Danos neurológicos, falência renal e até diabetes – conheça as sequelas deixadas pela Covid-19

Além do comprometimento pulmonar, o coronavírus deixa consequências graves no organismo

Idoso é testado contra o coronavírus em abrigo da região Noroeste de Goiânia
Idoso é testado contra o coronavírus em abrigo da região Noroeste de Goiânia | Foto: Reprodução

Sâmara Kelly, 32 anos, contraiu a Covid-19 de sua mãe em meados de junho. A mãe faleceu por uma parada respiratória em decorrência da doença apenas dois dias antes de Sâmara Kelly ser internada. Ela, que estava grávida de dois meses à época, viria a passar 103 dias internada no Hospital das Clínicas, em Goiânia – destes, 60 dias esteve na unidade de tratamento intensivo (UTI).

Sâmara Kelly chegou a ter 85% dos pulmões comprometidos; teve duas paradas cardiorrespiratórias; sofreu com infecções bacterianas em decorrência das traqueostomias. Como resultado, ao retornar para casa, além da fraqueza muscular que a confinou à cadeira de rodas, Sâmara Kelly teve complicações neurológicas e perda quase completa da audição. 

Embora nem todos esses danos advenham do novo coronavírus (Sars-CoV-2) propriamente dito, mas de medicamentos e terapias utilizadas para tratar sintomas da doença, médicos explicam que sequelas após a internação em decorrência da Covid-19 são normais. Caso haja internação em UTI, são até mesmo prováveis. 

Hélvio Gervásio é o médico intensivista que atua na linha de frente contra o coronavírus no hospital Anis Rassi e explica que entre as mais sérias consequências da infecção grave pelo coronavírus podem haver danos neurológicos, renais e hematológicos. Ele pontua que, além dessas complicações, pacientes que ficam longamente internados na UTI podem ficar emocionalmente debilitados; com fraqueza muscular importante; apresentar dores como mialgia e lombalgia; danos na traqueia em decorrência da intubação. 

Entre as mais sérias consequências da infecção grave pelo coronavírus podem haver danos neurológicos, renais e hematológicos | Foto: EBC

No caso de Sâmara Kelly, que perdeu quase completamente a audição e ainda não recebeu um prognóstico médico a respeito da reversibilidade da surdez, o dano foi causado por consequência do antibiótico amicacina, que recebeu para combater uma infecção bacteriana contraída na UTI. Hélvio Gervásio afirma que, no tratamento intensivo, são comuns as situações em que se tem de se tem de pesar os prós e os contras de medicamentos com efeitos colaterais extremos. 

Danos Neurológicos

Sem invadir diretamente o cérebro ou os nervos, o coronavírus de 2019 causa problemas neurológicos potencialmente prejudiciais em cerca de um em cada sete infectados, segundo um novo estudo publicado no periódico “Neurology” no dia 5 de outubro. O estudo monitorou de perto o progresso de 606 pacientes adultos Covid-19 com diagnóstico de danos no cérebro ou outras condições médicas relacionadas aos nervos.

Liderado por pesquisadores da NYU Grossman School of Medicine, o estudo não mostrou nenhum caso de inflamação do cérebro ou dos nervos, incluindo condições como meningite ou encefalite, indicando que não houve invasão imediata desses órgãos pelo vírus SARS-CoV -2. Embora isso deva tranquilizar os pacientes, as complicações neurológicas do COVID-19 devem ser levadas a sério porque aumentam o risco de um paciente morrer enquanto ainda está no hospital em 38 por cento, dizem os pesquisadores. Esses efeitos adversos também aumentam a probabilidade de um paciente com coronavírus em 28 por cento precisar de terapia de longo prazo ou de reabilitação imediatamente após sua permanência no hospital.

Falência Renal

Profissionais de saúde na luta para salvar paciente de Covid-19 | Foto: Reprodução

Pacientes da Covid-19 que têm doença renal crônica (DRC) ou desenvolvem lesão renal relacionada ao coronavírus na unidade de terapia intensiva (UTI) enfrentam maiores chances de morte do que seus pares saudáveis, de acordo com um estudo publicado no final da semana passada na revista Anesthesia. Liderado por pesquisadores do Imperial College London, o estudo envolveu 372 pacientes adultos COVID-19 em quatro UTIs no Reino Unido. 

No total, 139 de 372 pacientes (37%) morreram. Dos 156 pacientes com rins saudáveis, 32 (21%) morreram no hospital, em contraste com 81 de 168 pacientes (48%) com lesão renal recentemente desenvolvida.

Os autores do estudo disseram à plataforma CIDRAP (Centro de Pesquisa e Política de Doenças Infecciosas, em inglês) não saber exatamente por que pacientes com problemas renais têm maior probabilidade do que outros de morrer de COVID-19, mas teorizam que pode ser porque o vírus causa inflamação dos vasos sanguíneos renais, semelhante à forma como inflama os pulmões. A resposta imune aumentada (“tempestade de citocinas”) desencadeada pelo vírus lesa os rins; ou a falência de múltiplos órgãos leva à morte do tecido renal.

Tromboembolismo Pulmonar (TEP)

Um estudo holandês de 184 pacientes com pneumonia covid-19 admitidos em uma unidade de terapia intensiva (UTI) encontrou uma incidência de 49% de complicações trombóticas – principalmente alterações vistas em angiogramas pulmonares de tomografia computadorizada (TC). Os autores disseram que esse nível era “notavelmente alto”, visto que todos os pacientes receberam pelo menos doses padrão de tromboprofilaxia.

A resposta imune à Covid-19 causa a tempestade de citocinas, que aumenta a inflamação maciça, que por sua vez aumenta a produção de fatores de coagulação no fígado. Além disso, pacientes na UTI possuem maior risco de formação de coágulos pelo fato de ficarem imobilizados por longo tempo, explica o médico Hélvio Gervásio. Por estes fatores, o tratamento com anticoagulantes tornou-se protocolar.

pacientes na UTI possuem risco de formação de coágulos pelo fato de ficarem imobilizados por longo tempo | Foto: Reprodução

Diabetes

Segundo artigo publicado no New England Journal of Medicine, existe uma relação bidirecional entre Covid-19 e diabetes. Por um lado, a diabetes está associado a um risco aumentado de Covid-19 grave; por outro lado, diabetes e complicações metabólicas graves foram observados em pacientes com Covid-19. 

Segundo Hélvio Gervásio, diabetes em pacientes contaminados com coronavírus podem ocorrer por dois motivos: primeiro e mais comumente, os anti-inflamatórios corticóides podem  elevar o risco de diabetes tipo 2 após um curto período de uso por prejudicar o metabolismo da glicose. Entretanto, também pode ocorrer de o vírus que causa Covid-19, ligar-se a receptores de enzimas nas células do pâncreas, causando novos mecanismos de doença.

Solidariedade

Para ajudar a família de Sâmara Kelly, o leitor pode doar pelos telefones (62) 09 9206-4034 / (62) 9 9496-4719.

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