Criptomoedas se mantêm estáveis em ano de catástrofe econômica

Cotado em R$64.128, bitcoin está próximo de quebrar seu recorde enquanto economias do mundo despencaram devido a pandemia

Foto: Agência Brasil

2020 foi um ano atípico para as criptomoedas, que praticamente não perderam valor quando a pandemia derrubou todas as economias do mundo. O bitcoin ficou acima do limiar dos dez mil dólares e a desvalorização do real fez com que a primeira das criptomoedas alcançasse um valor próximo ao recorde histórico de R$ 64.400. 

Além da valorização, 2020 foi um bom ano para os ativos digitais pois governos de diversos países reconheceram a moeda. A França agora legalmente reconhece Bitcoin como moeda; a Alemanha a classificou como uma unidade que pode ser usada como um meio de troca privada multilateralmente. A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, afirmou nesta segunda-feira, 12, em evento virtual organizado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que a autoridade monetária está estudando a possibilidade de emitir uma moeda digital própria.

Entretanto, a Tailândia foi o primeiro país a banir completamente o comércio movido por bitcoins. A desconfiança está ligada às origens da moeda seu envolvimento com redes criminosas, bem como está relacionada ao nível de autoritarismo do governo. No Brasil, o momento é de regulamentação e criação de leis para trazer os ativos digitais para dentro da legalidade. 

No Brasil

Desde agosto de 2019 existe instrução normativa que obriga empresas que intermediam criptomoedas a enviar à Receita Federal dados do mercado. Além disso, já se pode declarar criptomoedas à Receita Federal, com taxa de 15% de impostos. A professora doutora Paula Hamberger, coordenadora do Qalehp Research, núcleo de finanças da Universidade Federal de Goiás afirma que este movimento de legalização ajudou a gerar confiança e provocar o boom das criptomoedas no Brasil neste ano. 

Profa. Dra. Paula Hamberger afirma que legislação está se preparando para a mudança trazida pelas criptomoedas | Foto: Reprodução / Acervo Pessoal

A pesquisadora afirma que o Projeto de Lei n° 4207, de 2020, de autoria do Senado, deverá regulamentar o mercado. Além de estabelecer normas para a emissão de moedas e outros ativos virtuais, a lei estabelece também condições e obrigações para as pessoas jurídicas que exerçam atividades relacionadas a esses ativos e atribui competências fiscalizatórias e regulatórias, além de aumentar de pena para o crime de “pirâmide financeira”. 

“Nossa legislação está se preparando”, afirma Paula Hamberger. “Os jovens têm uma visão muito mais positiva do que a velha geração; eles não teriam dificuldade em receber pagamentos em bitcoin, mas o sistema como um todo ainda é reticente – apesar de que este está mudando rapidamente. O Brasil é o quinto país que mais possui criptomoedas no mundo. Temos um mercado jovem de capitais”.

O receio das criptomoedas, diz Paula Hamberger, tem fundamento: “Criptomoedas foram criadas para ser utilizadas sem instituições envolvidas no processo. Não há ninguém que garanta que o dinheiro em transação é legítimo. Esta liberdade é a beleza da coisa e também sua fraqueza. Se tem tentado correr atrás e controlar, e essas regulamentações vão tirando a beleza da liberdade, mas dando confiança ao ativo. Muitos países tentam de controlar bitcoins com autoridade, mas é impossível banir o progresso.”

O porquê do boom

Rudá Pellini é fundador da Wise&Trust, uma fintech americana que utiliza machine learning para analisar e medir diversos indicadores e modelos quantitativos para montar fundos de investimento em ativos digitais e tomadas de decisões. Ele analisa que o boom das criptomoedas em 2020 tem a ver justamente com a queda das bolsas ao redor do mundo. “Investidores começaram a olhar para a diversificação. Em mercados disfuncionais, onde vimos desde março a injeção de liquidez com a ‘impressora de dinheiro ligada’, além da incerteza dos investidores com as eleições americanas, surgiu a necessidade de deixar muito dinheiro em caixa além de investimento em ativos seguros”.

Rudá Pellini afirma que investidores começaram a olhar para a diversificação | Foto: Divulgação

Enquanto o boom de 2017 esteve mais ligado à especulação – e ainda se discute se os altos preços das criptomoedas correspondem a uma bolha inflacionária – atualmente, explica Rudá Pellini, existem fenômenos concretos que justificam a valorização do bitcoin. Um deles é o número crescente de empresas que têm convertido parte de seu caixa em bitcoins como estratégia de diversificação (houve aporte de $50 milhões de dólares da Square em bitcoins; a empresa está avaliada em 80 bilhões de dólares).

Além do voto de confiança de empresas e governos, é crescente o número de pessoas que apostam nas criptomoedas como seguro contra o movimento expansionista monetário. “Na Argentina, transações em bitcoin tiveram aumento grande. Pessoas passaram a adotar esse tipo de ativo para se proteger da impressão desenfreada de dinheiro que tende a causar inflação e perda de confiança na moeda”, explica.

Como investir

João Canhada é diretor da Foxbit, uma exchange que intermedia a negociação de quatro ativos virtuais (bitcoin, ripple, ethereum, litecoin). Segundo ele, este é um bom momento para se investir em criptomoedas para se proteger da queda das bolsas e economias ao redor do mundo e no Brasil. Ele lembra que o real perdeu 40% de seu poder de compra em referência a 2019.

Segundo João Canhada, é possível investir “corretamente” neste mercado, sem risco de cair em golpes por parte de exchanges e de hackers, como já aconteceu no passado. “O ponto de falha do bitcoin são as empresas. O hacker vai buscar o maior pote (a exchange que concentra carteiras de milhares de pessoas). Portanto, deve-se buscar o histórico da empresa com a qual se vai investir, seu CNPJ, verificar o reclame aqui, checar se há um rosto por trás da empresa nas mídias sociais. Além disso, é muito importante estudar sobre o mercado de ativos digitais”, afirma João Canhada.

João Canhada dá dicas para quem quer investir:
estude o mercado| Foto: Reprodução

O investidor explica ainda que é possível criar carteiras de criptomoedas por si mesmo, sem a necessidade de terceirizar a custódia dos ativos para uma empresa. “A Foxbit tem tutoriais para criar carteiras sem nossa intervenção. Mesmo que a corretora deixe de existir, você não perde seus bitcoins”. 

É seguro?

Dados da Elliptic, empresa responsável por fazer monitoramento de transações em bitcoin, revelam que menos de 1% das negociações envolvem alguma espécie de crime financeiro. A Elliptic monitora atividades, corretoras e contas suspeitas, bem como ataques hackers, para identificar origem da transação. Como a tecnologia das criptomoedas permite o rastreamento, diferentemente do dinheiro tradicional, é possível se acompanhar transações e minimizar crimes financeiros. 

Segundo informações da UNODC (United Nations Office on Drugs and Crime – Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), o dólar americano impresso é a principal moeda utilizada na lavagem de dinheiro no mundo. Criptomoedas aparecem em 13º lugar da lista, exatamente por serem 100% rastreáveis.

“Não estou tentando dizer que é impossível cometer crimes com bitcoins”, comenta Rudá Pellini, “mas não é inteligente. Transações em criptomoedas atrelam o usuário ao negócio. Se o senador Chico Rodrigues (DEM), flagrado com dinheiro entre as nádegas, tivesse tentado ocultar bitcoins, ele teria sido descoberto muito antes”.

O futuro do dinheiro

João Canhada afirma que, embora seja pouco utilizada atualmente como moeda de fato e mais como ativo especulativo, a tecnologia está evoluindo para permitir taxas de transação mais baixas. “Ainda são elevadas em relação a cartão de crédito, mas como se trata de um software, ele pode ser atualizado para permitir aprimoramentos. No longo prazo, deve uma moeda utilizável em pequenos valores”, comenta João Canhada.

Rudá Pellini lançou recentemente o livro ‘O Futuro do Dinheiro’, publicado pela editora Gente. A publicação aborda o atual cenário de bancos digitais, fintechs, criptomoedas e blockchain e, mais do que, explicar os conceitos, mostra como a tecnologia pode auxiliar as pessoas a gerarem riqueza com liberdade e segurança. “O livro traz um caminho alternativo para quem deseja buscar uma liberdade financeira, mas de forma saudável e racional. É preciso entender que o futuro chegou e estamos vivendo uma verdadeira transformação em diversas áreas da nossa vida, inclusive no dinheiro”, afirma Rudá Pellini sobre sua obra.

O autor prevê que, breve, poderemos ter diferentes tipos monetários concomitantes. “Isso já acontece quando se consegue usar milhas para passagens aéreas como moeda, por exemplo. A permuta é um tipo de moeda para diversas profissões. Em regiões de fronteira é comum se aceitar qualquer reais, pesos e dólares. Com a desestatização do dinheiro, as criptomoedas vão competir pela população enquanto dinheiro privado. As pessoas terão cada vez mais formas monetárias para usar e cada população poderá escolher aquela que achar melhor”, conclui.

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