Cientistas da UFG desenvolvem spray que neutraliza coronavírus

Pesquisadora Eliana Martins Lima usou nanotecnologia para criar molécula capaz de atrair e reagir com vírus Sars-CoV-2. Tecnologia pode se tornar plataforma para tratar outras infecções virais

Laboratórios Farmatec, na UFG, onde a pesquisa foi desenvolvida | Foto: Acervo Pessoal / Eliana Lima

Pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) desenvolveram uma partícula capaz de se ligar e “desativar” o coronavírus (Sars-CoV-2) causador da pandemia de Covid-19. Com desenvolvimento ainda em progresso, a intenção é transformar o composto em um medicamento que possa ser administrado via spray nasal ou aerossol. A expectativa dos pesquisadores é de que o funcionamento da terapia com a nanopartícula, caso se mostre eficiente e segura, possa servir como plataforma para tratamento de diversos outros tipos de infecção viral. 

O projeto está sob a orientação da professora da Faculdade de Farmácia Eliana Martins Lima, que pesquisa nanotecnologia aplicada ao desenvolvimento de medicamentos há mais de 25 anos. Ela afirma sobre a concepção da ideia: “A intenção é brigar com o vírus no seu próprio campo de batalha. Criar um exército de nanopartículas muito atraentes para o vírus e que provoque uma interação forte o suficiente para o vírus perder a capacidade de infectar o trato respiratório do indivíduo”.

Foto: Acervo Pessoal / Eliana Lima

A ambição é de que a nanopartícula esteja disponível na forma de medicamento assim que a pesquisa com duração de três anos for concluída, e assim que uma indústria farmacêutica se interesse por desenvolver o produto na fase de testes clínicos. “O que podemos conseguir é um spray nasal ou aerossol. Enquanto o spray cobre o trato respiratório superior, ou seja, as cavidades do seios da face e as narinas, o aerossol cobre até os alvéolos pulmonares onde o vírus se encontra em processo de multiplicação”.

A pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas, desenvolvida nos laboratórios FarmaTec, utilizou a nanotecnologia para obter a formulação. Isso quer dizer que a partícula foi construída em escala atômica e molecular. O tamanho dos vírus Sars-CoV-2 está na ordem de cem nanômetros. Cada nanômetro é um milhão de vezes menor que o milímetro, ou um bilhão de vezes menor que o metro.

Nesse estágio, a nanopartícula é específica para o Sars-CoV-2, mas a estratégia tecnológica da atração e reação com o vírus permite vislumbrar a mesma estratégia com moléculas diferentes. “Desenvolver engenharia de superfície para atrair um outro vírus deve ser possível, caso mais estudos sejam conduzidos”, afirma Eliana Martins Lima.

Eliana Lima afirma que colaboração da comunidade científica foi essencial para a pesquisa | Foto: Acervo Pessoal / Eliana Lima

A pesquisadora afirma que a colaboração internacional entre cientistas é fundamental para o desenvolvimento de soluções para a pandemia: “Temos informação à disposição dos pesquisadores cada vez mais rápido. Estamos diante de um evento único – toda a comunidade científica do planeta que trabalha em áreas capazes de contribuir estão colocando seus esforços em conjunto para ajudar a atenuar a pandemia em diferentes aspectos. Por conta disso, aprendemos rapidamente sobre a biologia do vírus, o mecanismo de infecção que o vírus se utiliza para invadir as células do epitélio respiratório e todo sobre o ferramental utilizado para gerar a nanopartícula”. 

Eliana Martins Lima acrescenta que gostaria de atrair uma empresa farmacêutica nacional para desenvolver os estudos clínicos do produto. “Uma indústria nacional seria importante para comprovar a capacidade de inovação e da qualidade da ciência brasileira”, afirma ela. Até lá, o trabalho da pesquisadora será otimizar a fórmula da nanopartícula para que ele tenha a maior capacidade de atração e reação com o vírus possível. A indústria farmacêutica entraria subsidiando estudos clínicos com milhares de voluntários. 

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