Covid-19: a linha tênue entre a vida, as sequelas e a morte

Já são mais de 260 mil mortes refletidas em estatísticas que avançam de maneira linear e ascendente

Há cerca de um ano, o Brasil registrava os primeiros casos de contaminação pela Covid-19. O sentimento era único: medo de que a doença, até então quase que completamente desconhecida pelos brasileiros, pudesse se espalhar e atingir diferentes partes do País.

O que parecia algo distante, ganhou musculatura num piscar de olhos. Chegou, mais tarde, a todas cidades, Estados e mais: à casa de milhões de brasileiros. Um ano depois, o Brasil caminha para os 11 milhões de casos da doença. Já são mais de 260 mil mortes refletidas em estatísticas que avançam de maneira linear e ascendente.

“Estamos colhendo o fruto carnaval”, disse o governador de Goiás ao anunciar medidas mais duras em um Estado que beira do colapso da rede pública e privada de saúde. O fato é que muitos, de fato, banalizam a letalidade da doença ao passo em que ignoraram as medidas de combate à disseminação do vírus. Comportamento que causa repulsa em milhões de brasileiros, especialmente, àqueles que estiveram, um dia, à beira da morte.

Socorrista do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) na cidade de Jaraguá, Breno Leite não hesita em afirmar: “A maioria dos que levo, morre”. Ele, que trabalha na linha de frente do combate à doença, já esteve também na posição de paciente. Foi quando conheceu de perto a dor de cada familiar que precisa se despedir de um ente querido sem saber se terá, de novo, a oportunidade de vê-lo”.

Na hora do adeus

Breno relata que testou positivo e depois de alguns dias recebeu a notícia de que precisaria ser transferido para Goiânia onde seria internado. “Eu chamei meu filho, de 15 anos, e dei a ele a notícia. Pedi que rezasse por mim, disse que daria tudo certo. Eu já sabia que estava contaminado e antes de sair meu filho disse: ‘pai, amanhã é meu aniversário, vou fazer 16 anos. Me dá um abraço?’. Eu disse que não poderia, que estava contaminado, tive medo de passar [a Covid-19] para ele, mas ele insistiu dizendo que estava de máscara, que não havia perigo. E ele me abraçou. A sensação que tive era de que ele estava, naquele momento, se despedindo de mim”, relatou, emocionado, o profissional de saúde.

Breno Leite e o filho, Breno Luca Seabra / Foto: Acervo Pessoal

Para ele, é inevitável não pensar, ao entrar numa UTI, na possibilidade de não sair dali com vida. “Quando você vê ao seu lado alguém intubado é que você entende a gravidade dessa doença. Inicialmente, o temor é grande e o psicológico fica muito abalado. Você começa, não a entregar os pontos, mas a se questionar no seguinte sentido: ‘será que vou vencer?’. Nesse momento você vê que o vírus parece ser mais forte”.

Foto: Reprodução Acervo Pessoal

Mas a história de Breno, diferentemente de muitos amigos, terminou de outra forma. Após algumas semanas internado, ele pôde finalmente deixar a UTI. ” O sentimento é de vitória. Mas não é aquela de ter ganhado na Mega-Sena. É um sentimento de ter renascido, de ter uma nova oportunidade pela frente. Não digo oportunidade de trabalho, oportunidade financeira ou algo do tipo. É a oportunidade de estar com as pessoas que você ama. Você renasce e dá novos significados às relações afetivas. É a vontade de aproveitar mais a vida. Cada momento de alegria fica mais vibrante”, explica.

O trauma deixado pela Covid-19 na vida de Breno é psicológico e ganha protagonismo ao se deparar, em um dia comum de trabalho, com a mesma cena vivida por ele há meses atrás:

“Minha dificuldade é colocar um paciente na ambulância e antes de fechar a porta ver aquela cena se repetindo, onde o filho se despede do pai. Eu tento dar esperança para esse filho, mas a maioria dos que levo, morre. Infelizmente eu tenho feito a remoção de muitos pacientes onde a última visão que o filho tem do pai é aquela comigo ao lado, dentro de uma ambulância do Samu. Isso é triste. O paciente não vê, mas as vezes eu choro porque sei que talvez muitos não tenham a oportunidade de vê-lo novamente, nem mesmo dentro de um caixão”, diz.

Renascer silencioso

No entanto, o coronavírus tem deixado também outros vestígios na vida de muitos que por ele foram acometidos. Sâmara Kelly da Silva, de 32 anos, é prova disso. Para contar sua história, o Jornal Opção precisou conversar com seu marido, Rodrigo Vaz. Isso porquê Sâmara perdeu 100% da audição em decorrência de uma bactéria contraída na unidade hospitalar onde recebia tratamento para o coronavírus.

Rodrigo Vaz e Sâmara Kelly da Silva / Foto: Acervo Pessoal

“Ela ficou 60 dias intubada, sedada. Sem contar que ela estava grávida de dois meses”, lembra Rodrigo à reportagem. “Eu tinha um sentimento de perda todos os dias quando chegava o boletim médico no meu celular. Durante dois meses a situação foi exatamente essa; de angústia, medo, sabendo que ela estava tomando antibióticos que dariam para curar um batalhão de pessoas”.

Os reflexos da doença na vida de Sâmara começou antes mesmo dela ser intubada, quando descobriu – já no hospital – que a mãe havia falecido em decorrência do mesmo procedimento ao qual ela seria submetida no dia seguinte.

Sâmara e a filha, Anna Clara / Foto: Acervo pessoal

Mas Sâmara resistiu a tudo e apesar de todas as complicações trazidas pelo coronavírus, seguiu com a gestação, tida por Rodrigo como “um milagre de Deus”.

Sâmara ainda enfrenta dificuldades de locomoção e não consegue caminhar por muito tempo. Ela toma medicamento para tratamento dos nervos o que lhe permitirá, ao longo do tempo, retomar as condições normais de locomoção.

Quanto a audição, o marido explica que a medicação utilizada para combater a “colônia de bactérias” adquiridas por ela no hospital foi responsável por deixá-la completamente surda. Ela tenta, agora, iniciar um tratamento no Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr Henrique Santillo (Crer).

“Os médicos priorizaram a vida, e eu os agradeço demais por isso; mas é um sentimento muito triste já que as sequelas mudaram completamente nossa vida. Tínhamos nossa casa, mas precisamos nos mudar para morar com a minha mãe que cuida dela e da neném enquanto trabalho”, explica Rodrigo.

Segundo ele, Sâmara se movimenta dentro de casa, mas não consegue fazer as mesmas coisas que fazia antes. “Com a perda da audição, agora nos comunicamos por gestos. Quando precisamos conversar algo mais complexo, nos comunicamos por mensagens de texto no WhatsApp”, conta o marido.

Joelhos roídos

Familiares do médico cirurgião, Aleksander Dobrianskyj, também dividiram momentos de muita angústia e sofrimento. Acontece que o médico contraiu a doença em meados de março de 2020. Fase em que os procedimentos médicos ainda eram incertos e quase nada se sabia sobre o tratamento.

“Eu estive muito doente e não sabiam o que fazer. Não havia um protocolo médico claro e estabelecido”, lembra o cirurgião. “Eu não imaginava que me tornaria paciente, mas fui contaminado e a minha piora foi acentuada”.

Segundo ele, havia, a todo momento, uma fadiga “desproporcional”. “Uma sensação de quem apanhou num ringue por horas”. “Fiquei 15 dias na UTI e 11 dias intubado. Por volta do sétimo dia eu estive mal, à beira da morte”.

Ele conta que o pior momento foi quando repetiram sua tomografia e o comprometimento de seus pulmões – que registrava 50% – saltou para 75%. “Naquela época a conduta médica era de intubar e ventilar imediatamente. A pior parte foi ter que ligar para minha esposa e dizer isso a ela. A expectativa era simplesmente a pior possível”, relatou.

Aleksander e a esposa, Virginia Dobrianskyj / Foto: Reprodução

“Eu passei todos esses dias inconsciente e não tinha visão de absolutamente nada. Quem mais sofreu foi minha esposa que passou 15 dias ajoelhada, rezando. Ela praticamente roeu os joelhos de tanto rezar”, disse o cirurgião.

Ele, que é ateu, lembra que sempre respeitou toda e qualquer crença ou religião. Reforçou, inclusive, que sua esposa é católica. E disparou por fim: “A partir disso, eu passei a acreditar que existe algo superior, algo que eu não sei definir. Eu simplesmente acredito que as centenas ou até milhares de orações com certeza me ajudaram”.

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