Como é ser vegetariano em um Estado com a cultura da carne tão forte como Goiás

Em meio a churrascarias, o vegetarianismo vem crescendo com o passar dos anos. Conheça mais sobre este estilo de vida

O delicioso sanduíche com hambúrguer de soja da La Bottega dell’Arte

A grande produção pecuária em Goiás influencia naturalmente a culinária local e a dieta da sociedade. Não comer carne muitas vezes é visto como algo atípico, mas engana-se quem pensa que não há opções de restaurantes vegetarianos por aqui. O Jornal Opção visitou cinco estabelecimentos destinados a este público em Goiânia e conversou com praticantes do vegetarianismo para buscar entender suas motivações e como anda o mercado no Estado.

É necessário, primeiramente, diferenciar vegetarianismo de veganismo. Os praticantes deste último abdicam de qualquer tipo de produto de origem animal, incluindo não só ovo, leite e mel, mas também vestimentas que contenham couro e lã. Remédios, sabonetes, cosméticos e demais mercadorias que são testados em animais também não fazem parte do cotidiano de um vegano, enquanto os vegetarianos, por sua vez, privam-se da carne e continuam consumindo derivados.

O professor de história Ivan Vieira aderiu ao ve­getarianismo há 13 anos. Ao Jornal O­p­ção, ele relata que o processo se deu de maneira gradual e os re­sul­tados em termos de saúde foram bastante positivos. No início, Ivan causou um “pe­queno choque” em seus parentes, uma vez que tradição familiar sem­pre foi o churrasco de domingo e era difícil para as pessoas pensarem em opções vegetarianas.

O bolo de chocolate vegano do Loving Hut é um dos itens mais procurados pelos clientes

“O não consumo de carne ainda é considerado algo anormal, mas acho que o aumento no número de vegetarianos e veganos aos poucos desconstrói esse estranhamento e as pessoas ficam mais à vontade conosco, mesmo achando no seu íntimo que não comer carne faz mal à saúde”, aponta o historiador. Ao serem perguntados sobre opções sem carne, atendentes de lanchonetes e bares estão cada vez menos respondendo com opções de frango ou peixe. Paulatina­mente, tem-se tomado conhecido acerca deste estilo de vida e, com isso, as alternativas estão se expandindo.

Remar contra a maré

Os estabelecimentos deste segmento em Goiâ­nia surgiram por diversos motivos. A Es­ta­ção do Açaí teve seu i­nício em 1998 em decorrência da intolerância à lactose do filho dos donos. Proprietário do local, Fernando de Azevedo argumenta que uma dieta sem carne é mais barata. “Um quilo de soja custa bem menos do que um quilo de filé”, pontua. Além da famosa feijoada vegetariana, são servidos lanches durante a tarde e o local conta ainda com um empório riquíssimo em produtos naturais.

O Sheng Ye é um restaurante administrado por uma família de taiwaneses radicada no Brasil há quase 20 anos. De acordo com Chen Yuchi, a ideia surgiu a partir da paixão pelos animais e da preocupação com o meio ambiente – vale ressaltar o impacto ambiental causado pela produção bovina, sendo uns dos principais poluentes da Terra, além de desperdiçar grandes quantidades de água e provocar desmatamento. A culinária é majoritariamente asiática, mas adaptada à realidade brasileira, servindo feijão no buffet e até mesmo brigadeiro de sobremesa.

Ao fundo, os brigadeiros do Sheng Ye. O restaurante asiático se adapta à culinária brasileira

Especializada em sanduíches vegetarianos e veganos com hambúrgueres feitos de soja ou falafel, a La Bottega dell’Arte funcionava também como um estúdio de tatuagens. Contudo, os tatuadores, que fundaram a casa, estão se mudando para a Alemanha e a charmosa lanchonete terá sua capacidade ampliada e passará a atender também no horário de almoço. Pai de um dos idealizadores, Lúcio da Costa está assumindo a gestão da La Bottega e admite que o público vegetariano sofre por falta de opção em Goiânia. “É algo muito difícil em Goiás. Uma das razões da minha filha ter criado o restaurante é justamente essa”, afirma.

A famosa feijoada vegetariana da Estação do Açaí

Sajjan Sevaka, descendente de indianos e adepto ao movimento Hare Krishna, administra o Ja­gannatha, cujo nome significa “se­nhor do universo”. Funcionando desde 2011 no Conjunto Itatiaia, o restaurante recebe basicamente funcionários e estudantes da Uni­ver­sidade Federal de Goiás (UFG) e tem a proposta de mostrar ser possível ser vegetariano e, ao mesmo tempo, manter uma dieta saborosa. Sajjan reconhece a dificuldade deste tipo de negócio em Goiás. Segundo ele, devido à cultura da carne, muitas pessoas não querem experimentar, além de terem a falsa impressão de que não é possível manter o corpo saudável.

O Loving Hut é uma franquia internacional de restaurantes exclusivamente veganos espalhados por todo o mundo. No Brasil, são três: dois em São Paulo e um em Goiânia, fundado em 2010. Para a chefe de cozinha e sócia do local Solange Alves, o veganismo está aumentando em Goiás, mas investir neste tipo de negócio ainda é “remar contra a maré”. Ela ressalta que o restaurante não foi criado com o intuito de simplesmente vender comida e ganhar dinheiro, e sim para difundir a ideologia vegana.

O Jagannatha tem a proposta de mostrar ser possível manter, aos mesmo tempo, uma dieta vegetariana e saborosa

Cidades vegetarianas

Em 2014, a cidade de Palitana, na Índia, tornou-se a primeira 100% vegetariana do mundo após uma greve de fome liderada por monges jainistas ter culminado na mudança da legislação local, proibindo a matança de animais. O jainismo é uma das religiões mais antigas do país asiático, onde boa parte da população, mesmo os que não o praticam, abraça o vegetarianismo.

Chiara Appendino, prefeita de Turin desde 2016, quer fazer do município a primeira cidade vegetariana da Itália. A ideia é introduzir, semanalmente, um “dia sem carne” e inserir na grade curricular das escolas matérias que ensinem sobre bem-estar animal e ecologia. Famosa pelo time de futebol Juventus e pela fábrica de carros da Fiat, Turim deve ser em breve conhecida pelo vegetarianismo – já existe um “mapa vegetariano” para turistas.

Serviços e atendimentos oferecidos:

l Estação do Açaí
Unidade I: Rua 4, nº 1091, Centro – Segunda a sexta das 8h às 18h30 e sábado das 8h às 13h30; Unidade II: Rua 4, nº 124, Centro – Segunda a sexta das 10h às 18h30 e sábado das 9h às 13h30

l Jagannatha
Rua R-19, Quadra 17, Lote 9, Conjunto Itatiaia III – Segunda a sexta das 11h30 às 14h

l La Bottega dell’Arte
Rua 143, nº 30, Setor Marista – Terça a domingo das 18h às 23h (não abre no último domingo de cada mês)

l Loving Hut
Rua C-238, Quadra 554, Lote 11, Jardim América – Terça a domingo das 11h às 14h30

l Sheng Ye
Avenida Mutirão, nº 2281, Setor Bueno – Segunda a sábado 11h às 15h

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