Como a falta de planejamento faz uma cidade enxotar seus próprios moradores

Com a permissão de grandes construções em bairros antigos de pequenas residências,
quem lá passou a vida inteira se vê impelido a uma decisão-dilema: resistir ou se mudar?

A casa da professora Sáida Cunha, na Rua 7, Setor Oeste, foi demolida para dar lugar a um grande empreendimento de luxo: a pressão imobiliária foi mais forte e abriu clarão na paisagem | Fernando Leite/Jornal Opção

A casa da professora Sáida Cunha, na Rua 7, Setor Oeste, foi demolida para dar lugar a um grande empreendimento de luxo: a pressão imobiliária foi mais forte e abriu clarão na paisagem | Fernando Leite/Jornal Opção

Elder Dias

No filme “O Som ao Redor” (2012), um dos mais brilhantes do cinema brasileiro nos últimos tempos, uma cena impactante — e que ilustra a capa do DVD — é a que um casal vai pela última vez à casa em que se conheceram. Ela será demolida para dar a um prédio de 21 andares. É uma das poucas residências que haviam restado naquela quadra de Setúbal, diante da Praia de Boa Viagem, no Recife, tomada por condomínios verticais. Percebe-se a relação afetiva envolvida naquela despedida motivada por uma transação comercial.

A mudança da paisagem é natural nas cidades, que se dinamizam de acordo com diversos fatores. Um deles diz respeito à funcionalidade de tal ou tal localidade para determinadas atividades e dessas em relação ao capital. Quando isso é gerido de forma planejada e planificada, tudo caminha razoavelmente bem.

Não é o que vem acontecendo com Goiânia. A falta de rumo ordenado que parece ter a cidade há décadas, porém, parece ter se agravado nos últimos dez anos, quando se intensificou a especulação imobiliária e uma nova legislação — inclusive o Plano Diretor — permitiu a instalação de arranha-céus em bairros onde antigamente havia apenas casas e sobrados.

Aos poucos, pessoas foram se sentindo ilhadas pelos empreendimentos ou por novas rotinas: o que era residencial, se tornou point noturno; ou o que era trânsito local recebeu um mar de carros. Nesta edição, o Jornal Opção procurou alguns cidadãos e cidadãs de Goiânia que foram, de algum modo, afetados pelas transformações de seu bairro. Três deles se renderam e se mudaram; um se manteve firme, apesar da tentação de ganhar um valor bem acima do que outrora receberia pelo terreno em que vive. Para todos, há um componente de que o capital não faz conta: o afetivo, composto pelas lembranças, memórias e histórias que ficaram impregnadas em paredes que terão — ou teriam — de ser demolidas.

“Não deveria ter deixado derrubarem minha casa” – Sáida Cunha, professora
Fernando Leite/Jornal Opção

Fernando Leite/Jornal Opção

Não sou boa com datas, mas esta eu guardei: 29 de abril de 1969. Foi quando nos mudamos para nossa casa na Rua 7, entre a Praça do Sol e a Tamandaré, no Setor Oeste. Era uma construção muito boa, representava muito bem o que foi a arquitetura de Goiânia entre os anos 60 e 70. A arquitetura era algo importante naquela época, e as residências eram construídas de acordo com o perfil do morador. Hoje as casas raramente têm uma característica particular, você anda pela cidade e não encontra mais nada assim.

Eu era formada na Escola de Belas Artes da Católica [hoje Pontifícia Universidade Católica de Goiás – PUC-GO] e lá lecionei no curso livre, depois no efetivo. Na Católica estavam artistas como Elder Rocha Lima, Amaury Menezes, Ana Maria Pacheco, DJ Oliveira, Frei Confaloni. Então, passamos a receber os nomes da arte da cidade, tanto artistas plásticos como escritores — o [escritor] PX Silveira tem um livro em que cita a história dessa casa. Era uma época em que a cidade fervilhava nesse sentido; hoje só encontramos as pessoas nos barzinhos.

Um dia, anos atrás, minha filha sofreu um assalto na porta de minha casa. Já havia o assédio das construtoras, que queriam comprar nosso imóvel e, então, com mais esse motivo, minha família me pressionou a sair. Outra filha, que já morava nos Jardins Viena, insistiu para que eu me mudasse para cá, onde meu marido comprou um lote. E eu realmente não queria sair, porque minha casa era um projeto muito bom e tinha sido feita para mim. Eu gostava demais da casa. E relutei durante oito anos a sair de lá. Até que cedi. Vendemos a casa.

Hoje me arrependo amargamente. Sair de sua casa depois de 43 anos é um baque muito grande. Mudei para os Jardins Viena em fevereiro de 2012 e morar em um condomínio fechado é relativamente bom. Hoje, não consigo passar na rua em que morei e só voltei ao local para o lançamento do empreendimento, a convite de um amigo. Nunca mais mexi em fotos antigas, é algo me dói bastante.

Eu errei, não deveria ter cedido, não deveria ter deixado derrubarem minha casa. Fico triste por ter contribuído para destruir um patrimônio arquitetônico da cidade, contribuí para ocorrer aquilo que eu sou contra. Todos os países preservam sua história. Aqui, no Brasil, não. E Goiânia destruiu sua história.

“Fica certa nostalgia, mas isso fatalmente ocorreria” — Joaquim da Silva Farias, servidor público municipal
Fernando Leite/Jornal Opção

Fernando Leite/Jornal Opção

Minha família se mudou para cá em 1961. Somos nove irmãos e crescemos todos juntos. Eu tinha 4 anos de idade quando chegamos. Hoje, depois de 54 anos, cinco de nós ainda permanecemos. Para mim, morar aqui, no Pedro Ludovico, é questão de preservar nossa memória.

Recebi várias ofertas para vender minha casa, mais ainda nos últimos tempos, mas nenhuma me convenceu. Aqui é um lugar bom de morar hoje e depois de passarmos tantas dificuldades — sofrendo sem asfalto, sem água, sem esgoto, e tudo o mais —, não fazia sentido vender. Por exemplo, entre as propostas havia a troca por apartamentos, mas não me imagino morando em um.

Então, achamos por bem ficar, por não vender, porque nossa história está aqui. Sei que as cidades estão em grande parte optando pela verticalização. Sei que isso fatalmente aconteceria também em nossa região, que hoje está relativamente perto do Centro, é um lugar muito valorizado. Fica uma certa nostalgia dos outros tempos, mas encaro como coisa normal.

“Sinto que fui expulsa de minha própria moradia” — Claudia Pereira Thomé, dona de casa 
A casa de Cláudia (que preferiu não fazer fotos), na Rua 1.140: quadra tomada por torres de alto padrão

A casa de Cláudia (que preferiu não fazer fotos), na Rua 1.140: quadra tomada por torres de alto padrão

Morei durante 20 anos em um sobrado na Rua 1.140, uma via paralela à Alameda Ricardo Para­nhos, no Setor Marista. Durante muito desse tempo, não tive problema algum. Foi uma época inesquecível. Até que assumiu a gestão de Goiânia o prefeito Iris Rezende (PMDB) e surgiu o tal Plano Diretor em que abriram gabarito para qualquer construção em qualquer lugar da cidade. E começaram a construir prédios lá, onde só havia casas. Hoje, em volta da minha antiga residência, estão três torres, cada uma com 35 andares e quatro apartamentos em cada um deles.

Fizeram propostas para que vendêssemos a casa, mas resistimos. Então, fiquei dois anos sofrendo com barulho, com falta de respeito, com coisas que caíam das lajes em construção em nosso terreno — lâminas, pedras, pedaços de pau. Há dez anos, tínhamos reformado toda a casa e a adaptamos para a mobilidade de meu irmão, que é PNE [portador de necessidades especiais]. Fizemos rampas e tudo o mais que era necessário para lhe dar acessibilidade.

Com os transtornos causados pelas obras nessas torres — aos quais sempre protelavam providências, apesar de nossas reclamações —, não teve mais como: praticamente fomos obrigados a nos mudar, o que fizemos em novembro do ano passado. Hoje, moro no Aldeia do Vale, porque tenho cachorros. Minha casa do Marista está fechada, não tem como alugar nem vender para outro particular, porque foi afetada pelas obras ao redor.

O sentimento que tenho é de que fui expulsa de minha própria casa. Essas construtoras não têm a menor consideração: fazem prédios de alto padrão, mas sujam nosso terreno, jogam as coisas. E são pessoas que não têm palavra, não têm escrúpulos, prometem e não cumprem. Tanto é que vamos aguardar a hora certa e entrar com ação o que essas construtoras fizeram conosco.

Eu amava minha casa. Achei que sairia de lá para o (cemitério) Jardim das Palmeiras. Hoje, não existe a menor possibilidade de voltar. Fica inviável, não existem mais casas perto da minha. Não dá para morar lá, cercada por prédios. Imagine você que foram três casas demolidas para dar lugar a essas três torres de três construtoras diferentes. Eram, no máximo, quatro carros em cada uma dessas três residências — 12 automóveis, no total. Quando estiverem prontos todos os prédios, imaginem quantos carros vão ocupar o mesmo espaço, sendo que cada torre tem 35 andares com quatro apartamentos por piso [contando garagem para dois carros por unidade, seriam 840 vagas]?

Então, o que ocorre é que todas as pessoas que querem morar em casa, vão para condomínios fechados. Dizem que são prédios de luxo, mas isso é um engodo. Muitos conhecidos vivem um caos em lugares onde há aglomeração de prédios, como a região do Parque Flambo­yant, onde é quase impossível se locomover de carro. E aos fins de semana, quando se quer tranquilidade, uma multidão vai para o parque e a agitação e o movimento de carros continuam. O Setor Marista vai ficar horrível como o Jardim Goiás.

Então, agora não pretendo mais voltar. Até pensei nisso, no começo, mas agora, não. Já me acostumei aqui e, se Deus quiser, não vai ter nenhum prefeito que vai implantar prédios no Aldeia do Vale. A gente se acostuma com as coisas. Da porta do condomínio até o trevo da BR-153 de acesso ao Flamboyant são oito minutos de carro. O difícil é depois, quando se entra na cidade: é muito complicado transitar com tranquilidade em Goiânia.

Toda cidade tem tendência a crescer, mas como tudo neste País, não existe planejamento algum em Goiânia. Deixam a cidade crescer, para depois ver o que dá. Como circular naquelas ruas do Marista daqui a algum tempo? É um crescimento por razão comercial, puxado por aquelas construtoras que usam de seu poder financeiro, por políticos com seus interesses eleitorais. Não há qualquer planejamento racional.

“O bairro ficou impraticável para viver tranquilamente” — Arnaldo Mascarenhas Braga, arquiteto 
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Prédio já compõe a paisagem que circunda a casa do arquiteto Arnaldo Mascarenhas Braga, no Setor Marista | Fernando Leite/Jornal Opção

Eu e minha família vivemos 34 anos em uma casa na Rua 147, bem perto do restaurante Piquiras, mas nos mudamos de lá há três meses. A casa vai ser provavelmente alugada ou, quem sabe, vendida. Não é nenhuma novidade no Setor Marista: houve, digamos, uma “inadequação” da vizinhança, quando, aos poucos, as casas foram dando lugar a clínicas, ou escritórios, ou boates, ou restaurantes. Hoje, praticamente todos os meus antigos vizinhos já se mudaram.

Eu mesmo só aguardava o apartamento ficar pronto para tomar a mesma atitude. O bairro ficou impraticável para viver tranquilamente, embora já tenha tido uma fase pior. Tempos atrás, era impossível receber visita à noite, porque a rua estava tomada por carros e tinham os guardadores e suas “contribuições”. Isso se estendia das 21 horas até o fim da madrugada.
Nesse intervalo, qualquer hora era hora de “abrir o som” do carro. O vidro temperado da minha casa vibrava absurdamente com aquelas músicas “pancadão”. Eram agroboys paquerando, gente gritando, bêbados cantando, mulheres pedindo socorro. Uma vez, acordei assustado com um barulho forte e ritmado, que me lembrou o produzido por uma impressora rotoplana que conheci quando menino, na “Folha de Goyaz”: era uma “rave” que acontecia nos arredores.

Fernando Leite/Jornal Opção

Fernando Leite/Jornal Opção

Havia coisas mais graves: gritos e tiros. Tanto é que tiveram três ou quatro assassinatos na região em um prazo curto de tempo. Hoje esse movimento boêmio minorou um pouco. Poucos moradores restaram agora, acho que apenas um do lado da minha residência. Hoje vivo em frente ao Parque Areião, no 15º andar. É um dos melhores endereços da cidade. Tive sorte por isso, mas aqui é tão quente como qualquer lugar — as ilhas de calor dos grandes centros.

A cidade caminha para um adensamento, mas é algo assim: você está em sua casa, tranquilo, e de repente mudam o uso do solo. Modificam as regras de construção em torno dos eixos, mas não definiram claramente como isso seria feito. A verticalização é inevitável e, como arquiteto, sei que o que mais o mercado imobiliário sabe fazer são shoppings e edifícios altos. Para quem resiste, a moeda não é dinheiro, mas imóvel, que tem valor superestimado e cujo preço é diferente até de acordo com o andar. Haveria uma opção, que seria boas condições de vida em cidades da região metropolitana, como Senador Canedo, Trindade, Aparecida e até mesmo Inhumas. Se tivesse núcleo de comércio interessantes e uma boa mobilidade até a capital, isso atrairia pessoal de renda mais elevada, valorização esses municípios e evitaria, em grande parte, esse descontrole em Goiânia.

Como presidente do CAU/GO [Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás], tenho a dizer que o projeto de novos edifícios é um possível mercado para o arquiteto urbanista. Nosso relacionamento com o mercado imobiliário tem de ser o mais franco e aberto possível, porque é nosso campo de trabalho. O que vemos é que não há uma valorização do nosso serviço por uma fatia razoável do empresariado da construção civil. Temos poucos exemplos de boa arquitetura de edifícios em Goiânia.

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thiago leao

Sinto por essas pessoas, mas tem o lado justo onde mais pessoas terão a possibilidade de morar em um Setor nobre, 1 casa 1 família usufruindo da região Da proximidade, um prédio dezenas de familias e complicado , lógico que toda construção se perde algo, mas temos que olhar pelo lado positivo sempre.

Thiago Cazarim

Sim, vai ter gente da perifa na Ricardo Paranhos graças ao caos urbanístico de Goiânia. Que argumento tosco!