Copa da Rússia evidencia contrastes entre passado comunista e presente capitalista

Apesar do capitalismo cada vez mais nítido, sentimento da época da União Soviética ainda paira sobre muitos lugares

McDonald’s e Burger King escritos em alfabeto cirílico | Foto: Marcelo Mariano/Jornal Opção

De São Petersburgo, Rússia

Apesar do 5 a 0 dos donos da casa — e da festa — na abertura da Copa do Mundo, a conversa na tribuna entre o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, certamente foi mais interessante que o jogo entre as duas seleções de seus países.

Mas aquele 14 de junho não foi uma simples abertura de mundial ou um diálogo entre dois líderes que controlam grandes quantidades de recursos naturais e podem mudar o curso de guerras das quais participam ativamente, como a da Síria.

Na entrada do estádio Lujniki, em Moscou, era impossível não notar uma enorme estátua de Vladimir Ilyich Ulyanov, popularmente conhecido como Lênin, revolucionário comunista que chefiou a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) de 1922 até sua morte, em 1924.

Em frente à estátua, o contraste: a pose de Lênin fazia parecer que ele estava dando boas-vindas aos estandes montados pelos patrocinadores da Federação Internacional de Futebol Associação (Fifa), como Coca-Cola, Visa, Budweiser, Adidas e Kia.

A festa capitalista da Copa do Mundo estava prestes a começar bem ali diante dos olhos do ex-líder comunista. A propósito, vale lembrar que o Lujniki já foi chamado de Estádio Central Lênin e serviu de palco principal para os Jogos Olímpicos de 1980.

Estátua de Lênin, ao lado de uma agência do banco austríaco Raiffeisen | Foto: Marcelo Mariano/Jornal Opção

Em outra parte da capital russa, mais uma estátua de Lênin chama a atenção. Localizado em frente à estação de metrô Oktyabrskaya, o monumento fica ao lado de uma agência do banco — símbolo capitalista — austríaco Raiffeisen, que começou a atuar na Rússia em 1996, já na era pós-soviética — em 1941, o também austríaco Adolf Hitler não conseguiu chegar a Moscou na operação militar da Segunda Guerra Mundial conhecida como Barbarossa.

O rosto desta estátua de Lênin está virado justamente para um punhado de arranha-céus nada comuns em meio a prédios de arquitetura soviética. Trata-se do Centro Internacional de Negócios de Moscou (MIBC, na sigla em inglês), também chamado de “Moscow City”, a apenas quatro estações de metrô dali.

O MIBC é um complexo comercial que começou a ser projetado em 1992 e até hoje não está concluído. Com 95 andares e 374 metros, a Torre Vostok (leste, ou oriente, em tradução livre), que fica em “Moscow City”, é o maior arranha-céu do continente europeu.

Mais capitalismo
Na chegada do Jornal Opção à Rússia, já era possível vislumbrar alguns dos contrates que estavam por vir entre o passado comunista e o presente capitalista do país.

Banheiros “públicos”, que, para serem utilizados, faz-se necessário o pagamento de 50 rublos, equivalente a R$ 3 | Foto: Marcelo Mariano/Jornal Opção

Do avião, via-se condomínios fechados de mansões luxuosas — o tamanho dos jardins e das piscinas é de impressionar. Na saída do aeroporto Sheremetyevo, em Moscou, uma rápida parada para pagar o pedágio da estrada. Pelas ruas da cidade, banheiros “públicos”, que, para serem utilizados, faz-se necessário o pagamento de 50 rublos, equivalente a R$ 3.

À margem da Praça Vermelha, o mais famoso cartão postal moscovita, está a GUM, que, durante o período soviético, era a principal loja de departamento da Rússia. Com o colapso da URSS, a GUM, anteriormente uma empresa estatal, foi privatizada. Hoje, abriga um shopping center com lojas de marca, como Louis Vuitton, Salvatore Ferragamo, Prada e Cartier, além de um espaço destinado à Fifa para a venda de produtos oficiais da Copa do Mundo.

A poucos metros de outro ponto oficial de venda da entidade máxima do futebol, desta vez de ingressos para partidas do mundial, um McDonald’s e, bem ao seu lado, um Burger King — ambos escritos em alfabeto cirílico. É a livre concorrência ao melhor estilo russo.

Dentro do estádio, no jogo de abertura entre russos e sauditas, a reportagem observou, mais de uma vez, torcedores vestindo camisas da época em que a União Soviética ainda existia — e jogava um futebol melhor que o da Rússia atualmente.

Aliás, cabe ressaltar que a venda de souvenires, como camisetas e bonés, com a sigla da URSS (CCCP, em russo), a foice e o martelo, é um dos recursos que muitos encontraram para faturar uns trocados — outra maneira é por meio do turismo de guerra, ou seja, ganhar dinheiro a partir de visitas a museus e bunkers que retratam a história soviética.

De Moscou, o Jornal Opção seguiu para Rostov, a maior cidade do Sul da Rússia, onde a seleção brasileira empatou em 1 a 1 com Suíça em sua partida de estreia na Copa do Mundo. No quarto em que a reportagem se hospedou, havia uma foto do rosto de Che Guevera na Praça da Revolução, em Havana, Cuba. Apesar do capitalismo cada vez mais nítido, o sentimento comunista ainda paira sobre muitos lugares.

A próxima parada foi São Petersburgo, o centro cultural da Rússia. Na cidade fundada pelo czar Pedro I, que já foi de Lênin quando era chamada de Leningrado, o Brasil venceu a Costa Rica por 2 a 0 com gols nos acréscimos — pelos menos nas três cidades visitadas até agora, não se vê muitos moradores de rua.

O voo de Rostov à São Petersburgo foi operado por uma empresa área de baixo custo. O baixo custo, na verdade, era só no preço pego na compra pelo site. Porque a companhia tenta tirar dinheiro dos consumidores de outros jeitos, como mala e comida a bordo. Ademais, frisa-se que a cadeira não reclinava e nem sequer havia espaço para colocar uma revista ou notebook.

Na capital do Império Russo, uma das primeiras coisas vistas talvez resuma bem a Rússia do século XXI. Ao invés de “Welcome”, a frase de boas-vindas na saída do aeroporto Pulkovo era “Invest in SPB” (Invista em São Petersburgo, em tradução livre). A um ou dos quilômetros dali, uma loja da concessionária de carros alemã Mercedes-Benz, seguida por outra da Porsche, também da Alemanha.

Geração pós-URSS

Ernest Ahverdov faz parte da primeira geração pós-URSS | Foto: Marcelo Mariano/Jornal Opção

Nascido em 1988, Ernest Ahverdov cresceu nos anos 1990 e faz parte da primeira geração pós-URSS. Aos 30 anos de idade, ele é vocalista da banda indie-pop The Hayden e gerente da hamburgueria The Bepbop Burgers, em Rostov.

Sua mãe vem de uma família comunista, mas Ernie, como prefere ser chamado, conta que seu pai, já falecido, sempre disse a ele que comunistas “não são bons”.

Crítico de Putin, o jovem já fez parte de protestos contra o presidente da Rússia e é enfático ao dizer que o país não é uma democracia. Contudo, Ernie rejeita também classificá-lo como uma ditadura. “Esses conceitos não se aplicam aqui”, pontua.

Para ele, a principal diferença entre a Rússia de 2018 e dos anos em que cresceu é a liberdade. “Você podia ligar a TV e ver jornalistas criticando o governo. Hoje, isto é inimaginável. Não me sinto livre e nem seguro.”

Quando a reportagem comentou que, no Brasil, as eleições deste ano estão imprevisíveis, Ernie foi direto: “Não sei o que são eleições imprevisíveis”. A entrevista foi concedida em pleno centro de Rostov. Policiais iam e vinham o tempo todo, mas, provavelmente por não falarem inglês, não escutaram as críticas feitas ao governo.

Em relação à Copa do Mundo, Ernie condena os gastos abusivos, que, segundo ele, propiciaram práticas de corrupção. Por outro lado, diz acreditar que o evento pode ajudar a mostrar ao mundo que a Rússia não é o vilão normalmente retratado no Ocidente. “Amo o meu país e o meu povo. Critico o governo justamente porque quero que a gente viva em uma Rússia melhor.”

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