“Chip da beleza” pode repor qualidade de vida, mas não é para todo mundo, explicam médicos

Especialistas explicam que dispositivo é implantado para reposição hormonal; no entanto, implantação é realizada somente quando constatada necessidade do paciente

Apesar de ter apenas cerca de três centímetros, a cápsula utilizada para implantes hormonais, popularmente chamada de “chip da beleza” têm se tornado cada vez mais conhecida. Amada por uns, rejeitada por outros, ainda há divergência de opinião entre os profissionais da Medicina sobre sua recomendação. Isso, porque em diversos casos, pessoas têm procurado médicos que realizam o implante com a demanda de “melhorias estéticas”. Seu uso, no entanto, se mostra benéfico e é defendido por diversos profissionais quando o assunto é a reposição hormonal para melhorar a qualidade de vida de pacientes que, por algum motivo – seja idade ou fatores genéticos – tiveram reduzida a produção hormonal. 

O nome “chip da beleza”, inclusive, apesar de popular, é rejeitado por grande parte dos profissionais – inclusive, todos os entrevistados pelo Jornal Opção, uma vez que essa reposição hormonal, de acordo com os profissionais, deve ser realizada de acordo com a necessidade que o organismo de cada paciente, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida, em prol da saúde. Não por fins estéticos. Lanna Gomes, que é endocrinologista e metabologista, explica que esse é um termo equivocado para o material, e que a rejeição de seu uso está atrelada com a história do medicamento.

“O “chip da beleza” começou a ser utilizado por uma atleta, nos Estados Unidos. Quando ela teve melhora em sua performance, isso gerou abuso de uso e os EUA passaram a considerar o hormônio que ela usava, que era a gestrinona, como doping”, explica. No entanto, segundo Lanna, ainda que existam profissionais que indicam de forma equivocada a utilização dos implantes – assim como de diversos outros medicamentos, como remédios para emagrecer, os implantes de reposição hormonal costumam ser indicados para mulheres que possuem endometriose, que menstruam demais, que tenham miomatose uterina, síndrome pré-menstrual ou que estejam na menopausa. 

“Essa questão de melhorar a composição corporal, diminuir a gordura corporal e aumentar a libido, quando ocorre, é um bônus. Ainda que algumas pacientes me procurem unicamente com esse fim, esse não pode ser o motivo da implantação”, diz Lanna. Ela explica, inclusive, que diversas mulheres que a procuraram acabaram saindo do consultório com uma resposta diferente do que esperavam, uma vez que, através de exames, não demonstraram ter real necessidade da reposição desses hormônios. 

Ela explicou, inclusive, que é um mito dizer que todo implante hormonal emagrece e citou a gestrinona como exemplo. “Eu não indico a gestrinona para pacientes que estejam muito acima do peso, porque ela não emagrece. Isso é um mito”, declarou. Ela exemplificou isso com o caso de uma de suas pacientes, que com sobrepeso, a procurou com a intenção de implantar o “chip da beleza” para emagrecer. No entanto, a recomendação de Lanna foi a dieta balanceada em conjunto com os exercícios físicos, vista a não necessidade do implante naquele momento. Posteriormente, após perder peso, a paciente acabou realizando o implante, mas por necessidade de seu organismo. 

Roberta Roriz é outra profissional que realiza esse tipo de implantes em Goiânia, mas ela é clara ao explicar que “jamais utiliza implantes hormonais com fins de emagrecimento ou melhora de performance, somente para reposição hormonal no climatério ou menopausa”. “Sempre peço para esse tipo de paciente ir atrás de nutricionistas e educadores físicos pois sou ginecologista e não me especializei em emagrecimento, trato de mulheres na menopausa”, ressalta. 

Leila de Castro, que é empreendedora no ramo de bicicletas, foi uma das mulheres a realizarem o implante em razão da menopausa. Há sete anos na menopausa, ela conta que colocou o implante na primeira semana de dezembro. Apesar de ainda recente, Leila explica que buscou um endócrinologista da capital com a intenção de buscar uma solução às ondas de calor, também conhecidas como fogachos, que passou a sentir nesse momento. A solução sugerida pelo profissional consultado foi o implante. 

Com as expectativas altas, Leila afirma esperar que sua qualidade de vida possa retornar ao que era quando se trata dos “fogachos”. Por outro lado, Gleyce e Gláucia Gundim, que são irmãs e pacientes da Dra. Roberta, colocaram o implante esse ano, há três e um mês, respectivamente, e contam que foi uma escolha acertada quando se trata de melhorar a saúde de seus organismos. 

“O climatério e a menopausa são fases que sempre temi, sempre soube que não seria fácil. No entanto, eu que não usava anticoncepcional, por ter endometriose, comecei a desenvolver uma enxaqueca com aura. Também comecei a ficar entristecida, desanimada e isolada de todos. Sentia calores excessivos, pouca libido e minha pele começou a ficar extremamente seca”, conta Gleyce. A enxaqueca com aura, segundo ela, começou a afetar sua fala, causar adormecimento em seu dedo e pensamentos desordenados. Em meio a uma crise, ela chegou a acreditar que poderia estar em meio a um Acidente Vascular Cerebral (AVC), o que foi descartado ao passar por exames neurológicos. 

“Quando tive uma hemorragia, comecei a tomar anticoncepcional por conta da anemia. Isso desencadeou novas crises e isso me impediu de poder fazer a reposição hormonal via oral”, pontua Gleyce. Ainda que só tenha realizado o implante há três meses, ela relata ter sentido melhora significativa em todas as suas queixas anteriores, especialmente na própria disposição do corpo e no grande desânimo que sentia. “Minha qualidade de vida melhorou demais, porque eu estava muito mal. Penso muito em como mulheres de antigamente sofriam, quando esse tipo de reposição. Não sei como viviam, pois minha melhora foi grande”, explica. Do mesmo modo, Gláucia também teve detectado em seus exames uma redução significativa em seus hormônios, que foi recuperada a partir da reposição. 

Corretora de imóveis, Fabrine Mesquita também fez a implantação hormonal. Apesar de sua intenção inicial, ao procurar seu nutrólogo, ter sido o emagrecimento, ela explica que esse não foi o motivo pelo qual seu médico concordou em colocar o “chip”. “Quando fiz meus exames, meu nível de testosterona estava extremamente baixo. Como eu usava anticoncepcional há muitos anos, o que poderia me dar alguns problemas, optamos por fazer o implante”, explica. Ainda que tenha perdido peso, cerca de 11 quilos desde a implantação, ela deixa claro que o chip não foi o responsável por sua perca de gordura.

“Ele até pode ter dado um benefício a mais de ter ajudado a manter a massa magra, mas não foi o implante que me fez emagrecer. “Chip” nenhum faz milagre, eu tenho uma dieta balanceada e malho pelo menos cinco vezes por semana”, conta. Fabrine ainda revela que duas de suas amigas chegaram a procurar o mesmo médico, com a intenção de repor hormônios com propósito de emagrecimento, mas não obtiveram sucesso. “Ele não quis colocar, já que elas fizeram o exame e ele constatou que elas não precisavam de reposição hormonal”, exemplifica a corretora de imóveis. 

Mesmo que Gláucia e Gleyce tenham sentido dores semelhantes a cólicas menstruais na região pélvica, nos primeiros dez dias, Fabrine diz não ter tido dores. Como efeitos colaterais, ela percebeu aumento de acne e queda de cabelo. No entanto, segundo ela, “não chegou nem perto dos benefícios que obteve”. Gleyce, inclusive, teve melhora em seu ciclo do sono, uma vez que antes da reposição sofria com longas noites de insônia.

Apesar de profissionais que realizam esse tipo de implante explicarem que geralmente essa reposição hormonal costuma ser realizada em mulheres acima de 35 anos, que é quando a produção hormonal costuma ser reduzida, Lanna menciona o caso de uma paciente de 20 anos que irá colocar o “chip” nos próximos dias. Caso raro, a jovem já realizada reposição hormonal em gel, por nunca ter menstruado, mesmo com a idade que tem. “Ela tem um problema genético, não desenvolveu mamas e não tem a liberação de hormônios na hipófise, então entramos com a progesterona o estradiol e com um pouco de testosterona, na dosagem que a mulher pode tomar”, menciona. 

Ainda que a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) tenham desaprovado o uso dos implantes (especialmente o de gestrinona), e que o “chip da beleza” não seja aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), médicos que trabalham com a realização dos implantes se mostram criteriosos avaliação de quem pode ou não utilizá-los. 

A ginecologista Roberta Roriz, explica que antes de uma paciente colocar os implantes, ela precisa passar por um protocolo de exames de sangue e de imagem, além de consultas que duram mais de uma hora para que seja possível entender todo o histórico e a necessidade que a paciente apresenta. “A reposição hormonal é justamente repor hormônios que a mulher não possui mais. Através de doses ajustadas, o implante devolve a ela toda a qualidade de vida que ela já não mais estava tendo em razão da menopausa”, detalha a médica.

Ela ainda ressalta que não existe uma “receita de bolo” para os implantes, uma vez que cada um tem uma dosagem diferente. “A terapia hormonal é individualizada, cada paciente tem um peso, altura e queixas completamente diferente das outras. Então há necessidade de fazer exames assim obter uma dosagem individualizada para cada uma delas.Temos que ter critério para indicar e contra indicar”, complementa.

Fabrine, que faz a reposição há quase um ano, explica, inclusive, que há muito preconceito, especialmente pela falta de informação quanto ao implante. “Acham que o chip faz milagre e que não é nada demais, mas todas as doses são reguladas, porque se o hormônio for dado em altas doses, pode causar alterações no corpo, então a dose hormonal é dada de acordo com a demanda do próprio organismo”, pontua. 

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