Com quase 90 anos, Goiânia coleciona avanços mas ainda perece com inadequações

Hoje com mais de 1,5 milhão de habitantes, Goiânia avança em questões como meio ambiente e infraestrutura, mas ainda há um longo caminho pela frente

Goiânia completou 87 anos no último sábado, 24 | Foto: Divulgação

 

No dia 24 de outubro de 1933, em local definido pelo engenheiro, arquiteto, urbanista e paisagista Atílio Corrêa Lima, nascia Goiânia, a capital de Goiás. O nome escolhido na votação feita à época foi outro: Petrônia, em homenagem ao seu fundador, Pedro Ludovico Teixeira. No entanto, o ‘pai’ da capital preferiu a outra opção. Desde então, o município, que foi inicialmente planejado para conter cerca de 50 mil habitantes, passou a crescer de maneira vertiginosa e, hoje, conforme dados do IBGE, é a 10ª capital mais populosa do país, com população estimada em 1,5 milhão de habitantes.

A cidade, ao longo de seus 87 anos recém-completos, destacou-se por vários fatores e a preservação ambiental é um deles. De acordo com dados de 2018 da Treepedia, estudo que usa imagens de rua do Google para mapear e registrar a quantidade de árvores em cidades ao redor do mundo, Goiânia é o município com mais de 1 milhão de habitantes mais arborizado do Brasil, com 89,5% de arborização urbana. A capital de Goiás fica à frente de cidades como Campinas (SP), que tem 88,4% e Belo Horizonte (MG), que tem 83%.

Também é possível afirmar que Goiânia se sobressai no quesito inovação de gestão. Uma prova disso foi o prêmio internacional que a capital levou no ano de 2016, pelo segundo ano consecutivo, de Gestão por Resultados em Desenvolvimento. O prêmio, que surgiu de uma iniciativa do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), objetiva destacar cidades da América Latina e do Caribe que investem em medidas de modernização da gestão pública.

À época, o modelo de gestão que levou o município a ficar em 2º lugar entre as cidades latino-americanas foi a implantação de sistemas tecnológicos como o Alvará Fácil, programa da prefeitura criado para acabar com a burocracia e a análise e aprovação de projetos para construções residenciais.

A questão da infraestrutura em Goiânia é outro fator que faz a cidade despontar. Segundo dados da Secretaria de Infraestrutura e Serviços de Goiânia, a Seinfra, nos últimos 4 anos foram investidos mais de R$ 130 milhões na construção e expansão da rede de águas pluviais da Capital.

Construção da rede de drenagem na Avenida Araguaia | Foto: Divulgação/Ascom

Conforme a pasta, o montante inclui as obras executadas por administração direta (R$ 30 milhões) e de empreitada, nos eixos estruturantes e nos bairros em pavimentação (acima de R$ 100 milhões), aumentando para cerca de 120 mil metros a extensão da rede da cidade.

Ainda segundo a secretaria, só no eixo estruturante do Corredor T-7 estão sendo investidos R$ 5,1 milhões na rede de drenagem, que está em processo de finalização, na região dos setores Bueno e Jardim América. “Além da canalização do Córrego Capim Puba, na Avenida C-12, no Setor Sudoeste, onde foi construído um bueiro, as galerias foram expandidas em 2.229 m, com tubulação que varia entre 600 mm e 1.500 mm, 1.742 m de ramais e ganharam mais 445 bocas de lobo”, informa a Seinfra.

Para historiador, não houve avanços, mas sim adequações

Se para alguns a capital de Goiás se tornou símbolo de inovação de gestão e infraestrutura, para outros, Goiânia tem somente feito reparos para tentar se adaptar ao “crescimento desordenado da cidade”. É o caso do historiador e membro da Academia Goiana de Letras (AGL), Nasr Chaul, que considera que Goiânia “evoluiu dentro de suas dimensões populacionais, muito diminuta ainda à realidade precisa”.

Para Chaul, levando-se em conta a quantidade de habitantes que a cidade tem hoje e as transformações urbanas ocorridas, Goiânia deveria ter uma estrutura consideravelmente maior que possui hoje. De acordo, Chaul, a mobilidade urbana é um dos fatores que ficaram “aquém da dimensão urbana que Goiânia dimensionou”.

Nasr Chaul, escritor e historiador | Foto: Arquivo pessoal

“Em relação a Goiânia do Atílio, projetada para 50 a 100 mil habitantes, a Goiânia aos 87 anos tem cerca de 2 milhões. Claro que já deveria ter metrô e transporte urbano bem mais adequados às suas reais necessidades”, diz. Segundo Chaul, no que tange à infraestrutura, o que houve em Goiânia não foi uma evolução, mas sim um “aperfeiçoamento aos ditames do aumento populacional e crescimento desordenado da cidade”.

Ainda segundo o historiador, em termos de expressividade cultural, a arquitetura carece de restauro. “Temos um claro exemplo de arquitetura Art D’éco e de Arquitetura Contemporânea [como o] Centro Cultural Oscar Niemeyer. Quando falamos em Arquitetura estamos falando de Cultura. Goiânia foi inaugurada em 1942 através de um batismo cultural com a inauguração do Cine Teatro Goiânia. Síntese das duas áreas”, relata.

“Precariedade do conhecimento” é causa da não preservação da identidade goianiense

A arquiteta e doutora em Geografia Urbana, Maria Ester, é outra especialista que tem um om olhar crítica às transformações que ocorrem em Goiânia, sobretudo na estrutura da cidade. Para ela, a característica em Goiânia que precisa ser preservada “é esse caráter modernista de cidade que foi planejada pra conviver com bosques, pra preservar seus mananciais, cidade que foi planejada para ter título de cidade jardim”.

“A gente tem essa precariedade do conhecimento, não só da população em geral, mas da própria gestão não se coloca conhecedora do assunto para dizer ‘Vou preservar as características modernistas de Goiânia’. Não há essa preocupação”, afirma.

Maria Ester cita como exemplo a desvalorização de locais históricos em Goiânia aos quais ela se refere como “joias” arquitetônicas modernistas, como o Jóquei Clube de Goiás, localizado na parte central de Goiânia.

“Aquele edifício, em qualquer outro lugar do mundo, seria uma joia dentro da cidade, seria alvo de visitação do mundo inteiro, porque o autor dele é um ganhador de prêmio internacional de arquitetura, é o Paulo Mandes da Rocha. No entanto, ele, aqui na nossa cidade, é considerado um trombolho”, conclui.

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