Cientistas esperam caminhada difícil em 2021

Especialistas revelam o que a ciência espera do ano que se inicia, bem como reunem lições que deveriam ser aprendidas deste turbulento 2020

Fazer vacinação em meio a uma pandemia da gravidade proporcionada pela Covid-19 | Foto: Istock

Em meio a crises e conflitos, o ano de 2020 chega ao fim trazendo ao mesmo tempo o sentimento de alívio e de incerteza sobre o que esperar de 2021. O simples virar da data não traz mudanças práticas, mas o marco pode simbolizar esperança por tempos melhores. Os cientistas, que desde o início da pandemia lutam por soluções – tanto no campo biológico quanto na disputa social do conhecimento contra a desinformação – se incluem entre aqueles que buscam aprender com o turbulento ano que passou e prever o que podemos esperar do futuro próximo. 

Em 2020, o biólogo Thiago Rangel, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), foi um dos pesquisadores responsáveis pelo modelo de projeção do aumento no número de casos de Covid-19 em Goiás, estudo que embasou decisões do poder estadual para enfrentamento da pandemia. O cientista reflete que (pelo menos) a primeira metade de 2021 se desenha pessimista.

“Já estamos vivendo uma subida muito rápida no número de casos e de óbitos por Covid-19 e a principal razão é o comportamento da sociedade. A tragédia é que sabemos o que fazer para evitar isso, mas estamos desmobilizados do ponto de vista do atendimento médico e da perspectiva de atitudes políticas. Nossa salvação – a vacina – não vai surtir efeitos populacionais para controle do número de casos no primeiro semestre de 2021, ainda que possamos começar a imunização de profissionais da saúde e de faixas etárias vulneráveis dentro do melhor prazo possível. O vírus ainda há de circular por um bom tempo no próximo ano”, afirma Thiago Rangel. 

“O vírus ainda há de circular por um bom tempo no próximo ano”, afirma Thiago Rangel | Foto: Reprodução/ UFG

A respeito das lições aprendidas em 2020, o pesquisador diz que a observação da velocidade de transmissão do vírus Sars-CoV-2 de março a maio de 2020 revelou o que deve ser feito para evitar sua propagação. Segundo Thiago Rangel, a experiência de países democráticos com governos estadistas versus a experiência de nações ditatoriais negacionistas da ciência revela claramente qual postura é aquela que mais salva vidas. “Essa é a parte trágica: vemos populações passarem por um drama maior do que deveriam, pois todos nós sabemos qual a solução. Até mesmo em matéria de economia, ao contrário do que pode parecer aos negacionistas, a melhor solução para a sociedade é adotar medidas de proteção de saúde pública mais agressivas”.

Lígia Kerr é médica com pós-doutorado nas áreas de Saúde Coletiva e Epidemiologia, além de professora na Universidade Federal do Ceará (UFC) e integrante do grupo técnico assessor que auxiliou o governo federal a elaborar o plano nacional de vacinação contra a Covid-19. Quando perguntada a respeito do que espera para 2021, a cientista afirma estar preocupada com a quantidade de notícias falsas que circulam a respeito das vacinas contra o Sars-CoV-2 e com o descrédito do Programa Nacional de Imunização (PNI) brasileiro.

“Temos que lembrar que o PNI brasileiro é um dos maiores e mais qualificados planos de vacinação do mundo. Usamos vacinas com alta tecnologia, que levaram anos para serem desenvolvidas com muita segurança. Nos últimos anos, as vacinas foram responsáveis por grande parte do aumento da expectativa de vida no Brasil e no mundo, então não temos de ter medo da imunização. Podem ocorrer reações adversas, sim, mas que essas reações são em geral muito mais leves do que a doença. Há muito mais casos graves entre as vítimas de Covid-19 do que entre as vítimas de reações adversas da vacina”, afirma Lígia Kerr.

A médica epidemiologista lembra que, de 57 vacinas estudadas por mais de 20 anos no PNI, apenas uma deixou de ser aplicada em função de seus efeitos colaterais – todas as outras mostraram ter benefícios enormemente maiores do que seus riscos. “Meu apelo é para que as pessoas atendam o chamado do dever público e se vacinem! Mesmo que nem todos sejam imunizados, espero que estejamos cercados de pessoas vacinadas e que entremos em 2021 dispostos a pensar não só em nós, mas no coletivo: quando um se vacina, ele protege não só a si mesmo, mas todas as pessoas ao redor”. 

“Espero que estejamos cercados de pessoas vacinadas e que entremos em 2021”, diz Lígia Kerr | Foto: Reprodução

Lígia Kerr destaca ainda que a mera vacinação da sociedade não levará a Covid-19 embora rapidamente. É necessário que uma proporção da população (que depende da eficiência da vacina) seja imunizada para que o Sars-Cov-2 deixe de circular. Portanto, máscaras,  isolamento social e álcool em gel ainda farão parte de nossas vidas no próximo ano. 

Nas humanidades

O psicólogo Raphael Cardoso, professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), é especialista nos temas de Mídia e Desenvolvimento Infantil e investiga o uso de tecnologia por crianças. O pesquisador acompanhou a entrada de novas tecnologias na educação durante a pandemia de Covid-19 e afirma que 2020 trouxe diversas lições que devem ser aprendidas por profissionais da Educação.

Segundo Raphael Cardoso, os problemas ocorreram pela circunstância emergencial que impôs a necessidade do ensino intermediado pela tecnologia de forma urgente, sem planejamento. “Quase todas as escolas apelaram para uma abordagem conteudista, o que revela que essas instituições não estavam trabalhando com tecnologia. Não conseguiram explorar as vantagens e contornar as limitações da tecnologia existente. A promessa de que as novas tecnologias entregariam uma educação de qualidade não foi cumprida, pois foram adotadas alternativas genéricas de comunicação à distância ao invés de serem desenvolvidas soluções específicas para a educação de crianças”.

“Em 2021, quando o ensino híbrido ainda será uma realidade, a escola terá de se adequar”, diz Raphael Cardoso | Foto: Acervo Pessoal

Entre os problemas que o especialista enumera há a negligência por parte de aplicativos de conferência quanto a segurança de dados e proteção de informações dos estudantes; os impactos da privação da interação social em crianças; o tempo excessivo de exposição a telas luminosas; e até mesmo as novas formalidades sociais, como a obrigação de que o adolescente mantenha sua câmera ligada durante aulas online, que podem configurar um sistema punitivo de controle.

Para que a educação brasileira avance em 2021, Raphael Cardoso afirma que as instituições de ensino – do fundamental ao superior – têm várias lições a aprender. “As escolas, por conta de um padrão corporativo,  apelaram pela adoção de tecnologias já existentes e investiram muito pouco na criação de plataformas próprias, o que é bem possível. A maioria apenas transfere o conteúdo das aulas para uma mídia online. Talvez isso tenha servido de forma emergencial, mas para 2021, quando o ensino híbrido ainda será uma realidade, a escola terá de se adequar”.

Em 2021 haverá oportunidades para que as escolas desenvolvam seus próprios métodos, que funcionem em suas realidades sociais, de ensino à distância. “Uma das formas de pensar isso é refletir o que diferencia uma escola da outra: seus valores, como pensa convívio, sua personalidade. Quando se usa ferramentas generalistas, essa personalidade fica obscurecida”, afirma Raphael Cardoso.

Com essa nova demanda, as redes de ensino terão de ampliar o cuidado com a saúde mental. “Nessa volta à rotina presencial, veremos muitos estudantes apresentando remissão de comportamentos  – talvez sintomas ansiosos ou depressivos. Como as escolas irão lidar com isso? Terão de ter corpo técnico preparado para acolher essas essas crianças e orientar famílias. Nesse contexto de interação social limitada, fazer com que pais e mães aprendam a abordar conteúdos e a observar o comportamento da criança é importantíssimo e saudável”, conclui o psicólogo.

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