Comurg ainda é um grande problema

Para o vereador Elias Vaz, a empresa de limpeza urbana de Goiânia é como se fosse a Petrobras

Supersalários, suspeita em contratos e má-gestão afundaram Comurg em uma crise que parece não ter fim | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

A situação financeira da Com­panhia de Urbani­za­ção de Goiânia (Co­murg) ainda é uma in­cóg­nita. A maior dúvida que paira é: caso a gestão Iris Rezende Ma­cha­do (MDB) não consiga enxugar os gastos e recuperar o órgão, a saí­da seria a privatização ou a venda da empresa, que consome pelo menos 6% do orçamento da Pre­fei­tura, ou seja, R$ 31 milhões?

Na semana passada, a re­por­tagem ouviu servidores que des­confiam que o próximo passo da prefeitura — depois de demitir 750 funcionários — e criar o malsucedido Programa de Rescisão por Acor­do Incentivado (Prai), será co­lo­car a companhia nas mãos da ini­ciativa privada. A expectativa da Pre­feitura, com o Prai, era a demissão de 2 mil funcionários, que geraria uma economia de R$ 10 mi­lhões. Mas a adesão decepcionou: apenas 100 funcionários.
A possibilidade de privatizar foi ven­tilada pelo prefeito em uma reunião com servidores no final do ano passado. Na ocasião, a categoria sugeria greve dos garis porque o sa­lário não é reajustado há dois anos. Iris Rezende disse à época que a prefeitura, de um modo geral, pas­sa por uma crise financeira.

Presidente da Ascom, Chopinho: seria privilegiado com supersalário | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Na Comurg, evidentemente, de­pois de capítulos com casos de su­persalários e contratos superfaturados, a situação é ainda pior. “Com isso, seria preciso diminuir os gastos em torno de 10 milhões de reais na Comurg. Caso contrário, a prefeitura terá de terceirizar a companhia”, lembra o presidente da Associação dos Trabalhadores da Comurg (Ascom), Nilton Vieira de Melo, o Chopinho.

Conforme Nilton, o prefeito informou na reunião que os gas­tos com a Comurg superam o va­lor pago por prefeituras de outros Es­tados a companhias de limpeza ur­bana e coleta de lixo. “Uma das for­mas criadas para diminuir este va­lor é a demissão de uma segunda par­te dos aposentados”, aponta ele, um dos aposentados que escaparam da demissão em massa por causa do car­go que exerce na associação.

Enquanto percorria a sede da Co­murg, na Avenida Nazareno Ro­riz, na Vila Aurora, alguns servidores puxaram conversa com o repórter. Uns apontavam para Nilton como “blindado” e “privilegiado” na Comurg. “Olha ali o Cho­pinho, não faz nada, apenas re­cebe”, acusou uma servidora que saia indignada do prédio. Nilton, no entanto, se defende: “Estou aqui por causa da estabilidade. Por causa da associação”.

Não existe possibilidade de a Comurg deixar de existir. Uma determinação do prefeito Iris e da primeira-dama Iris Araújo é que se recupere a Companhia” | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Em nenhum momento em que con­versou com o repórter, ao mes­mo tempo em que mastigava pão com presunto e queijo, em uma lanchonete dentro da área da com­pa­nhia, Chopinho menciona que re­ce­beu supersalário na Comurg. Ele foi um dos sindicalistas denunciados pe­lo Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) por enriquecimento ilícito.

O diretor administrativo e fi­nan­ceiro da Comurg, Marcos Silva Ca­zorla, defende que a empresa vai conseguir se recuperar e descarta qualquer hipótese de venda ou privatização do órgão. “Não existe po­ssibilidade de a Comurg deixar de existir. Uma determinação do pre­feito Iris e da primeira-dama Iris Araújo é que se recupere a companhia. A pre­ocupação deles é com a situação das famílias que dependem da em­presa”, afirma.

A respeito do orçamento gasto, ele afirma que ainda não se inteirou completamente da situação, já que está há menos de um mês no cargo. Mesmo assim, reitera que a com­pa­nhia recebe da prefeitura o suficiente para suprir a necessidade.

Conforme Cazorla, a Comurg vai abrir um novo Prai para que os servidores tenham uma nova opor­tunidade para a rescisão vo­lun­tária. “A gente quer manter apenas os funcionários que trabalham”, destaca.

Valdivino Eterno de Oliveira, servidor que decidiu deixar Companhia | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Entre os gastos, conforme apurou o Jornal Opção, a companhia cus­teia encargos trabalhistas, contrato com prestadoras de serviço, pro­cessos judiciais (em média R$ 800 mil por mês), principalmente com reivindicações de recebimento de insalubridade).

Para o Jornal Opção, um gari disse que jamais aceitaria o acordo. “É muito injusto nós pagarmos pe­la roubalheira lá dentro. Precisamos va­r­rer a politicagem”, brada, en­quan­to varre a Avenida Anhan­gue­ra, na Praça do Bandeirante, no Centro de Goiânia.

Valdivino Eterno de Oliveira, 40 anos, pensa diferente. Depois de nove anos na companhia, prefere “pular do barco porque está afun­dando”. Embora considere o acor­do prejudicial ao servidor, Oli­vei­ra aceitou o acordo porque nesses anos todos não foi valorizado co­mo profissional. “Eu passei para ga­ri, mas acabei indo para a segurança. Mas nunca me deram nen­hum gratificação. Preciso trabalhar em um lugar que me valorize.”

Corrupção e politicagem

Vereador Elias Vaz: “Comurg serve de instrumento eleitoral e corrupção” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Para o responsável pelas denúncias de supersalários na Comurg, vereador Elias Vaz (PSB), a Comurg sofre historicamente com a corrupção e com o uso político. “São problemas que ocorrem em várias gestões. Por várias administrações. Serve de instrumento eleitoral e, ao mesmo tempo, de corrupção”, comenta.

A Comurg, diz Vaz, é importante para a cidade. “É preciso lembrar que a maioria dos servidores trabalha com seriedade. Não podemos ‘tacar’ pedra na Comurg como se fosse Geni [da música de Chico Buarque]. A Comurg é muito parecida com a Petrobras porque ambas foram vítimas de corrupção”, compara.

Um dos fatores que dificulta o entendimento dos problemas na companhia é a falta de transparência com os dados públicos. “No site da prefeitura não tem nada sobre a Comurg. É muito nebulosa”, afirma o vereador Romário Policarpo (PTC). Para Policarpo, a saída não é a privatização: “É preciso reduzir os gastos”. l

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