Covid-19: doenças cardiovasculares prevalecem entre comorbidades, mas risco é para todas

Para aqueles que não dão o devido tratamento às enfermidades pré-existentes, a evolução da doença causada pelo coronavírus pode ser ainda pior

Com sistema imunológico comprometido, pessoas com comorbidades devem redobrar cuidados / Foto: Reprodução

Um levantamento realizado pela Folha de São Paulo mostrou que entre os pacientes que tiveram a morte confirmada pela Covid-19, causada pelo coronavírus, e foram investigados pelo Ministério da Saúde até o início de abril deste ano, 8 em cada 10 sofriam de pelo menos um fato fator de risco, a tão falada comorbidade. Nas ciências médicas, comorbidades se referem a situações em que um indivíduo possui alguma doença em conjunto com outra, ou seja: a coexistência de doenças. E são justamente elas que propiciam um “ambiente perfeito” para a progressão do Sars-CoV-2 no organismo do paciente.

Comorbidades como diabetes, obesidade, hipertensão, tuberculose, entre outros, no contexto de uma infecção pelo coronavírus, aumentam o risco de agravamento do quadro do paciente. Para aqueles que não dão o devido tratamento às enfermidades pré-existentes, a evolução da doença causada pelo vírus pode ser ainda pior.

No Estado de Goiás, entre os pacientes com comorbidades infectados pela Covid-19, aqueles com doenças cardiovasculares estão em maior número, segundo dados da plataforma COVID-19 do governo do Estado. Logo em seguida estão os pacientes com diabetes e por último estão os pacientes com imunossupressão.

Os dados preocupam. As doenças cardiovasculares, que se definem como um grupo de doenças do coração e dos vasos sanguíneos, já são, sozinhas, uma ameaça enorme. Para se ter uma ideia, mais pessoas morrem anualmente por essas enfermidades do que por qualquer outra causa. Estima-se que 17,7 milhões de pessoas morreram por doenças cardiovasculares em 2015, representando 31% de todas as mortes em nível global. Desses óbitos, 7,4 milhões ocorrem devido às doenças cardiovasculares e 6,7 milhões devido a acidentes vasculares cerebrais (AVCs).

Caracterizam-se como doenças cardiovasculares as seguintes: doença coronariana; doença cerebrovascular; doença arterial periférica; doença cardíaca; cardiopatia congênita e trombose venosa profunda e embolia pulmonar. Entretanto, aqueles que sofrem com outros tipos de comorbidades afora as cardiovasculares estão igualmente suscetíveis a impactos maiores do coronavírus.

“Pessoas que têm doenças pré-existentes são pessoas que têm organismo de certo modo mais debilitado”, explica Thiago Isac / Foto: arquivo pessoal

Para o médico cardiologista Thiago Isac, “pessoas que têm doenças pré-existentes, de certo modo, têm reservas menores para suportarem outras doenças, tendendo a desenvolver quadros mais graves. “Isso vale para quaisquer doenças crônicas, não só as cardiovasculares”, destaca. O cardiologista descarta um vínculo direto entre doenças cardiovasculares e a infecção pelo coronavírus e explica que as pessoas com doenças cardiovasculares estão em maior número porque as doenças cardiovasculares são justamente as enfermidades mais prevalentes no Brasil e no mundo.

“Não há uma relação entre o vírus e essas doenças. O que acontece é que as pessoas que têm doenças pré-existentes são pessoas que têm organismo de certo modo mais debilitado e são mais suscetíveis a doenças da mesma maneira. Essas pessoas também são suscetíveis e têm predisposição a terem doenças mais graves. O coronavírus, na verdade, é apenas mais uma delas e, com certeza sim, as doenças podem ser um fator agravante”, esclareceu Thiago.

Doenças respiratórias: quais os riscos

Pacientes com quadros respiratórios graves como asmáticos e os que possuem doenças pulmonares crônicas também ter cuidado redobrado. De acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), doenças respiratórias crônicas são doenças crônicas tanto das vias aéreas superiores como das inferiores. A maioria dessas doenças são preveníveis e incluem a asma, a rinite alérgica e a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).

A asma acomete cerca de 150 milhões de indivíduos em todo o mundo. Segundo dados da OPAS, o Brasil ocupa a 8ª posição mundial em prevalência de asma, variando de 10 a 20%, dependendo da região e da faixa etária consideradas. Quanto a portadores de DPOC, no Brasil estimam-se prevalências de 7,5 milhões (5 a 10%).

Segundo o especialista em doenças infeciosas Hemerson Luz, em entrevista à Agência Brasil, se tiver qualquer pessoa sintomática em casa, “essa pessoa deve usar máscara. Essas pessoas também devem respeitar rigorosamente o isolamento social e evitar sair”.

Os fumantes também estão no grupo de risco, uma vez que eles normalmente sofrem de doença pulmonar obstrutiva crônica, bronquite crônica ou enfisema. Mesmo os fumantes que não apresentam dano, tem o pulmão mais vulnerável e estão dentro das recomendações do grupo de risco.

Pacientes com sistema imunológico fragilizado podem contrair qualquer tipo de doença, explica oncologista

Se para pacientes sem nenhum tipo de comorbidade o vírus causador da Covid-19 já é um grande risco, para aqueles que estão com o sistema imunológico comprometido por algum tipo de doença ou mesmo um tratamento mais agressivo devem ter o dobro de cuidados.

De acordo com o médico oncologista Jales Benevides Santana, especialista em aparelho digestivo, a condição imunológica de um paciente – tendo comorbidades ou não – é fator determinante em como o coronavírus vai afetar seu organismo. Ele cita o exemplo de um paciente com câncer e que precisa se submeter a um tratamento quimioterápico. Conforme o Santana, o processo fará que as defesas do indivíduo fiquem baixas, expondo-o a um risco.

“Um paciente que já está em tratamento de câncer, seja de um câncer de mama, um câncer de intestino, de estômago, e faz tratamento com quimioterapia, que é um dos tratamentos que a gente faz na oncologia. Essa quimioterapia mexe com a situação imunológica da paciente. Esse tratamento faz com que algumas células do seu corpo baixem: as plaquetas, os leucócitos, que são a defesa do organismo. E por isso ela fica suscetível as infecções, não só por coronavírus, mas de qualquer outra”, explica Santana.

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