Com tradição mantida, Goiânia não elege prefeitos bancados por governadores há 32 anos

Perfil específico do eleitor Goiânia pode ser explicação para escolha do prefeito na capital após disputa da 1988, descrevem cientistas políticos

Candidatos apoiados pelo governo do Estado não têm êxito há mais de três décadas | Fotos: Reprodução

Após uma eleição considerada a mais atípicas da história de Goiânia, uma vez que a campanha de um dos candidatos foi feita quase que integralmente sem a presença do cabeça de chapa, Maguito Vilela, do MDB, foi eleito prefeito com pouco mais de 217 mil votos. O emedebista está internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, desde o final de outubro, quando contraiu Covid-19. Mesmo assim, conseguiu derrotar o candidato rival, o senador Vanderlan Cardoso, do PSD.

A vitória de Maguito sobre Vanderlan manteve uma curiosa tradição viva há 32 anos em Goiânia: prefeitos apoiados pelo governador do Estado não têm êxito na capital. Dito e feito. Mesmo com uma margem pequena de votos, aproximadamente 69 mil, Vanderlan, apoiado abertamente pelo governador Ronaldo Caiado, do DEM, se juntou à galeria de candidatos bancados por governadores que não conseguiram chegar à Prefeitura de Goiânia.

A presença de Caiado na campanha de Vanderlan foi intensa. O governador chegou a conseguir fazer com que o ex-secretário da Indústria e do Comércio, Wilder Morais, desistisse de lançar seu nome pelo PSC e se juntasse ao senador com candidato a vice-prefeito na chapa. Porém, nem Caiado, que conta com boa popularidade no Estado, conseguiu quebrar a tradição goianiense.

Para se ter uma noção, a última vez que um prefeito bancado pelo governador foi eleito foi no ano de 1988. Nion Albernaz, à época no PMDB, venceu o adversário Pedro Wilson, do PT. Albernaz teve amplo apoio do então governador Henrique Santillo, do mesmo partido. Naquele ano, em turno único, o candidato vencedor teve pouco mais de 36% dos votos, enquanto Pedro Wilson teve 32%.

Todavia, Albernaz foi o último candidato a prefeito escolhido por um governador que venceu as eleições. Todos os oito prefeitos eleitos em Goiânia depois do pupilo de Henrique Santillo despontaram do lado da oposição ao governador.

O ex-governador Marconi Perillo, do PSDB, é o “campeão pé-frio”. Perillo apoiou quatro candidatos a prefeito em Goiânia em diferentes pleitos e os quatro foram derrotados, com alguns não conseguindo chegar nem no segundo turno. Inclusive Vanderlan Cardoso em 2016.

Veja a lista dos candidatos a prefeito apoiados pelo governador a partir de 1988:

1988
Nion Albernaz (PMDB), apoiado por Henrique Santillo (PMDB), venceu Pedro Wilson (PT) em turno único.

Nion Albernaz | Foto: Reprodução

1992
Sandro Mabel (PMDB), apoiado pelo governador Iris Rezende (PMDB), foi derrotado por Darci Accorsi (PT) no segundo turno.

Sandro Mabel | Foto: Reprodução

1996
Luiz Bittencourt (PMDB), apoiado pelo governador Maguito Vilela (PMDB), foi derrotado por Nion Albernaz (PSDB) no segundo turno.

Luiz Bittencourt | Foto: Reprodução

2000
Lúcia Vânia (PSDB), apoiada pelo governador Marconi Perillo, perdeu para Pedro Wilson (PT). Ela ficou em terceiro lugar nas urnas. Darci Accorsi (PTB) chegou ao segundo turno.

Lúcia Vânia | Foto: Reprodução

2004
Sandes Júnior (PP), apoiado pelo governador Marconi Perillo (PSDB), perdeu para Iris Rezende (PMDB). Sandes ficou em terceiro lugar. Pedro Wilson (PT) foi ao segundo turno.

Sandes Júnior | Foto: Reprodução

2008
Sandes Júnior (PP), apoiador pelo governador Alcides Rodrigues (PP), foi derrotado por Iris Rezende (PMDB) no primeiro turno.

2012
Jovair Arantes (PTB), apoiado pelo governador Marconi Perillo (PSDB), foi derrotado por Paulo Garcia (PT) no primeiro turno.

Jovair Arantes | Foto: Reprodução

2016
Vanderlan Cardoso (PSB), apoiado por Marconi Perillo (PSDB), perdeu para Iris Rezende (PMDB) no segundo turno.

Vanderlan Cardoso | Foto: Reprodução

2020
Vanderlan Cardoso (PSD), apoiado por Ronaldo Caiado (DEM), perdeu para Maguito Vilela (MDB) no segundo turno.

Nível de escolaridade e perfil ‘oposicionista’ ajuda a manter tradição, explica cientista político

Para o cientista político Itami Campos, o perfil do eleitorado goianiense em relação ao do eleitor no resto do Estado de Goiás contribui para o entendimento do fenômeno notado na capital. Segundo o cientista, “o eleitorado de Goiânia é um pouco mais diferenciado”.

“Quando você pega o eleitor do Estado de Goiás, ele é mais conservador, tradicional. O rural ainda tem uma força muito grande em termos de conduta. Já o eleitorado goianiense é um pouco diferenciado. Nesse sentido, é que os governadores não conseguiram eleger nenhum prefeito em Goiânia, apesar de apoiarem nomes reconhecidos”, discorre.

De acordo com Campos, o nível de escolaridade em Goiânia é mais alto em comparação ao interior de Goiás, o que faz com que os eleitores da capital tenham uma postura mais questionadora e oposicionista em relação ao governo.

“Os governadores não conseguem penetrar na cidade. Marconi tentou, com obras, por exemplo, mas não conseguiu. Não conseguem ter uma influência pra eleger seus candidatos. Isso é um reflexo do nível de insatisfação e do oposicionismo a ações do governo do Estado”, avalia Campos.

O cientista político considera, inclusive, que mesmo Iris Rezende, ex-governador e atual prefeito, que conta com ampla aprovação e cacife político, teve participação pequena na eleição de Maguito. De acordo com Campos, Maguito conta com certo prestígio pelas gestões bem-sucedidas em Aparecida de Goiânia e no governo do Estado. “Teria sido reeleito governador se tivesse dado certo [sua candidatura]”, conclui.

Já para o cientista político Guilherme Carvalho, a tradição de derrota de candidatos a prefeito apoiados por governadores não se restringe a Goiânia. De acordo com Carvalho, municípios como a cidade de Goiás “têm uma dinâmica parecida” no que tange a eleitorados oposicionistas.

No entanto, Carvalho diz acreditar que esse fenômeno não está ligado a uma questão de “racionalidade coletiva do eleitorado”. “Não faz parte de um conteúdo programático dos candidatos a nível local. Se ouve, entre os prefeitos goianienses, o seguinte ditame: ‘Me elejam porque eu serei oposição ao governador do Estado’. Eu até poderia dizer que há um conteúdo de concordância do eleitorado, mas não há”, detalha.

Tradição foi mantida por pouco

A professora da Universidade Federal de Goiás (UFG) e cientista política Denise Paiva é outra que corrobora da tese de que o eleitorado de Goiânia tem um perfil mais oposicionista. Porém, Denise afirma que em comparação com as demais eleições municipais, em geral, o governador consegue fazer a maioria das prefeituras.

Denise esclarece ainda que, apesar de mantida, a tradição de derrota de candidatos do governador esteve por um fio nessas eleições. Segundo a cientista política, Vanderlan perdeu por uma diferença pequena e a derrota se deve, em parte, por um tipo de postura não tão bem aceita pelo eleitorado em relação ao oponente.

“Possivelmente, a estratégia da campanha do senador, mais agressiva, tendo um candidato que está em estado grave no hospital, pode não ter sido bem aceita pelo eleitor. Mas, em contrapartida, ao final essa estratégia deu certo resultado. Porque o esperado era que fosse uma diferença muito maior [entre os dois candidatos]”, afirma Denise.

Segundo a professora da UFG, outro fato que pode ter contribuído para a vitória de Maguito foi a polêmica declaração de Vanderlan em defesa de Chico Rodrigues (DEM-RR), o senador que foi flagrado pela Polícia Federal com dinheiro escondido entre as nádegas.

Em áudio enviado ao grupo dos senadores no WhatsApp, Vanderlan afirmou que “não havia nada que desabonasse a conduta de Chico” mesmo diante das informações divulgadas sobre a apreensão de dinheiro feita pela Polícia Federal na casa do parlamentar do DEM de Roraima. “Aquilo repercutiu muito”, arremata.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.