A “crucificação” da transexual na Parada Gay e a reação ao ato revelam civilidade em marcha à ré

No púlpito de pastores ou nos eventos da militância homossexual, há uma busca para impor a própria verdade. Se isso é obviamente ruim para o todo da sociedade, tem quem ganhe com o cabo de guerra

Viviany Beleboni, “crucificada” durante a Parada Gay em São Paulo, em ato que causou polêmica e revolta

Viviany Beleboni, “crucificada” durante a Parada Gay em São Paulo, em ato que causou polêmica e revolta

Elder Dias

Não foi a crise econômica no Brasil, que parece superar seu ápice a cada semana, nem a votação da reforma política no Congresso, que avança pela batuta imprudente e questionável do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Nenhum dos dois grandes temas nacionais da atualidade foi páreo, nas redes sociais, para a polêmica detonada na 19ª Parada Gay de São Paulo: a encenação na qual uma transexual fez cosplay [abreviatura para “costume play”, algo como representação de personagem a caráter] de Jesus Cristo na via crúcis — com coroa de espinhos e tudo. Sua “crucificação” na Avenida Paulista foi acompanhada de beijos homoafetivos entre os participantes do evento.

Em um país que abre debate para uma inconsequente redução da maioridade penal — medida apoiada por 87% da população, segundo pesquisa do Datafolha divulgada em abril – e no qual existe um grupamento de políticos que passou a ser chamado de “bancada BBB” (“boi, Bíblia e bala”), não se poderia esperar outra coisa que não uma reação vociferante ao que se passou na capital paulistana. E foi o que aconteceu: a intensidade das reações mostra que o Brasil revela-se cada vez mais o país conservador que sempre foi, mas que escondia de si mesmo com a capa da liberalidade dos carnavais e dos fios dentais nas praias paradisíacas.

O cristo da vez, literalmente, foi a morena Viviany Beleboni, de 26 anos. De rosto e corpo bonitos, ela naturalmente levou sensualidade à cena da crucificação que protagonizava. Na cabeça, uma coroa de espinhos e, acima dela, uma placa com a inscrição “Basta de homofobia com GLBTs” [sigla para “gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros”]; pelo corpo, muito sangue cenográfico, além de mãos e pés “pregados” à madeira. Ficou por cerca de cinco horas na cruz, mas o suplício de verdade viria nos dias seguintes: uma torrente de mensagens difamatórias, religiosos radicais praguejando, insultos e ameaças vindos de todas as unidades federativas do Brasil — eis aí, de novo, o pior das conveniências do mundo interligado.

Foi uma polêmica que tomou conta das redes sociais de forma viral. Contaminou também o Legislativo, em suas várias esferas e com vários personagens. No Senado, Magno Malta (PR-ES), evangélico, fez um pronunciamento entre o indignado e o histérico e, ainda na segunda-feira, 8, entrou com representação criminal contra a “crucificação”; surfando na onda, na Câmara dos Deputados o goiano João Campos (PSDB), também evangélico, anunciou que será outro a abrir processo contra Viviany.

Na Assembleia Legislativa de Pernambuco, teve deputado pedindo uso da força policial na próxima Parada Gay do Recife para coibir o uso de símbolos cristãos por manifestantes. Um pastor disse: “Vou encaminhar essa pouca vergonha para o papa. Isso é um caso de polícia e ela devia ter agido (…) Se eu fosse muçulmano, eu pegaria uma espingarda e resolveria, mas eu sou cristão”, disse, acredite quem quiser, o deputado-pastor Adalto Santos (PSB). Na Câmara de Feira de Santana (BA), o vereador Edvaldo Lima (PP) propôs moção de censura ao evento paulistano. Paramos aqui, porque se fôssemos continuar a exemplificar todas as reações de políticos Brasil afora não haveria espaço aqui algum a não ser para esse tipo de relato.

A indignação oportunista de Marco Feliciano

Marco Feliciano, deputado-pastor do PSC-SP: “Debochar de Jesus pode, mas eu sou intolerante, né?”

Marco Feliciano, deputado-pastor do PSC-SP: “Debochar de Jesus pode, mas eu sou intolerante, né?”

No mundo do cristianismo fundamentalista, a estrela maior é Marco Feliciano (PSC-SP). E, obviamente, o que aconteceu na Avenida Paulista não passaria sem uma reação típica: “Imagens que chocam, agridem e machucam. Isto pode? É liberdade de expressão, dizem eles. Debochar da fé na porta de uma igreja pode? Colocar Jesus num beijo gay pode? Enfiar um crucifixo no ânus pode? Despedaçar símbolos religiosos pode? Usar símbolos católicos como tapa sexo pode? Dizer que sou contra tudo isso não pode? Sou intolerante, né?”, escreveu o deputado-pastor no Facebook — em tempo: sim, Vossa Excelência é intolerante.

Outro expoente do pop cristão é Thalles Roberto, aclamado atualmente como maior nome entre os cantores de música gospel. Também pelas redes, clamou pela vingança de Deus contra o “deboche”. “Parada gay? Isto aí é cuspir no nome que está acima de todos os nomes! Eles não sabem do que debocharam e do que fizeram! Que vocês recebam o juízo pelo desrespeito! Que venha fogo do céu sobre Sodoma e Gomorra [cidades destruídas, segundo a Bíblia, por conta do pecado de seu povo]! Essa parada gay acaba aqui, ano que vem não tem mais! Juízo! Indecência do capeta! Povo cego!”, disse Thalles, ainda no Facebook.

Como era de se esperar, Viviany, a pivô do escândalo, foi procurada por uma série de veículos da imprensa, principalmente os sensacionalistas, para falar sobre o episódio. E resumiu o que quis com seu ato: “Eu vejo a parada como um protesto, não como uma festa”, disse. “Usei as marcas de Jesus, que foi humilhado, agredido e morto. Justamente o que tem acontecido com muita gente no meio GLS, mas com isso ninguém se choca.”

Faz sentido. O preconceito e a discriminação no Brasil, não só contra gays, sempre existiram, mas de forma velada. Ultimamente, com um governo de centro-esquerda e o avanço das políticas sociais para as minorias — como a questão das cotas raciais, por exemplo —, essas características tem ganhado contornos, digamos, mais “sinceros” e institucionalizados. A reação em coro do que se chama de “bancada BBB” prova isso.

A encenação de uma crucificação (fato pertencente ao universo simbólico dos cristãos) de uma pessoa trans na Parada Gay (evento maior do pensamento GLBT no Brasil) precisaria ser avaliada sem envolvimento com a causa ou com a anticausa. Nesses tempos de acirramento da intolerância, uma pergunta básica poderia resolver o dilema: a performance de Viviany, não obstante sua intenção particular — ela disse que a encenação seria para sensibilizar e não para agredir —, serviu para construir um diálogo maior sobre o tema das violências de que são vítimas os homossexuais, notadamente aqueles que se expõem de forma mais vulnerável, como os travestis?

A intolerância seletiva de Jean Wyllys

Jean Wyllys, deputado do Psol-RJ e militante da causa LGBT: “Crucificação de trans foi falsa intolerância religiosa”

Jean Wyllys, deputado do Psol-RJ e militante da causa LGBT: “Crucificação de trans foi falsa intolerância religiosa”

Pelo visto, não. Basta ver que a reação foi negativa não só entre os cristãos mais extremados. Muitos entre os tidos como “cristãos sensatos” também não gostaram da encenação. E chegaram a falar de uma “intolerância religiosa” pelo avesso.

Líder do movimento pelos direitos homossexuais na Câmara, o deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) tentou justificar a encenação polêmica. No trecho abaixo, ele responde a uma pergunta feita por repórter da Rede Vida (emissora de TV católica):

“A história do Brasil está marcada pela intolerância religiosa. Houve um tempo em que a religião católica era a religião oficial do Brasil e as outras religiões eram perseguidas — não só as religiões de matriz africana, como os próprios evangélicos eram perseguidos. Quando a religião católica deixou de ser oficial — e o Brasil se tornou um Estado laico, digamos assim —, houve a liberdade de crença, e as pessoas puderam expressar sua liberdade de crença. Mas isso não limou (sic) das relações culturais, das relações sociais, a intolerância religiosa. Mas nem tudo é intolerância religiosa: existe a falsa intolerância religiosa. Por exemplo, dizer que a imagem de uma artista transexual na Parada do Orgulho Gay representando uma crucificação é uma falácia, isso não é intolerância religiosa. Intolerância religiosa é, por exemplo, um pastor chutar uma imagem de Nossa Senhora Aparecida ou queimar imagens sacras católicas, acusando (sic) de falsas imagens. Intolerância religiosa é invadir um terreiro de candomblé e depredar os pejis [locais sagrados] dos orixás, ou chamar uma mãe de santo de bruxa, ou estimular o ódio às religiões de matriz africana nos telecultos. Intolerância religiosa é dizer que os judeus são culpados pela morte de Jesus e com isso alimentar um antissemitismo odioso contra a população judaica, seja étnica, seja religiosa (sic). Intolerância religiosa é tratar toda pessoa que professa o islamismo como terrorista. É dizer que o Islã é terrorismo. Então, nós temos casos de intolerância religiosa ainda impregnados na cultura e nas relações sociais. Nós precisamos distinguir intolerância religiosa de falsa intolerância religiosa. Voltou a dizer: manifestações artísticas — vídeos como os do Porta dos Fundos [portal humorístico na internet] ou o trabalho do José Celso Martinez [dramaturgo], no Teatro Oficina — não é (sic) intolerância religiosa. Muito pelo contrário, é expressão artística se valendo de um acervo que é hoje patrimônio da humanidade, que é a iconografia cristã. Essa iconografia é hoje acervo da humanidade. Jesus não foi o único ser humano a morrer crucificado. A crucificação era uma condenação à morte, era como a cadeira elétrica ou como a forca. Outras pessoas foram crucificadas ao longo da história. Então não é propriedade do cristianismo a cruz nem a crucificação (sic). Então a gente precisa distinguir o que é intolerância de fato do que não é intolerância.”

Jean Wyllys falou muito, mas disse pouco. Ao pé da letra, a performance de Viviany realmente pode não ser vista como algo que remeta à intolerância e pode ser enquadrada como manifestação artística. Mas não há como não deixar de observar o contexto em que a cena se deu: em uma cidade com uma imensa população conservadora — São Paulo elegeu Marco Feliciano como um dos campeões de votos —, apesar de ser a maior metrópole do hemisfério sul; foi feita em um país de maioria cristã; e em um contexto de acirramento da disputa ideológica contra grupos religiosos fundamentalistas. Alusões a imagem de Jesus na cruz já foram feitas em outras abordagens — o jogador Neymar apareceu “crucificado” em uma capa da revista esportiva “Placar” e a cantora Madonna também protagonizou algo parecido. Mas, a nesses casos a comparação perde a validade por não ter partido de um “rival” ideológico.

Imaginemos qual opinião o deputado Jean Wyllys teria sobre outra manifestação artística, hipotética: uma companhia de teatro produzindo uma peça em que o enredo gira em torno de um pastor que consegue, efetivamente, a “cura” gay. Durante os diversos atos, várias personagens famosas e assumidas, como alguém representando o próprio Jean Wyllys, resolvem pôr à prova o experimento, passando pela igreja… e, vejam, acabam se tornando realmente heterossexuais.

Seria também manifestação artística, liberdade de expressão? Vista por olhos neutros, seria, ainda que de qualidade duvidosa. Mas o movimento LGBT reagiria de modo pouco sereno à “homofobia” ali contida.

Está claro que existem dois grupos em disputa pelas mesmas questões: de um lado, os cristãos fundamentalistas; no outro, os militantes dos direitos homossexuais. Entre uns e outros, no jogo democrático, existe uma massa que precisa ser convencida e que, a priori, não se encontra aderida a nenhum dos grupos. Podem ser tanto cristãos não radicais como homossexuais não ativistas, mas também heterossexuais não cristãos. São pessoas que têm seus valores pessoais sem, no entanto, estar conectadas a uma ideia já formada.
Essas pessoas estão aí para terem sua opinião conquistada. Qual é a avaliação feita por esses “não alinhados” sobre episódios como o de domingo? Entre alguns deles, o que se observou foi um olhar de reprovação da abordagem. Acham que haveria outras formas de chamar a atenção para o tema, importante — sim, existem gays que são mortos apenas pelo fato de serem gays —, e que a forma escolhida foi infeliz.

Os direitos de pessoas homossexuais são um debate já superado em outros países. Praticamente toda a Europa, mesmo nos países católicos, tidos como mais conservadores, já há reconhecimento da união civil entre pessoas do mesmo sexo. Também no Brasil a coisa tende a evoluir nesse sentido. Poderia acontecer de forma mais tranquila. Mas o que ocorre, seja no púlpito de pastores ou em atos de ativistas gays, parece ser a busca pelo acirramento, por impor sua própria verdade. Isso é de fato ruim, mas tem quem ganhe com esse cabo de guerra.

Politicamente, a discussão nesse nível não parece ser favorável ao todo da sociedade. Mas são exatamente os dois extremos que capitalizam votos para a próxima eleição, ao reafirmarem sua posição radical. Dessa forma e ironicamente, Marco Feliciano e Jean Wyllys, ao se atacarem, não fazem mais do que se ajudar mutuamente a permanecer nos holofotes e aumentar suas bases de apoio.

2 respostas para “A “crucificação” da transexual na Parada Gay e a reação ao ato revelam civilidade em marcha à ré”

  1. Avatar ERIK JUBE disse:

    87% da população que apoia a redução da maioridade penal é inconsequente? Sério? Vcs dos outros 13% são os iluminados? Os tutores dos ignorantes? Aqueles cujos valores laicos universais levarão nossa sociedade a prosperidade e desenvolvimento? Mas eu fico pensando aqui com meus botões conservadores… Em 1917 lá na longínqua Mãe Rússia vcs já não tiveram sua chance de nos guiar ao futuro e se não me engano deu numa grande mancha vermelha de morte, fome e incompetência? Vou dar um Google aqui e ver se não estou enganado mas a historia realmente se dá em ciclos que se repetirão ao fim… Jacobinos, bolcheviques, imprensa marrom iluminada… Esse debate vai longe e sinceramente é um debate chato que tira o foco de coisas que realmente importam: Os índices de emprego estão derretendo, nossas universidades não conseguem formar profissionais q inovem e tirem nosso país do grupo de vendedores de laranja e minério de ferro, nossa representação política é mediocre e corrupta… Mas os iluminados têm um plano… Os inconsequentes que se calem e aceitem sua insignificância (87% de ignorância e obscurantismo!)

  2. Só se for na sua cabeça encéfalo, arcaica prostituída e ignorante!!! Desde quando praticar sexo anal e casamento entre pessoas do mesmo sexo é um ato de civilidade e cientificamente evoluída? Jesus Cristo nascido a mais de 2.000 anos atrás já sabia o que vc não entende hoje, com todos os meios de informações a sua disposição

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