Covid-19: Rotina adaptada é o “novo normal” no meio político goiano

Casos de Covid-19 estão frequentes entre deputados e vereadores, o que levanta preocupação e receio nos demais parlamentares

Deputado federal José Nelto (Podemos) em reunião por videoconferência na Câmara dos Deputados | Foto: Reprodução/Facebook

No dia 21 de dezembro, o deputado federal por Goiás, Célio Silveira, do PSDB, usou as redes sociais para comunicar que havia testado positivo para a Covid-19. O parlamentar foi internado no Hospital Anis Rassi, em Goiânia, sob os cuidados do médico Fernando Carneiro. No dia 30 do mesmo mês, Célio recebeu alta. Além dele, o também deputado federal João Campos, do Republicanos, deu a mesma notícia nas redes sociais, junto com uma foto sua ao lado da família, isolados em casa.

Os casos de Célio Silveira e João Campos são apenas dois entre os muitos de políticos e figuras públicas dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário de todas as esferas que testaram positivo para o Sars-CoV-2, mais conhecido como coronavírus, em 2020 – ano de pandemia e de eleições. Um dos mais emblemáticos de Goiás e que ganhou repercussão nacional é, sem dúvida, o do prefeito de Goiânia, Maguito Vilela, do MDB.

Maguito foi internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, no dia 27 de outubro, onde ainda está internado. Apesar de já curado da Covid-19 – fato comprovado pelo hospital no início de dezembro -, o prefeito ainda luta para se recuperar das sequelas provocadas pelo vírus que já matou quase 200 mil pessoas no Brasil até agora.

O vírus circula em todos os lugares. E os ambientes públicos onde se discutem e se aprovam as leis para a população não estão livres dele – os vários casos de Covid-19 entre deputados federais, estaduais e vereadores demonstram isso. Tanto aqueles que não pegaram quanto aqueles que já contraíram o coronavírus e se recuperaram tiveram que alterar suas rotinas, agendas políticas, hábitos e percepção do vírus.

O deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), Lissauer Vieira (PSB), é um dos que já experimentaram a sensação de ter Covid-19 e a superaram. Lissauer testou positivo em julho do ano passado, em pleno período pré-eleitoral. O deputado relata que ficou 15 dias isolado em casa e, mesmo depois de curado, sentiu os efeitos tardios do vírus, mesmo que fracos. “Tive dor, cansaço nas pernas e às vezes doía muito a cabeça. Mas depois foi normal”, relata Lissauer.

Para Lissauer Vieira (PSB), campanha no interior sem contato físico foi “complicada” | Foto: Reprodução/Instagram

Livre do vírus, o presidente da Alego não pôde se ver distante da campanha política que, segundo ele, foi marcada por restrições e medidas de segurança. Prevenções essas adotadas por Lissauer até hoje.

“Muitas coisas não foram possíveis de ser feitas durante a campanha. Por exemplo, em algumas cidades não podia carreata, reunião com mais de dez pessoas, comícios, essas grandes aglomerações ficaram prejudicadas. O trabalho foi muito mais na comunicação via mídia e via redes sociais”, afirma o deputado, que chegou a participar de carreatas durante a campanha de 2020.

Prevenção alternativa
Deputado federal por Goiás, José Nelto, do Podemos, não chegou a contrair a doença, mas diz ter amigos que estão intubados em decorrência dela. Ao Jornal Opção, José Nelto é categórico ao afirmar que as medidas de segurança contra a Covid-19 são “seguidas à risca em casa e no gabinete”.

“Eu não pego na mão de ninguém, não abraço ninguém, mantenho a distância de dois metros, álcool em gel na mão e tenho todos os cuidados […]. O cidadão, para entrar na minha casa, porque eu atendo no escritório, tem que aferir a temperatura”, revela.

O deputado diz acreditar que a população não pode parar sua rotina de trabalho por conta do vírus, mas que deve seguir as medidas indicadas pelas autoridades sanitárias. No entanto, José Nelto descreve que não se limita a essas medidas. “Aderi a todo tipo de prevenção que está disponível.”

Nelto conta que já tomou azitromicina, ivermectina, vitamina D, C e até creolina, bactericida geralmente usado no meio agropecuário. O próprio deputado admite que esses medicamentos (creolina, ivermectina e azitromicina) não têm eficácia comprovada cientificamente, mas ressalta: “É um cuidado meu. Não estou recomendando para ninguém”.

Deputado federal José Nelto (Podemos) mostra a marca deixada pela aplicação da vacina BCG | Foto: Arquivo pessoal

O parlamentar também contou ter tomado uma dose da vacina BCG, indicada contra as formas graves de meningite tuberculosa e a tuberculose miliar. Além disso, José Nelto diz que toma, diária e religiosamente, uma dose de limão, própolis e açafrão. “Meu protocolo caseiro. Se dá certo ou não, estou tomando”, comenta.

José Nelto se autodeclara um “vacinista” e diz que aguarda ansioso a chegada dos imunizantes contra a Covid-19 no Brasil. “Se a vacina tiver 50% de eficácia, eu tomo. Eu vou mais além: se tiver uma vacina aqui de Guapó, se for aprovada, eu tomo a vacina”, enfatiza. Questionado sobre o chamado movimento “antivacina”, José Nelto se referiu aos adeptos como “bando de bestas”.

Assim como o deputado José Nelto, o senador Jorge Kajuru (Cidadania) afirmou que vai se imunizar tão quanto a vacina estiver disponível. O parlamentar também criticou o movimento “antivacina” e disse que é formado por “apaixonados bolsonaristas”.

“Quem quiser seguir a opinião dele [Bolsonaro, que questionou por diversas vezes a eficácia e segurança das vacinas que estão em uso emergencial em outros países] que siga, mas eu não tenho essa debilidade mental. Quem é contra a vacina é bolsonarista apaixonado por ele, e ele convenceu esse povo. Mas esse povo faz o que quer e eu faço o que eu quero”, declara.

Kajuru descreve que está totalmente isolado e respeita as medidas de prevenção contra a Covid-19 que, segundo o senador, é alvo de grande preocupação. O parlamentar relata que raramente sai de casa e, quando acontece, só com o uso de máscara. De acordo com o senador, o cuidado deve ser redobrado, ainda mais pelo seu estado de saúde.

Kajuru foi submetido a uma cirurgia de transplante de córnea recentemente e passa por um lento processo de recuperação. “Eu nem posso sair, tenho que ficar quieto em casa porque não estou enxergando nada. Estou com um tapa-olho […]. É uma recuperação lenta. Se não tiver calma, não adianta. Vai de meses a um ano para voltar a ter uma visão bem melhor. Mas vou cumprir direitinho e vou enxergar.”

Campanha virtual e cumprimento do distanciamento

Tanto a deputada estadual Delegada Adriana Accorsi (PT) quanto a vereadora por Goiânia, Aava Santiago (PSDB), tiveram intensas atuações na campanha eleitoral de 2020. Mas o fato interessante é que poucas vezes saíram às ruas e fizeram atividades corpo a corpo com o eleitorado.

Quando ocorria, as parlamentares explicam que a máscara e o distanciamento eram indispensáveis. Para Adriana, que concorreu à Prefeitura de Goiânia, personalidades políticas têm o dever de dar o exemplo no cumprimento das medidas contra o coronavírus.

“Ao contrário de alguns políticos do Estado de Goiás e do Brasil que infelizmente são negacionistas, que não acreditam na ciência e no sofrimento das pessoas, eu acredito que é uma doença muito séria e que nós, políticos, pessoas que têm responsabilidade com o destino das pessoas, temos que usar o nosso poder para disseminar conhecimento e orientações científicas”, avalia a depudata.

Segundo Adriana, seus hábitos políticos e cotidianos foram totalmente alterados em razão da pandemia, assim como na eleição. “Minha campanha foi praticamente toda virtual, inclusive o meu lançamento. Todos os eventos importantes foram virtuais”, afirma.

“Não fiz reuniões, não gerei nenhum tipo de aglomeração e estou agora voltando a trabalhar de forma virtual também, já marcando reuniões, sempre virtuais ou com poucas pessoas”, descreve. De acordo com a parlamentar, a luta agora é para uma vacina gratuita e para toda a população, uma vez que “temos um governo federal irresponsável, incompetente e que não se preocupa com a vida das pessoas”.

Vereadora Aava Santiago (PSDB) durante evento de campanha em Goiânia | Foto: Reprodução/Instagram

A socióloga e vereadora Aava Santiago foi outra que trocou os beijos e abraços durante a campanha por conversas a distância e uso constante de máscara. Mesmo antes, a prevenção à Covid-19 era diária. “Nós levamos muito rigidamente o controle até o momento em que começou a campanha. A gente não saía de casa, não recebia visita, não visitava ninguém”, revela.

Aava, que é mãe do pequeno Davi, de 2 anos, relata que, com a campanha, não conseguiu manter a mesma rigidez no isolamento e no distanciamento, mas que, mesmo assim, não abriu mão de fugir das aglomerações e do contato físico. “Não fiz nenhuma reunião presencial. Todas as minhas reuniões com apoiadores foram 100% virtuais.”

A vereadora do PSDB lembra que chegou a ouvir críticas por sua campanha baseada na prevenção, que haveria “prejuízos eleitorais” devido à falta de reuniões presenciais e de campanha corpo a corpo. No entanto, a socióloga foi eleita com quase 2,9 mil votos. “Nós somos a favor da ciência e da vida. Isso sim é defender a vida. Tenho muito orgulho da campanha que nós fizemos”, arremata.

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