Com prejuízos nas safras anteriores, soja em Goiás mantém expectativa recorde

Colheita da produção 2015/2016, que já atingiu 90% do trabalho realizado, aponta saldo positivo do plantio de outubro, mas valor da saca preocupa

Depois de enfrentar prejuízos na produção nas duas safras anteriores, produtores caminham para colheita recorde de soja | Foto: Carlos Costa

Augusto Diniz

A crise econômica atinge mais de 12 milhões de pessoas desempregadas, quebra em­presas e deixa em dificuldades até o setor de exportação de carnes, que agora sofre com a divulgação de dados da intitulada maior operação realizada pela Polícia Federal, a Carne Fraca. No meio de um momento de instabilidade no qual países de diversas partes do mundo criaram barreiras e sanções momentâneas contra a carne brasileira de frigoríficos investigados, a agricultura parece dar fôlego às finanças e ao setor produtivo nacional com a expectativa de boas colheitas, principalmente da soja.

Puxado pelo bom momento e quantidade elevada de lavouras de soja no Estado, Goiás pode ter na safra de verão, aquela que vai de outubro de 2016 até abril deste ano, registro de uma produção recorde. A colheita, que já atingiu cerca de 90% da produção, está estimada em fechar esse ciclo entre 10,5 milhões de toneladas e 10,8 milhões de toneladas.

O vegetal, uma oleaginosa utilizada na produção de ração e consumida na forma de vários produtos pelo ser humano, depois de duas safras negativas, volta a animar o produtor goiano. As lavouras 2014/2015 e 2013/2014, somadas à safrinha 2015/2016 do milho em Goiás, trouxeram prejuízos aos agricultores, que esperavam uma recuperação justamente no período de plantio e colheita atual.

Clima favorável

Consultor da Faeg, engenheiro agrônomo Cristiano Palavro diz que aumento da colheita veio com valor da saca desvantajoso para o agricultor

No início de outubro de 2016, quando os produtores goianos começaram a plantar a soja dessa safra, muitos foram beneficiados pelo clima. “Tivemos chuvas, mas em menor quantidade e mais bem distribuídas entre as regiões de plantio, o que ajudou o resultado atingido até agora na colheita”, explica o engenheiro agrônomo Cristiano Palavro. Ele é consultor para as áreas de grãos, cereais, fibras e oleaginosas da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg).

Apesar da boa expectativa, com a possibilidade de atingir 10,8 milhões de toneladas de soja na safra 2016/2017 em Goiás, houve uma venda menor antecipada da oleaginosa pelos produtores goianos. “Aconteceu também uma queda muito acelerada do dólar do ano passado para este ano, aliada a uma safra muito grande em todo o Brasil, não só em Goiás.” Cristiano também lembra que a colheita dos Estados Unidos, que pode chegar a 117,2 milhões de toneladas. A produção de soja brasileira deve chegar a 107,6 milhões de toneladas, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

“Como muitos produtores deixaram de vender mais cedo, quando a saca de 60 quilos da soja estava na casa dos R$ 80, o preço foi caindo. No final de 2016 já estava em um valor perto dos R$ 70”, comenta o consultor da Faeg. Esse preço, que no início deste ano chegou a cair para R$ 65, hoje varia entre R$ 56 e R$ 58, de acordo com o engenheiro agrônomo e a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Goiás (Aprosoja-GO).

Tudo em dólar

Como os insumos da produção agrícola respondem ao valor do dólar, a queda da moeda americana em comparação com o real preocupam os produtores que ainda vão vender sua produção de soja. Mesmo com a estimativa de crescimento de 8,7% da quantidade da oleaginosa colhida no Brasil feita pela Conab, não é possível de dizer se o melhor a se fazer com a soja que não está negociada é a estocagem ou a venda pelo valor atual da saca.

“O agricultor precisa pagar os insumos da sua produção. Ele vai vender a soja que já estava negociada, mas ele está em alerta pela situação do mercado.” Para Cristiano, nem sempre essa produção tem como ser estocada e não é possível dizer se seria o ideal a se fazer com o que foi colhido. “Pode acontecer de o preço da saca continuar a cair, o que pode ser uma preocupação, mas não é possível precisar isso”, declara.

A rentabilidade baixa neste mo­mento para o produtor de soja é algo a ser enfrentado. Como nem todos os agricultores conseguiram aproveitar a janela de alta do valor da saca, que foi até o início de 2017, a recuperação do setor pode não atingir o esperado. Mas o engenheiro agrônomo diz que o setor tem que comemorar o resultado positivo na lavoura, com uma colheita que deve superar a marca passada de 10,2 milhões de toneladas.

De acordo com Bartolomeu Braz Pereira, presidente da Aprosoja-GO, a boa expectativa após três safras de perdas na agricultura em Goiás atingiu uma média de 53 sacas por hectare (sc/ha) no Estado. “Várias áreas atingiram uma colheita acima de 65 sc/hc, enquanto outras ficaram abaixo das 40 sacas por hectare na safra 2016/2017”, descreve Bartolomeu.

Com o casamento entre o bom momento do clima para a agricultura goiana e o produtor ter plantado a soja no momento certo, o presidente da Aprosoja-GO vê que a estimativa de até 10,8 milhões de toneladas da oleaginosa fica um pouco acima da previsão inicial. Goiás segue como o quinto maior produtor de soja do País. “É um momento interessante no cenário que o Brasil vive para tentar movimentar a economia.”

A Região Sudoeste de Goiás corresponde de 43% a 45% da produção goiana de soja, com destaque para as cidades de Rio Verde e Jataí. No Entorno do Distrito Federal, Cristalina aparece como importante no mapa da oleaginosa no Estado. Motividiu, Paraúna, Chapadão do Céu, Mineiros e Formosa são outras cidades goianas que também se destacam na lavoura de soja.

Enquanto as produções brasileira e goiana de soja têm sua estimativa aumentada pela Conab, o debate em relação aos incentivos dados a produtores no Brasil cresce na Organização Mundial do Comércio (OMC). A briga entre dois grandes vendedores da oleaginosa no mercado internacional inclui o Prêmio para Escoamento do Produto (PEP) e o Prêmio de Equa­lização pago ao Produtor (Pepro) pelo governo brasileiro.

“Como a soja é uma commodity (produto de origem primária), há políticas de defesa contra incentivos e a OMC tenta regular os subsídios para não haver desvantagens comerciais entre os países”, explica o consultor da Faeg. Ao mesmo tempo em que os Estados Unidos acusam o Brasil de dar vantagens indevidas aos seus agricultores, o governo brasileiro compra a briga contra a nova Farm Bill, que é a legislação agrícola do país da América do Norte.

Presidente da Aprosoja-GO, Bartolomeu Braz Pereira lembra que custo do plantio aconteceu com dólar na casa dos R$ 4 e na hora de vender a moeda americana desvalorizou

Operação Carne Fraca

Além de tudo ser cobrado em dólar, como destaca Bartolomeu, os dados da Operação Carne Fraca divulgados pela Polícia Federal colocam a colheita antecipada da soja como “algo que pode ser usado para segurar alguns negócios”. “Foi muita irresponsabilidade da Polícia Federal a forma como ela divulgou a investigação. Isso pode trazer um prejuízo grande para a nossa economia”, reclama.

O presidente da Aprosoja-GO afirma que a soja pode ter de puxar a responsabilidade no momento em que a carne brasileira de exportação enfrenta sanções mundiais. “E ainda temos um cenário de venda da produção abaixo da expectativa de preço. Nós plantamos com o dólar valendo cerca de R$ 4 e estamos colhendo com um preço próximo de R$ 3.”

Para Bartolomeu, o momento é de cautela. “Vamos ter que planejar bem para conseguirmos bons negócios. O preço está bem baixo do esperado.” Cristiano lembra que a Operação Carne Fraca pode mexer afetar os preços da soja que é utilizada na produção de ração.

De olho na safrinha

Como a lavoura 2015/2016 de milho trouxe prejuízos no que diz respeito à produção, o consultor da Faeg afirma que é importante ficar atento ao que pode acontecer com o milho na safrinha que começa agora, apesar da expectativa de um bom plantio.

“A cigarrinha é uma praga que já aparecia nos outros anos na produção de milho em Goiás, mas ela está mais agressiva e traz doenças ao cereal.” De acordo com Cristiano, os efeitos da cigarrinha não são significativos no resultado final da produção. “Mas isso exige gastos maiores no combate a essa praga”, pontua.

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