Cientistas são otimistas quanto a vacinas contra Covid-19

Especialistas afirmam que talvez tenhamos de nos acostumar ao isolamento social e outras medidas não-farmacológicas por mais alguns anos

Brasil vai pagar por parte da pesquisa da vacina contra Covid-19 | Foto: reprodução

Atualmente, cerca de 100 candidatas a vacinas contra o novo coronavírus (Sars-CoV-2) são estudadas ao redor do mundo. A maioria destas encontra-se em fase pré-clínica; isto é, estudada em animais ou in vitro, em cultura de células no laboratório. Entretanto, como já cobriu reportagem do Jornal Opção, desde 22 de maio deste ano os primeiros resultados de testes em humanos foram publicados na revista The Lancet.

Estes resultados iniciais na pesquisa com humanos são chamados de ensaios clínicos de Fase 1. No processo de desenvolvimento de vacinas, isso quer dizer que o teste foi feito com pacientes saudáveis, fora da faixa de risco para a doença e com o objetivo de testar as doses para se descobrir quanto do medicamento é tolerado e quais são os efeitos colaterais mais comuns. A fase busca mostrar se é seguro prosseguir com os ensaios em que mais humanos serão testados.

Existem duas pesquisas na terceira fase dos estudos clínicos sendo conduzidas no Brasil: a vacina desenvolvida em parceria entre Instituto Butantan e a empresa chinesa Sinovac, e vacina de Oxford. Ainda em junho, o Ministério da Saúde informou que o governo federal aceitava proposta da embaixada Britânica e do laboratório AstraZeneca de acordo de cooperação no desenvolvimento tecnológico e acesso do Brasil à vacina de Oxford para a Covid-19. O acordo prevê a compra de 100 milhões de doses da vacina e da transferência de tecnologia, se demonstrada sua eficácia.

Uma mulher na luta para salvar vida em tempos de pandemia do novo coronavírus | Foto: Reprodução

Diferentes técnicas estão para se induzir uma resposta imune estão sendo testadas, o que torna difícil a comparação entre os resultados de cada um dos esforços, mas o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), afirmou que, se tudo correr bem com os testes feitos pelo Instituto Butantan, a vacina para covid-19 pode começar a ser produzida em novembro deste ano em São Paulo. Pelo acordo com a Sinovac, 60 milhões de doses estarão disponíveis a partir de setembro, mas a distribuição só ocorrerá uma vez que a eficácia da vacina for comprovada e houver o registro.

Ceticismo

Por ter a curva de contágio da pandemia em ascensão, o Brasil é um local favorável para a  realização da terceira e última fases de ensaios clínicos, na qual voluntários de testes da vacina devem ser expostos ao vírus. Mas, apesar do otimismo de João Doria, o diretor-executivo da Organização Mundial de Saúde (OMS), Michael Ryan, pediu realismo na expectativa sobre prazos e frisou a necessidade de se manter as medidas comprovadas para conter a disseminação do vírus.

“Sendo otimista, estamos acelerando o máximo possível, mas temos de garantir segurança, tomar toda precaução para ter resultado seguro. Mas, sendo realista, será na primeira parte do próximo ano até que comecemos a ver pessoas sendo vacinadas”, previu ele durante sessão de perguntas e respostas no dia 22 de julho.

Ryan Michael, diretor-executivo de programas emergenciais da OMS | Foto: Reprodução / OMS

Além de pedir ceticismo quanto aos prazos, Ryan lembrou que as vacinas raramente são totalmente eficazes para todas as pessoas: “Teremos de ver quão eficazes as vacinas serão e por quanto tempo durará a proteção. A ideia de que teremos uma vacina em dois ou três meses e de repente esse vírus irá embora, eu adoraria dizer isso para vocês, mas não é realista.” 

Sistema imunológico

Miriam Cristina Leandro Dorta é doutora em Microbiologia e Imunologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e conduz pesquisas em vacinas no Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da Universidade Federal de Goiás (IPTSP/UFG). A cientista se diz otimista quanto a possibilidade do desenvolvimento de uma vacina contra a Covid-19.

“Já conhecíamos a estrutura de outros coronavírus (Sars-CoV) e a rápida identificação do vírus é primordial para aprendermos a criar uma vacina. O novo coronavírus (Sars-CoV-2) se tornou virulento repentinamente por mutação, mas conhecendo as proteínas em sua superfície, que são preservadas mesmo em mutações, podemos estimular uma memória imunológica”, diz Miriam Dorta. 

Miriam Dorta acredita que vacinas eficientes deverão surgir em breve | Foto: Reprodução / IPTSP/UFG

A professora explica que a imunização funciona apesar de existirem mutações porque vacinas não são totalmente específicas para um vírus – há proteínas na superfície que se mantém conservadas e que podem ser reconhecidas pelas células de memória do sistema imunológico. O termo aplicado quando o sistema imunológico defende o organismo de um patógeno porque reconhece proteínas de outro agente é “imunização cruzada”, e é nisso que Miriam Dorta aposta quando diz que acredita que eventualmente surgirão vacinas eficazes.

A cientista traça um paralelo com outras doenças “Creio que essa vacina não será 100% efetiva, mas terá o efeito parcial de proteção. É como no caso do Influenza, causador da gripe: mesmo que você contraia o vírus no futuro, terá sintomas mais fracos, não haverá agravamento da doença”.

Para entender o porquê de algumas doenças serem mais resistentes à vacinas do que outras, e o porquê de nem toda vacina poder ser desenvolvida da mesma forma, é preciso primeiro compreender como o organismo consegue detectar e atacar proteínas na superfície de agentes patogênicos.

Ao entrar em contato com um patógeno, células chamadas T e B  capturam e “estudam” a estrutura do agente invasor para elaborar a resposta imune específica contra proteínas analisadas pela célula. Proteínas (anticorpos) serão produzidos contra os patógenos e ficarão dissolvidas na corrente sanguínea, prontos para reconhecer e se ligar a proteínas conhecidas na superfície de patógenos. Caso isso aconteça, o agente invasor será neutralizado, incapacitado de invadir células do corpo humano. 

“O sistema imune analisa pedacinhos do vírus. No ano que vem, o coronavírus terá sofrido mutações em proteínas da superfície, nós teremos uma resposta contra as proteínas que já são conhecidas, mas não contra as novas. Isso pode não ser tão eficiente, mas qualquer capacidade de responder ao vírus diminuirá os sintomas. As pessoas já não morrem como morriam de influenza; com exceção dos idosos, que não tem resposta tão boa quanto os jovens e crianças de até seis meses que não produzem anticorpos, apenas os adquirem da mãe na gestação e amamentação”, diz Miriam Dorta.

Algumas destas proteínas na superfície dos vírus têm poder de estimular resposta imune maior. Esta é a razão pela qual o desenvolvimento das vacinas leva tempo. Descobrir quais proteínas devem ser focadas e quais células responderão, além de estudos minuciosos para segurança, faz com que a vacina contra a Covid-19 seja provavelmente viável apenas em 2021. 

Economia e sociologia

Acelera o desenvolvimento de vacinas o interesse econômico suscitado pelo fato de que o novo coronavírus afeta o mundo todo. “As indústrias farmacêuticas investem alto na descoberta de vacina porque é uma doença que, diferentemente do HIV ou ebola, afeta brancos ricos tanto quanto pretos pobres, em todos os países”, diz Miriam Dorta.

Ppaciente segue para o Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, referência nacional para casos de ebola | Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Enquanto grandes indústrias farmacêuticas investem alto na descoberta de vacina, por outro lado, não há um modelo experimental para estudar a vacina e laboratórios que tenham a segurança necessária para manipular esses patógenos são raros. Também atrasa a chegada da imunização o fato de que, uma vez que a imunização funcione e seja segura, ela deverá ser produzida para gerar e aplicar 7 bilhões de doses.

Doenças sem vacina

Alguns vírus são muito mais letais do que o Sars-Cov-2 e atormentam a humanidade há muito mais tempo. É o  caso do Ebola, cuja taxa de mortalidade entre infectados está acima de 90% desde 1976, mas cuja primeira vacina só foi aprovada em 2019. Os esforços para combater estas enfermidades se limitaram a medidas não-farmacológicas e os afetados passaram a conviver com as doenças em seu meio, incorporando medidas sanitárias em seus hábitos culturais.

O mesmo pode acontecer com a Covid-19, caso vacinas não se mostrem eficientes tão cedo: máscaras, distanciamento social, higienização de mãos e ambientes podem ser a única forma que temos para prevenir a doença. Conheça doenças graves para quais vacinas não foram desenvolvidas bem como a luta para se imunizar o mundo contra outras enfermidades.

Ebola

Segundo a Médicos Sem Fronteiras, organização humanitária internacional que leva cuidados de saúde às pessoas vulneráveis, a primeira vez que o vírus Ebola surgiu foi em 1976, na República Democrática do Congo, em uma região situada próximo do Rio Ebola, que dá nome à doença.

Morcegos frutívoros são considerados os hospedeiros naturais do vírus Ebola. A taxa de fatalidade do vírus varia entre 25 e 90%, dependendo da cepa. Estima-se que, até janeiro de 2013, mais de 1.800 casos de Ebola tenham sido diagnosticados e quase 1.300 mortes registradas.

Primeiramente, o vírus Ebola foi associado a um surto de 318 casos de uma doença hemorrágica no Zaire (hoje República Democrática do Congo, RDC), em 1976. Dos 318 casos, 280 pessoas morreram rapidamente. No mesmo ano, 284 pessoas no Sudão também foram infectadas com o vírus e 156 morreram.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) relata que o vírus é transmitido às pessoas de animais selvagens e se espalha na população humana através da transmissão de humano para humano. A taxa média de mortalidade de casos de EVD é de cerca de 50%, mas as taxas chegaram a variar de 25% a 90% em surtos passados.

Um bom controle de surtos depende da aplicação de um pacote de intervenções, como gerenciamento de casos, práticas de prevenção e controle de infecções, vigilância e rastreamento de contatos, um bom serviço de laboratório, enterros seguros e dignos e mobilização social.

As vacinas para proteção contra o Ebola estão em desenvolvimento e têm sido usadas para ajudar a controlar a propagação de surtos de Ebola na Guiné e na RDC. A primeira vacina contra o vírus do ebola que pode ser comercializada nos Estados Unidos – Ervebo, da empresa Merck – foi aprovada em 2019. Segundo o portal PubMed, apesar de casos de infecção da doença serem raros no país, a Food and Drug Administration (FDA), agência norte-americana de vigilância sanitária, alertou a viajantes e profissionais de saúde que se protejam antes de viajar para áreas de surto.

HIV

Segundo último relatório da Unaids, 37,9 milhões de pessoas em todo o mundo vivendo com HIV. Por ano, 1,7 milhões de novas infecções são registradas e 770.000 de pessoas morreram de doenças relacionadas à AIDS. Embora as Filipinas sejam o país onde atualmente o contágio é mais elevado, a doença castiga principalmente a África Subsaariana. 

Segundo Miriam Dorta, fatores geográficos influenciam a recompensa pelos esforços do desenvolvimentos de vacinas. Além disso, a cientista afirma que há dificuldades técnicas na pesquisa pela imunização contra a aids: “O grande desafio com o HIV é encontrar um modelo de infecção que facilite o desenvolvimento da pesquisa. A dificuldade é encontrar um antígeno que seja identificado por células T que estimule a produção de anticorpos.”

Entretanto, como cobriu o Jornal Opção, novos esforços têm tornado a cura para o HIV uma possibilidade cada dia mais real. Através de coquetel de medicamentos, pesquisadores da Unifesp conseguiram fazer pela primeira vez na história que uma pessoa infectada pelo HIV passasse a não apresentar o vírus em gânglios linfáticos. A vitória ainda não pode ser chamada de cura, pois o período de 17 meses sem a presença do vírus no corpo é relativamente curto, apesar de promissor.

Gripe Aviária

Esta variedade do vírus Influenza (H5N1) é mais frequentemente contraído pelo contato com aves doentes, embora também possa ser passado de pessoa para pessoa. Os sintomas começam em dois a oito dias e podem parecer a gripe comum. Tosse, febre, dor de garganta, dores musculares, dor de cabeça e falta de ar podem ocorrer. Entretanto, a doença tem taxa de mortalidade acima de 60% em humanos.

Pesquisa publicada no Jornal Brasileiro de Pneumologia classificou a gripe aviária como a maior ameaça do século XXI, pelo constante temor de que um surto se alastre. A doença é transmitida por vias aéreas, o que faz com que possa ser tão transmissível como o coronavírus, que conseguiu parar o mundo tendo mortalidade de apenas 1,5%. 

Segundo o estudo, a primeira epidemia de gripe aviária, conhecida popularmente como gripe do frango, que acometeu seres humanos foi registrada em Hong Kong em 1997. Na época, 18 pessoas foram hospitalizadas, com 6 óbitos. Em fevereiro de 2003, mais 2 casos de gripe aviária em humanos, com 1 óbito, foram registrados em Hong Kong, em uma família que havia viajado recentemente para a China continental.

Entre 2003 e 2007, mais de 20 países da Ásia, África e Europa registraram casos de gripe aviária em animais e aproximadamente 1,5 milhões de aves foram sacrificadas para a prevenção da disseminação do vírus. No entanto, a partir de 2003, as infecções em humanos começaram a ocorrer com maior frequência em vários países, sendo responsável por uma elevada taxa de mortalidade. Até 10 de setembro de 2008, a OMS registrou 387 casos confirmados em humanos, com 245 óbitos.

Mers

A Síndrome Respiratória do Oriente Médio (mers) integra a grande família dos coronavírus, identificada na década de 1960. Este primeiro Sars-CoV, bem como o novo coronavírus, também causava infecções respiratórias semelhantes aos resfriados comuns e à diarreia. Mas, enquanto o novo vírus “saltou” do pangolim, das cobras ou dos morcegos para os seres humanos nos mercados de peixes e caça de Wuhan, na província de Hubei, na China; a mers veio dos camelos na Arábia Saudita. 

Em 2003, pessoas foram infectadas pelo vírus em quase todos os continentes, mas o rastreamento de pacientes revelou que os infectados estiveram em viagem ao Oriente Médio ou em contato próximo com pessoas que já chegaram doentes dessa região. Como os coronavírus sofrem mutações constantes, que permite que se tornem mais transmissíveis e virulentos, houve preocupação dos serviços de saúde em evitar uma pandemia. A taxa de mortalidade da doença é de até 40%.

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