua família, sua vida privada, seus amigos e, ao mesmo tempo, distante da vida pública, da oportunidade de ser um bom cidadão. Para Tocqueville, o individualismo é uma doença cívica, uma doença do cidadão. A democracia, para ele, não é só um regime político, mas um espaço social baseado na igualdade.”

A pesquisadora diz que o francês faz um parâmetro entre a democracia e a aristocracia. “A aristocracia tinha laços entre senhores e seus servos, mesmo com uma hierarquia. Na democracia, que traz todos para o mesmo patamar, Tocqueville vê uma tendência, nessa sociedade, de as pessoas se isolarem, de terem laços frágeis. É um problema dos regimes modernos democráticos”, avalia.

No fim, é uma crítica do liberal Tocqueville – “ainda que liberal de outra espécie”, como ele dizia, lembra a escritora – ao liberalismo, ao Estado mínimo, apresentando suas contradições, embora ele passasse longe de vislumbrar como viável um Estado burocrático, tomando conta de tudo, como no socialismo.

Sobre Hannah Arendt em relação ao mesmo tema, Rosângela discorda de autores que consideram-na liberal. “Essa é uma leitura que acho completamente equivocada. Na verdade, Arendt diz que o liberalismo tirou a liberdade da política, por limitar a liberdade ao campo privado. Só que, quando se faz isso, a pessoa abdica de sua participação, da preocupação como cidadão, e daí vem o risco de isso derivar em formas autoritárias.

O que ambos reivindicam, enfim? A participação das pessoas, lembra Rosângela. “Tanto para Arendt como para Tocqueville, a vida privada, com o indivíduo voltado apenas para si mesmo, é destituída de sentido. Por isso, eu os filio em uma tradição republicana, de participação coletiva, popular. Hannah Arendt diz, voltando em Maquiavel, que é preciso ter como virtude a coragem para fazer política, porque isso é sair da zona de conforto. É difícil, porque política é revelar-se no espaço público. E, em nossa sociedade, as pessoas querem cada vez mais viverem em seu ‘mundinho’.”

E como resumir, em outras palavras, o que está em comum nos dois autores? “A saída da política só se dá pela política. É no exercício da política, na ação política, que se acha o caminho da boa política. Esse é o desafio que está dado para nós, não tem modelo”, conclui Rosângela Chaves. Uma boa leitura para entender, a partir de dois expoentes de outros tempos, como viver as experiências sociais da melhor forma em nosso século.

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