Crise poderia ser menor se Goiânia tivesse uma economia diversificada

Incentivo para que a cidade se desenvolvesse tendo como base apenas a área de serviços criou a falsa ideia de que esta é a única vocação econômica da cidade. Não é

Comércio fechado na Avenida Bernardo Sayão: reflexo de uma crise econômica que poderia ser menor, se Goiânia não dependesse de apenas um setor da economia

Comércio fechado na Avenida Bernardo Sayão: reflexo de uma crise econômica que poderia ser menor, se Goiânia não dependesse de apenas um setor da economia | Fernando Leite/Jornal Opção

Marcos Nunes Carreiro 

Dentro do leque de setores que movimentam a economia, o de serviços é caracterizado como aquele que atende a alguma necessidade sem se tornar material. Essa área econômica ganhou força nas últimas décadas, sobretudo com o aumento das terceirizações no Brasil.

O fenômeno alcançou seu ápice em 2012, quando o setor de serviços chegou a representar 68,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Isso se deu, em grande parte, devido ao modelo de crescimento econômico brasileiro, que foi alcançado com base, sobretudo, no consumo e no aumento da renda da população. Serviços têm ligação direta com renda e consumo, pois, famílias com mais poder de consumo significam famílias que demandam mais e melhores serviços prestados.

Exatamente por isso, quando a crise se acentuou em 2015, e as famílias brasileiras experimentaram uma constante e aparentemente irreversível perda de seu poder de compra, o setor de serviços despencou, acumulando perdas consecutivas de 3,6% naquele ano e chegando a 5% no acumulado de 12 meses, entre julho de 2015 e o mesmo mês deste ano.

Em consequência desse cenário, as cidades cuja vocação é a área de serviços, sofreram sucessivas perdas econômicas. Goiânia foi uma delas. A capital registrou queda de sua participação no PIB, o que pode ser constatado na prática com uma pequena volta na cidade. Em pontos importantes da economia goianiense, como a Avenida 85, por exemplo, é possível perceber dezenas de lojas fechadas, inclusive galerias inteiras vazias. Isso porque o esvaziamento do setor afeta diretamente também o comércio.

Uma das causas do momento ruim vivido por Goiânia é, sem dúvidas, a falta de diversificação de sua economia. Cidades como Rio Verde e Itumbiara, por exemplo, conseguiram diversificar sua atuação econômica e, por isso, passaram ao largo da crise. Rio Verde tem uma economia fundamentalmente agropecuária, mas conseguiu promover uma variação de sua produção e, justamente por isso, não foi tão atingida pela desvalorização das commodities brasileiras no mercado exterior.

Já Itumbiara apostou em investimento tanto na industrialização da cidade quanto nos outros setores: agropecuária, serviços e, consequentemente, o comércio. Tais atitudes fizeram com os municípios tivessem mais estrutura econômica para aguentar a crise que atingiu o Brasil e que ainda causa problemas à maioria das cidades brasileiras. E Goiânia? A capital goiana tem condições de diversificar sua atuação econômica? A cidade tem outras vocações que não seja serviços?

Thiago Camargo, superintendente executivo de inovação, ciência e tecnologia da Secretaria de Desenvolvimento de Goiás (SED), diz que não apenas é possível, como necessário. Ela ponta que, em 2014, último ano em que há dados consolidados a respeito da receita gerada pelas atividades econômicas de Goiânia, o maior serviço da cidade vinha da administração pública, com uma renda mensal de R$ 344 milhões, o que mostra a fragilidade da economia goianiense.

Quais ramos poderiam ser explorados pela capital? Ele afirma, por exemplo, que Goiânia tem uma boa capacidade de exportação e usa dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), ligada ao Ministério do Desenvol­vimento, Indústria e Comércio Exterior, para argumentar sua fala. Segundo Thiago, em 2015, a cidade exportou 105 milhões de dólares, dos quais 60 milhões foi de carne bovina congelada. Em 2016, Goiânia já exportou 51 milhões de dólares, sendo 48% dessa exportação de ouro e 13% de carne bovina congelada.

“Nosso principal produto é carne bovina congelada. Em 2015, representou 57% das exportações; em 2014, 51%; e em 2013, 53%. Baseados nisso, existe uma metodologia chamada ‘Product Space’, que foi desenvolvida por Ricardo Hausmann, que é um economista e professor da Universidade de Harvard, e por César Hidalgo, que é chefe do MIT Media Lab. Quando se estuda essa metodologia, pega-se o que mais se exportou e tenta-se entender que produto pode ser o próximo a se exportar”.

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“Goiânia tem condições e potencial para ter uma matriz econômica mais complexa” | Fernando Leite/Jornal Opção

O último estudo feito por Thiago, por conta do mestrado, apontou que o produto com maior potencial de ganho para Goiânia exportar era alimento processado. “Então, essa ideia de que Goiânia só tem vocação para serviço é um pouco de lenda”, argumenta ele. Logo, os estudos relatos pelo superintendente da SED mostram que Goiânia tem condições de escolher áreas para incentivar, de maneira que esse incentivo faça a cidade ganhar maior espaço de mercado.

“Levando em consideração o que Goiânia já produz, temos facilidade para começar a produzir e exportar soro de leite coalhado, enzima de leite, manteiga e ácidos graxos, que são produtos ligados àqueles que nós já produzimos e que são exportados por outros lugares. Outra área em que existe possibilidade de crescimento é a de geradores e conversores elétricos e geradores de água e ar”, conta Thiago.

Thiago, que também é secretário-executivo do Consórcio Brasil Central (ação firmada entre os governos de Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Rondônia), revela que Goiânia também teve uma exportação importante de guindastes. Baseado nesse dado, ele explica que, se uma junção for feita, o “Product Space” mostra que a cidade tem espaço para começar a fazer e vender produtos como ferramentas para motor e peças isolantes de metal, o que abre mercado para outras produções, que pode chegar a máquinas elétricas a laser.

Ainda utilizando bases de dados consolidadas nacionais e estaduais, Thiago Camargo conta que Goiânia também tem uma indústria sólida de molhos e temperos, sopas e caldos, embora não fabrique produtos que estão entre este ramo e a carne, por exemplo, que é ração para animais, leite, cereais preparados e uma série de produtos.

Agora, uma área que pode dar bom retorno econômico para a capital é a de cosméticos. Em 2015, segundo dados da Secex, Goiânia exportou 96 mil dólares de produtos para cabelo e, entre 2000 e 2011, a exportação desses produtos no Brasil saiu de menos de 20 milhões de dólares para mais de 190 milhões. Ou seja, há espaço.

“As vendas começaram a cair em 2013, mas ainda existe um espaço grande, pois, além de exportar, o Brasil também importa esses produtos. Então, existe oportunidade para que Goiânia fortaleça seu trabalho no setor de cosméticos, com produtos para cabelo e para barbear, cremes e pomadas. Existe mercado para isso, tanto nacional quanto internacional”, conta Thiago.

Em outras palavras, Goiânia é prioritariamente uma cidade de serviços não por falta de vocação, mas por falta de estratégia de desenvolvimento. As últimas gestões não investiram na criação, por exemplo, de parques industriais. Espaço para industrialização da economia goianiense existe. Basta criar um ambiente adequado para isso. E não necessariamente precisam ser indústrias pesadas e altamente poluentes.

Atualmente, existem modelos de industrialização em que muitas coisas são montadas em determinado lugar e de outras formas, sem causar um grande impacto ambiental e sem consumir grandes espaços. “Goiânia tem condições de investir nisso. Potencial tem, mas a cidade optou por um modelo de zoneamento e não temos zonas de fato industriais. Perdeu-se essa oportunidade. Então, falar que Goiânia só se desenvolve economicamente na área de serviços parece ser muito mais criado por nós do que um fenômeno econômico per se. Parece ser uma falta de estratégia”, explica Thiago.

Goiânia tem espaço para parques industriais?

Se eleito, Vanderlan Cardoso pode dar o primeiro passo para diversificar a economia de Goiânia | Foto: Renan Accioly

Se eleito, Vanderlan Cardoso pode dar o primeiro passo para diversificar a economia de Goiânia | Foto: Renan Accioly

Em plena corrida eleitoral pela Prefeitura de Goiânia, o que mais se vê são candidatos falando seus planos para o futuro da cidade em suas várias facetas: estrutural, mobilidade, transporte público, expansão urbana. Porém, não são muitos os prefeitáveis que falam sobre o aspecto econômico da cidade, assunto mais delegado ao Estado e já União.

Consta, entretanto, no plano de governo de Vanderlan Cardoso, candidato do PSB à Prefeitura da capital, propostas que têm como alvo a economia goianiense. Sua principal sugestão para esta área é a criação de parques industriais na cidade, propositura semelhante ao que foi feito em Senador Canedo quando o pessebista era prefeito. Lá, foram construídos quatro parques industriais, que deram importância econômica à cidade.

A proposta sofre críticas dos adversários, que dizem que Goiânia não suportaria parques industriais, visto que grandes indústrias como a Cargill/Unilever, instalada no Norte da capital, têm causado problemas ao longo dos anos. Vanderlan, porém, diz ser possível atrair indústrias para a capital sem gerar poluição ou aumentar os problemas já existentes na cidade. Tudo depende do planejamento correto.

A proposta se baseia na seguinte questão: polos industriais geralmente garantem as condições para o desenvolvimento de micro, pequenas, médias e grandes empresas em diferentes regiões da cidade, am­pliando o leque de geração de em­prego. Vanderlan aposta que a cidade pode investir na formalização dos microempresários e empreendedores individuais, que podem pagar menos ISS, o que poderia amenizar os sintomas da crise.

Um exemplo citado pelo candidato é o ramo confeccionista. Segundo ele, Goiânia já ocupou o 3º lugar no setor brasileiro e agora está em 13º. Reflexo disso, de acordo com o candidato, é o esvaziamento da Avenida Bernardo Sayão, que já foi considerado o maior polo de confecções a céu aberto da América Latina.

Por isso, Vanderlan propõe criar oito polos industriais em Goiânia, sendo que um deles deve ficar na região Norte de Goiânia, entre a faculdade de veterinária da UFG e o setor Orlando de Morais e que deve abarcar não apenas o ramo confeccionista como também outros setores da economia. Portanto, se eleito e se conseguir colocar sua proposta em execução, Vanderlan poderá dar um passo importante na diversificação da economia goianiense nos próximos anos.

O que a cidade precisa para ser referência em produção tecnológica 

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O polo tecnológico de Campinas começou com a Unicamp (foto), que é uma importante instituição de pesquisa brasileira. Goiânia conta com a UFG | Foto: Antoninho Perri

A forte concentração de indústrias na região metropolitana, somada à falta de incentivo à diversidade econômica na capital, cria um fenômeno: Goiânia, que antes atraía a população do interior, agora começa a se tornar, em partes, cidade dormitório. Uma parte da população já não trabalha na cidade, mas procura emprego em Aparecida de Goiânia, Anápolis, Trindade e Senador Canedo, que têm forte vocação industrial.

Com cidades da região metropolitana tendo suas atenções voltadas para a chamada indústria tradicional, há quem defenda que Goiânia tem potencial para apostar em outras formas industriais, sobretudo aquela que envolve tecnologia. O ponto principal da proposta é dar aproveitamento ao conhecimento produzido pelas universidades abrigadas na capital.

Jeferson de Castro Vieira, economista e professor da PUC-GO, diz que Goiânia é uma cidade que pode ter investimentos em ciência e tecnologia, construindo, por exemplo, parques tecnológicos, “que agregam muito valor e aproveita muito bem o potencial das nossas universidades, sobretudo da UFG e da PUC. O conhecimento e a informação produzidos nessas universidades podem ser usados para o desenvolvimento de startups, por exemplo”.

Além disso, o professor aponta que a capital pode aumentar sua produção de riquezas por meio dessa alternativa. “Percebemos no mundo todo que as cidades que tiveram grandes avanços, como Xangai, Berlim, Hannover e Barcelona, o fizeram com parques tecnológicos. Isso aumenta a renda per capta e gera uma arrecadação muito boa para o município investir em infraestrutura”, explica.

De fato muitas cidades conseguiram gerar emprego e desenvolvimento com investimentos na área de tecnologia, que tem como base o conhecimento. Um exemplo é Campinas, cidade do interior de São Paulo, que tem um porte muito parecido com o de Goiânia, tanto em população quanto em área, mas que conseguiu avançar mais economicamente e em infraestrutura urbana — este último ponto está ligado à gestão da cidade, que tem, por exemplo, uma boa estratégia de mobilidade.

No que diz respeito à economia, o avanço da cidade, que tem vários distritos e serve de referência no interior do estado de São Paulo, se deve, em partes, aos investimentos em tecnologia. Campinas teve a primeira incubadora de empresas de base tecnológica do Brasil foi criada em Campinas, ainda na década de 1970.

Essa incubadora serviu de base para a criação, no início dos anos 1990, da Companhia de Desenvolvimento do Polo de Alta Tecnologia de Campinas (Ciatec), empresa municipal de economia mista que coordena a implantação de empresas e organizações de pesquisas científicas e tecnológicas na cidade.

O polo, que já foi conhecido como o Vale do Silício brasileiro, tem apoio no conhecimento desenvolvido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que é uma das instituições de pesquisa e ensino superior mais bem avaliadas do Brasil — está sempre entre as cinco primeiras dos rankings de classificação das universidades brasileiras.

O deputado federal Thiago Peixoto (PSD), que é economista, reconhece que Goiânia tem potencial para apostar em tecnologia, visto que conta com campi universitários importantes, mas alerta: é necessário criar infraestrutura para isso. “Um exemplo: precisamos ter internet rápida e uma rede de cabeamento instalada na cidade. Isso é investimento em infraestrutura”, afirma.

Por isso, existe o debate sobre as possibilidades de Goiânia servir de cidade sede para um polo de tecnologia. Porém, uma iniciativa do tipo não pode ser feita tendo como base modelos como o de Campinas, que já está ativo há décadas. Sendo pensado para o século 21, um projeto desse porte precisa ser moderno e inovador, afinal, é esse o objetivo de um polo de tecnologia.

Visão semelhante tem Thiago Camargo, para quem a tecnologia passa a ser uma solução se houver estrutura para potencializar esses investimentos. “Falamos muito de tecnologia, mas o que temos para ancorá-la continua sendo alvenaria. Fora isso, a tecnologia que tem sido feita no mundo vai mais ao encontro de hubs tecnológicos que de parques. Isto é, criar escolas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, porque tecnologia demanda talentos”, argumenta.

Outra questão levantada por Thiago diz respeito ao ambiente regulatório. “Goiânia tem o programa Goiânia Digital para os profissionais do ramo de TI [Tecnologia da Infor­mação], que pagam 2% de ISS. Parece bom, mas todos já colocam esses 2%, porque é o mínimo. A diferença é: em Aparecida de Goiânia, por exemplo, só de o profissional declarar que sua atividade é TI, ele já paga 2%; em Goiânia, é preciso passar por um comitê, preencher um formulário e receber a aprovação. Somente depois disso, a pessoa recebe o desconto. Por que não reduzir a burocracia? Então, o momento é de falarmos na criação de ambiente regulatório adequado e no incentivo ao ensino de excelência.”

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