Coronavírus: Centro de Goiânia adapta “novo normal” à sua realidade

Até que ponto as medidas que antes eram vistas como excepcionais e agora são consideradas essenciais integram o nosso cotidiano?

Sem máscara, um homem vende máscaras no Centro / Foto: Ton Paulo

Galerias comerciais lotadas de famílias olhando capinhas para celular, bancas abarrotadas de goiabas graúdas e úmidas pelo borrifador do vendedor, gente indo para lá e para cá, comprando, conversando, parando, oferecendo produtos. O fervor do Centro de Goiânia carrega uma característica mistura de história e modernidade que dá à região um caráter único. Algo a se admirar sem nenhuma preocupação, se não fosse um porém: tudo isso, todo esse calor e movimento, ocorre em meio à pandemia de um vírus que só no Brasil já matou 50 mil pessoas até agora. Com a flexibilização, o goiano parece estar retomando sua rotina, mas nada tem sido como antes. Ele vive agora o chamado “novo normal”. Ou melhor: um normal não tão novo.

O primeiro decreto estadual que determinou a restrição do fluxo de pessoas e o fechamento do comércio, mantendo abertos apenas aqueles que exercem as chamadas atividades essenciais, foi publicado em meados de março. Depois dele, outros vieram em períodos quinzenais na intenção de moldar, tanto para a flexibilização quanto para o endurecimento, as normas inicialmente estabelecidas como forma de combater o novo coronavírus, causador da Covid-19.

Entretanto, desde que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, no dia 15 de abril, que Estados e municípios podem tomar as medidas que acharem necessárias para combater o novo coronavírus, como isolamento social, fechamento do comércio e outras restrições, a Prefeitura de Goiânia assumiu protagonismo no combate ao coronavírus na capital goiana. Na última semana, o prefeito Iris Rezende (MDB) tornou obrigatório o uso de máscara e, por decreto, determinou multa de R$ 627 para quem não usar a proteção em locais públicos da capital.

Iris também assinou o decreto que libera a reabertura de shoppings de Goiânia, galerias comerciais, varejistas, atacadistas e espaços onde atuam os profissionais liberais a partir do dia 22 de junho, segunda-feira. Além disso, o documento também libera a realização de celebrações religiosas duas vezes por semana. A decisão representou um alívio para os comerciantes afetados, contudo, uma série de medidas deverão vir acompanhadas da reabertura.

Uso contínuo de máscara em locais públicos, higienização constante das mãos, disponibilização de álcool em gel e limitação da entrada de pessoas nos estabelecimentos e distanciamento mínimo: esses são alguns dos quesitos que passaram a fazer parte do cotidiano não só dos goianos, mas de todos aqueles que são impelidos por suas necessidades a seguirem com suas vidas. Entretanto, até que ponto esse “novo normal” está sendo aderido? Até que ponto as medidas que antes eram vistas como excepcionais e agora são consideradas essenciais integram o nosso cotidiano?

Aglomerações e contato humano: nenhuma alteração no fuzuê central

No Centro de Goiânia, não são muitos os indícios que denotam adesão às medidas sanitárias contra o coronavírus. Pelo contrário: à primeira vista, é como se a pandemia do Sars-CoV-2 fosse algo agora restrito aos noticiários. Num trecho em que a Avenida Anhanguera encontra a Tocantins, próximo ao tradicional Teatro Goiânia – com seus quase 80 anos de história –, a existência de um vírus letal parece não incomodar tanto.

Pessoas, com e sem máscara, transitam sem parar entre vendedores ambulantes e compradores carregadores de sacolas. Sentado em um canto, um idoso com um colete amarelo onde se lê “Compra-se ouro” observa o vai e vem de gente. É Jose Armando Pinheiro, de 65 anos. José usa máscara, mas, segundo ele, não é um acessório confiável. “A gente tem que confiar em Deus”, diz.

Há seis meses no Centro, José Armando conta que não viu o fluxo de pessoas ser interrompido na pandemia / Foto: Ton Paulo

Ele conta que trabalha como comprador de ouro no Setor Central há cerca de seis meses. Nesse ínterim, mesmo com a pandemia do coronavírus, não viu diferença significativa no fluxo de transeuntes. “Nunca parou. Está cheio de manhã, quando chego, até o fim da tarde, quando eu vou embora”, relata. Ele é do grupo de risco, porém, a máscara parece ser o único cuidado que o idoso incorporou à rotina. “Eu não tenho problema com isso não. Abraço, pego na mão do pessoal do mesmo jeito. Aqui não tem como. Olha aí”, diz, enquanto aponta para os passantes, “não tem como não encostar, sabe. É assim, não tem jeito”.

Na mesma calçada em que José Armando está, um grupo de pessoas se aglomera ao redor de uma banca de meias e cuecas. Dentro de uma galeria comercial ali perto, mais aglomerações, desta vez em bancas de acessórios para celulares. A maioria usa máscara, mas mal sabem elas que o risco de contraírem Covid-19 está mais presente do que nunca.

De acordo com a médica infectologista Fernanda Pedrosa Torres, formada pela Universidade de São Paulo (USP), usar máscara e ficar em aglomerações é um esforço totalmente desperdiçado para se prevenir contra o coronavírus.

“O uso de máscara não garante 100% que as pessoas não sejam contaminadas. Quando se fala em infecção por coronavírus, ela ocorre por duas formas: por via respiratória e por contato direto com secreções, uma pessoa passa para outra ou uma toca numa superfície contaminada, por exemplo. Então, a partir do momento que você está aglomerando, favorece situações de contágio”, explica Fernanda.

Para infectologista Fernanda Pedrosa, ninguém está totalmente seguro / Foto: Arquivo pessoal

A infectologista, que integra o Gabinete de Crise – Covid-19, conta que superior à máscara de tecido, a máscara cirúrgica N95 “é mais eficaz, pois filtra as partículas”, mas mesmo assim não é uma proteção total. “E se uma pessoa não estiver usando a máscara e joga uma partícula no ar, a que está usando poderia se contaminar pela mucosa ocular”, complementa.

Frutas ao ar livre: sem grandes diferenças com supermercados

Típicas do Setor Central, as bancas de frutas continuam firmes e fortes no “novo normal”. Frutas de várias qualidades atraem compradores de diversas idades com vendedores que gritam na calçada, anunciando seu produto. Com a pandemia, as frutas expostas que sempre fizeram parte do cenário tradicional do Centro passaram a ser motivo de preocupação para alguns.

Porém, para a médica infectologista Juliana Dona, a preocupação não tem uma base sólida. Conforme a profissional, “as frutas expostas funcionam da mesma forma que as frutas e verduras do mercado, e a orientação é, como ninguém vai parar de consumir, ao comprar fazer a higienização adequada antes do consumo”.

“Quanto ao vendedor, eu acredito que, como a verdura não vem direto da fonte para o consumidor, ela passou por várias mãos. Não faria diferença ele cobrir [as frutas] nesse momento. O ideal é: se esse vendedor tiver condição de fazer uma higienização antes de vender, ótimo. Mas o principal é orientar o comprador que ao comprar aquela fruta higienize bem antes de consumir”, esclarece Juliana.

Fluxo nos comércios

Em frente a uma grande loja de roupas, uma fila de cinco ou seis pessoas se forma. Usando máscaras, elas aguardam a vez para adentrar o estabelecimento. O espaço entre elas é bem menos que um metro e parece não haver nenhum indicativo de incômodo em se segurarem ou se escorarem nas barreiras colocadas para indicar a orientação da fila.

Segundo o gerente da loja, que não quis se identificar, os devidos protocolos sanitários foram adotados para evitar a propagação do coronavírus. Um segurança, colocado na entrada, é o responsável por liberar quem entra. Apenas seis por vez. O gerente explica que a liberação está sendo feita apenas para clientes que desejam pagar uma fatura do cartão da loja ou que já encomendaram suas compras pelo Whatsapp.

Apenas seis clientes de cada vez podem entrar nesta loja / Foto: Ton Paulo

Ainda conforme o funcionário, álcool em gel foi disponibilizado para que os clientes possam higienizar as mãos antes de entrar na loja. E ele garante: sem máscara, não entra.

Para a infectologista Juliana Dona, a medida de limitação da entrada de clientes é adequada, uma vez que evita que se formem as aglomerações, prato cheio para a circulação do coronavírus. “Com certeza é uma medida eficaz, justamente porque evita aglomerações, evita contato próximo e proliferação de partículas virais”, pontua a médica.

O “novo normal”

O engajamento no combate ao coronavírus é variável. Enquanto uns chegam a negar que o vírus exista, os famosos negacionistas, outros consideram que sair de casa é assinar uma sentença de morte. Já outros tentam retomar suas rotinas dentro do que elas veem como o “novo normal”, que é a adesão às medidas de prevenção contra o vírus e o policiamento constante.

Para a infectologista Fernanda Pedrosa, um retorno ao que ela chama de “normal normal” seria somente viável com aplicação de “alguma estratégia efetiva de imunidade”. “Seria realmente no contexto da vacina, porque a gente tem duas possibilidades de parar uma doença: toda vez que tem uma pessoa com uma infeção, em geral todas as pessoas expostas a ela têm risco de pegar, a não ser que as pessoas tenham imunidade, que pode ser adquirida por uma exposição prévia, ou por conta da vacina”, avalia.

Entretanto, mesmo com o surgimento de uma vacina que possa colocar fim ao temor que tomou conta da população nos últimos meses, vestígios do novo cotidiano das pessoas, criado justamente pelo coronavírus, podem perdurar por um longo tempo. Juliana Dona é partidária de que os protocolos que passaram a ser praticados pelos brasileiros estão longe de serem extintos.

“Esse novo normal deve se estender até que surja uma vacina, e eu acredito que culturalmente isso vai ser adaptado na vida diária das pessoas também. Talvez não tão restrito quanto as indicações atuais, mas acredito que as pessoas vão aprender a ter um pouco mais de privacidade e higiene. Acho que pelo menos uma lembrança vai ficar na nossa cultura”, arremata.

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