Com Daniel Vilela, PMDB fecha a porteira para Caiado

Ascensão do deputado e obstinação do senador podem dividir oposição e favorecer José Eliton, repetindo o que aconteceu em 1994

Daniel Vilela: deputado venceu Iris Rezende em disputa interna e já trabalha para se fortalecer; Ronaldo Caiado: com seu partido cada vez mais enfraquecido, senador quer apoio do PMDB em 2018; José Eliton: provável candidato da base aliada pode ser favorecido por divisão da oposição | Fotos: Fernando Leite e André Costa/Jornal Opção

Daniel Vilela: deputado venceu Iris Rezende em disputa interna e já trabalha para se fortalecer; Ronaldo Caiado: com seu partido cada vez mais enfraquecido, senador quer apoio do PMDB em 2018; José Eliton: provável candidato da base aliada pode ser favorecido por divisão da oposição | Fotos: Fernando Leite e André Costa/Jornal Opção

Cezar Santos

“Nosso foco é conquistar o maior número de prefeitos, apresentar o maior número de candidatos qualitativos para que a população goiana tenha no PMDB a confiança para depositar o seu futuro.” Esse foi o teor do discurso de conciliação adotado pelo deputado federal Daniel Vilela, assim que confirmada sua vitória na disputa pelo comando do diretório estadual do PMDB, no dia 5 de fevereiro.

Na política, mais que em outras áreas, há os fatos e a extensão dos fa­tos. Por isso, mais que um estender de mão aos derrotados e reforço da necessidade de união dentro do partido para que o PMDB tenha bons resultados nas eleições municipais em 2016, o discurso marcou o início da pré-campanha de Daniel Vilela ao governo do Estado, em 2018.

A vitória de Daniel na para o comando do diretório do PMDB terá desdobramentos maiores no médio prazo. Se por si só já é significativo o fato de que o jovem deputado impôs uma dura derrota interna ao decano Iris Rezende — que patrocinava a candidatura do “histórico” Nailton Oliveira —, é notável também pela abertura de possibilidades no cenário político-eleitoral do Estado.

O fato se torna ainda mais notável porque Daniel ousou confrontar o poderio que Iris exerce no partido há mais de 30 anos. Daniel ousou e ganhou com 73% dos votos, o que dá bem a medida do triunfo. Mas não é exatamente sobre essa vitória em si que se vai falar, e sim das possibilidades que ela abriu e que ensejam algumas análises conjunturais.

Iris Rezende é pré-candidato à Prefeitura de Goiânia na disputa de outubro. Sobre isso, não há dúvida, embora o próprio não o tenha dito com todas as letras — aliás, como sempre, em todas as candidaturas, ele faz um jogo de negação antes de “partir para o sacrifício”. De qualquer forma, é o nome mais forte do PMDB. Tão forte que até Daniel Vilela, o adversário que derrotou Iris internamente, já verbalizou isso.

Sendo Iris candidato à prefeitura, e ganhando, o PMDB ganha mais força para a disputa ao governo em 2018 — essa é a eleição que começa a ser batalhada desde agora. Se Iris não for candidato ou se for e não ganhar, nem assim o PMDB deixará de ser o principal partido de oposição à base aliada marconista em 2018.

Repita-se: como sigla, o grande adversário da base aliada não será o PT com seus handicaps flagrantes (mancha de corrupção em nível nacional e as más gestões de Dilma Rousseff e de Paulo Garcia), nem o DEM de Ronaldo Caiado. O grande contendor da situação estadual continuará sendo o PMDB, com sua capilaridade, sua história, o potencial de votos de Iris Rezende e, agora, a ascensão de Daniel Vilela.

O PMDB é tão expressivo como adversário do marconismo que não se concebe que abra mão da disputa ao governo em 2018. Os peemedebistas, de mamando a caducando, não aguentam mais o jejum de poder que Marconi Perillo lhe impôs desde 1999, quando assumiu o governo após derrotar Iris Rezende.

De lá para cá, o PMDB está na fila, não amargando o ostracismo total porque ganhou a Prefeitura de Goiânia duas vezes com Iris e mais uma vez patrocinando a eleição de Paulo Garcia. Executivo de capital, como se sabe, é um nicho de poder considerável em termos de manejo de recursos, cargos para aliados e exposição na imprensa. Além disso, nesse tempo, Maguito Vilela conquistou e bisou o poder na Prefeitura de Aparecida, o que também é significativo para qualquer partido.

Dito isso, o PMDB, não resta dúvida, vai ser como sempre um player na eleição de 2018. Quando chegar o momento das definições, Iris poderá ser o nome, como sempre foi. A novidade dessa vez é que há outro nome potencial: Daniel Vilela.

Se Iris tem sua força eleitoral, e ninguém discorda, tem também um desgaste inerente a quem, como o grande nome do partido, perdeu cinco eleições seguidas — três delas disputando diretamente com Marconi. Iris hoje não é mais a unanimidade burra que sempre foi no PMDB. Muitos peemedebistas querem renovação e falam disso sem assombro. E a renovação está aí, chama-se Daniel Vilela.

Portanto, o PMDB tem desde já dois nomes para a disputa de 2018. E é aí que entra a variável Ronaldo Caiado, do DEM. Caiado foi o primeiro a lançar o nome de Iris Rezende à Prefeitura de Goiânia, o que fez assim que ganhou a eleição para o Senado. Foi um lance calculado, de forma a garantir o apoio de Iris para seu próprio projeto em 2018, qual seja disputar o governo estadual.

No primeiro momento, o lance caiadista foi muito bem recebido por Iris, que se mostrou empolgado com o carinho que Caiado lhe dispensou. Mas o tempo passou. Peemedebistas perceberam que esse jogo só interessava mesmo a Caiado, que não tem um partido forte. O DEM virou uma sigla nanica no Brasil e em Goiás não é diferente — do ponto de vista da democracia é triste ter de constatar isso, mas é verdade.

Se Daniel Vilela já era um dos principais nomes do PMDB — lembremos que na eleição para a Câmara dos Deputados, em 2014, seus 179 mil votos só ficaram abaixo da votação do Delegado Waldir —, com a vitória sobre Iris Rezende na disputa pelo comando peemedebista, ele se colocou definitivamente no centro das articulações partidárias. Qualquer tratativa sobre nomes, alianças e formação de chapas no PMDB fatalmente passará por Daniel Vilela e seu grupo, comandado discretamente pelo pai, Maguito.

Sob comando de uma jovem e ascendente liderança como Daniel, que tem grupo, voto e voz, é certo que o PMDB não vai entregar a ninguém uma cabeça de chapa para 2018. Para Ronaldo Caiado, então, esse espaço ficou mínimo, mesmo que o líder ruralista se dispusesse a sair do DEM para ingressar no PMDB, possibilidade que já foi ventilada nos bastidores.

Está cedo, é verdade. A disputa pela Prefeitura de Goiânia – e de Aparecida – tem influência direta no que vai ser decidido em relação a 2018. Mas pode-se cravar sem sombra de dúvida: a porteira do PMDB foi fechada para Ronaldo Caiado.

Como o líder ruralista tem a obstinação que os grandes políticos têm, é quase certeza que a oposição tenha dois nomes de peso, justamente Daniel Vilela — ou Iris, nunca se pode descartar essa possibilidade — e Ronaldo Caiado. Um petista também deve disputar apenas para marcar posição.

E aí — já se fez essa análise aqui mesmo, no Jornal Opção —, o quadro de 2018 pode repetir o que ocorreu em 1994, quando a oposição se dividiu e perdeu. Naquele ano, Lúcia Vânia e Ronaldo Caiado (olha ele aí, no mesmo contexto), que faziam oposição ao PMDB, se dividiram e entregaram de bandeja a vitória para o então situacionista Maguito Vilela. Caiado e Lúcia chegaram a figurar em primeiro e segundo lugares, mas acabaram derrotados pelo terceiro colocado, Maguito.

Em 2018, o Maguito da vez pode ser José Eliton (PSDB). O hoje vice-governador será governador com a renúncia de Marconi para disputar o Senado (ou outro cargo nacional?) e nessa condição é quase impossível que não dispute a reeleição. Além da máquina e do maior cabo eleitoral do Estado, Marconi Perillo, José Eliton poderá contar com a divisão da oposição.

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