Césio sitiou Goiás

Secretário de Saúde na época do acidente radioativo, Antônio Faleiros, relembra fatos do drama que estigmatizou Goiânia aos olhos do restante do Brasil

A grande parte dos gastos era da Secretária de Saúde, só o transporte dos rejeitos que não. O custo da plataforma provisória, com 50 cm de altura, fizemos o cálculo, daria para construir cerca de 300 salas de aula. O governador Santillo não mediu esforços e fez a plataforma. Ele sabia que se fizesse alguma coisa mal-feita poderia ter um vazamento.” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Yago Sales

Antônio Faleiros, secretário de Saúde no Governo Henrique Santillo em 1987, ano em que Goiânia foi palco do maior acidente radioativo em ambiente urbano do mundo, conta ao Jornal Opção, 30 anos depois, os bastidores da batalha travada contra um inimigo primeiramente apaixonante pelo brilho azul, depois invisível. Inimigo que causou pânico pela desinformação, segregação e achincalhamento. Ele teve de, enquanto o olhar do mundo recaía sobre Goiás, ter otimismo. E não foi fácil ter otimismo em meio ao caos que lhe renderia críticas ácidas, como a de que estava tentando esconder a verdade. Faleiros, mais que secretário, era o braço direito do governador Henrique Santillo.

Antônio Faleiros Filho recebeu o Jornal Opção no seu modesto apartamento no Setor Bueno, na segunda-feira, 4. Antes de o gravador ser ligado, o repórter repara o pequeno escritório, com livros em uma prateleira e uma fotografia do ex-secretário. Ele, um dos principais personagens do maior acidente radiológico do mundo, também é um sobrevivente. Não é afirmativo, mas sugere que também poderia ser um radioacidentado. Meses depois daquele setembro, passou a apresentar sinais de hipertensão e hipotireoidismo. Mas foge do assunto. Quer contar os bastidores do embate que travou e no qual não pôde esmorecer.

Eleito em 1986 deputado estadual, Faleiros foi convidado por Henrique Santillo para compor a equipe de governo. “Fui um dos coordenadores de campanha da eleição de 1986 e, quando Santilo escolheu o secretariado, me convidou.”

Empossado no dia 15 de março de 1987, não imaginava que muito além de cuidar da Saúde dos goianienses, teria de cuidar da “sarar” do Estado de Goiás. Não poderia deixar que, como ele gosta de ressaltar, a desinformação perpetrada pelo sensacionalismo da imprensa, afundasse seu Estado.

Naquele ano de 1987, o primeiro grande feito em sua gestão: “Dia 13 de junho, nós criamos o Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde (SUDS), que foi o precursor do Sistema Único de Saúde (SUS). Havia assumido tanto a secretaria de saúde quanto a Organização de Saúde do Estado de Goiás (Osego), e a superintendência do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps). Isso foi muito importante meses depois para que houvesse estrutura para encaminhar os pacientes do césio ao Inamps, que hoje é o Hospital de Urgência de Goiânia (HGG), que era órgão federal.”

Faleiros lembra que soube do acidente no dia 29 de setembro. Ele estava em São Paulo e um assessor ligou informando que uma família toda estava passando mal porque havia tomado um refrigerante estragado. “Eu nunca tinha ouvido falar de um refrigerante fazer tão mal assim. Depois soube que as pessoas desta mesma família estavam vendo luzes de noite.” Quando voltou, recebeu a visita de um físico, que o alertou de que poderia ser um acidente radioativo. “Eu comuniquei ao governador Henrique Santillo.” O governador, por sua vez, médico e que havia sido professor de física, ficou em alerta.

“Liguei para o físico nuclear José Júlio Rosental, da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e para o Instituto Goiano de Radioterapia, que me indicou o Flamarion Barbosa Goulart, o único que tinha um contador Geiger. Naquele dia tinha marcado na agenda uma entrevista com a jornalista Mírian Tomé, da TV Anhanguera, para falarmos de febre amarela. Eu a chamei para me acompanhar. Eu, policiais e Flamarion, estávamos vendo a situação e a Mírian estava entrevistando o Devair [dono do ferro-velho na rua 57], todo contaminado. E tivemos de chamá-la porque ela corria risco”, lembra o ex-secretário.

Mesmo sob o constante risco de contaminação, Santilo percorreu Goiânia, vendo ele mesmo os pontos contaminados, por onde passou a cápsula e fragmentos da substância radioativa. “Dos dez pontos contaminados, oito a nossa equipe detectou, com apenas um aparelho Geiger.”. Quando visitava a casa da família de Dona Lourdes e Ivo Ferreira, Faleiros viu a menina Leide das Neves brincando na rua de terra. “Quando o Flamarion apontou o aparelho Geiger, a menina apresentava altos níveis de contaminação. Lá na 57 havia uma moça grávida. As pessoas sem escolaridade, sem conhecimento, sem informação, não sabiam o que estava acontecendo. Não sabiam o perigo.”

Diante do apego daquelas pessoas ao pouco que haviam conquistado, à casa, aos animais domésticos, carros, Faleiros conta que uma das maiores dificuldades que enfrentou foi tentar convencê-los a deixar tudo e ir para um abrigo. “Eu mesmo falava para as pessoas que tinham que sair imediatamente de suas casas e muitas delas queriam voltar para buscar as coisas. Mas não podia, normalmente até a roupa estava contaminada. A gente não levava na marra, mas tinha uma conversa firme”, lembra ele, que foi a pé com muitas vítimas para o Ginásio Rio Vermelho, a uns dois quilômetros da rua 57, onde famílias ficavam em barracas, para o doloroso processo de descontaminação.

“Aqueles que apresentavam sintomas graves de contaminação levamos ao HDT [Hospital de Doenças Tropicais] e, depois, os encaminhamos para o Inamps, hoje HGG”. Logo depois, quatro delas foram levadas para o Hospital Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. Para combater este inimigo, teriam de contar com a ajuda de quem conhecia, e muito bem, de radioatividade. “O Júlio Rosen­tal [da CNEN] veio. Conse­guimos um QG para eles em um hotel de Goiânia”, lembra.

A partir da chegada de Júlio Rosental, Faleiros ganharia um aliado para desacelerar o pânico que se instalara por todo o país. A comunicação estava comprometida. O noticiário alarmista e equivocado de jornais, revistas, emissoras de TV e rádio, transformavam Goiânia em uma cidade inabitada, destruída, sem chance alguma de se reerguer.

“Fui designado pelo governo para, além de coordenar todo o processo de descontaminação e tratamento das vítimas, mas também ser um interlocutor, para dar entrevistas com explicações. Eu, além de técnico, por se médico, mas também político, tinha de conseguir contornar a crise”, conta. Ele não escondia a preocupação com o que o técnico falava. “A gente não passava informação que alardeasse”, lembra.

Um exemplo: “Todos os pontos de contaminação eram de terra batida, em compensação, eram cercados de placas de concreto. As pessoas queriam saber se era possível, quando chovesse, a enxurrada levar a contaminação ao córrego e contaminar o lençol freático. Se você perguntar para um técnico, ele diria que seria possível, mas a gente falava que não. Os terrenos das casas eram cercados de placa de cimento. Não vazava o césio para além das placas, a terra absorvia”. Não por acaso, estratégias assim eram adotadas por ele e pelo governador, porque muitas vezes informações eram distorcidas e causavam enorme tumulto nos gabinetes com repórteres eufóricos.

“Tivemos credibilidade à época, apesar do exagero de boa parte da imprensa nacional. Conseguimos segurar a maior parte da comoção. Às vezes havia picos de exacerbação, principalmente quando surgiam comentários na televisão”, conta. Faleiros diz que a imprensa goiana foi muito responsável, sabendo respeitar o momento, passando apenas informações verdadeiras. O mesmo não ocorreu com a imprensa de fora. “Lembro-me que a apresentadora Hebe Camargo falou grandes absurdos em um programa com a participação dos jornalistas Rachel Azeredo e Weber Borges. No programa seguinte, chamaram o governador Santillo para ir a Brasília fazer um link ao vivo para, segundo passaram para gente, a Hebe se retratar. Mas foi muito pior. Santillo arrancou o microfone da roupa e deixou a Hebe ao vivo falando sozinha.”

Depois do programa, Rachel e Weber foram demitidos da TV Goiá. Atribuíram a demissão dos profissionais ao governo goiano. Faleiros assume que fez duras críticas à imprensa, sobretudo à Hebe Camargo, mas nega ingerência do governo para demitir jornalistas. Weber nunca mais voltou, mas Rachel continuaria apresentando o programa Goiânia Urgente depois da intervenção da chefe de reportagem da emissora, a jornalista Malu Longo.

Pessoas na fila para medição de radiação após o acidente radioativo

Antônio Faleiros, Secretário de Saúde no Governo Henrique Santillo em 1987, ano em que Goiânia foi palco do maior acidente radioativo em ambiente urbano do mundo, conta ao Jornal Opção, 30 anos depois, os bastidores da batalha travada contra um inimigo primeiramente apaixonante pelo brilho azul, depois invisível. Inimigo que causou pânico pela desinformação, segregação e achincalhamento. Ele teve de, enquanto o olhar do mundo recaía sobre Goiás, ter otimismo. Otimismo em meio à caos lhe renderia críticas ácidas, como a de tentar esconder a verdade. Faleiros, mais que secretário, era o braço direito do general, o governador Henrique Santillo.

“Santillo era muito incisivo. Sem isso, a situação seria muito pior. Por exemplo, era preciso tirar o rejeito radioativo. Falaram em levar para Serra do Cachimbo, no pará, mas o governador de lá caiu em cima da gente, dizendo que não aceitava de jeito nenhum. Um técnico da CNEN, numa posição desesperada, chegou a dizer para nós colocarmos uma lona no chão e os rejeitos em cima. Santillo tinha uma noção de física e não aceitou. Mandou fazer uma estrutura provisória e nunca teve nenhum vazamento. Depois construiu um depósito definitivo. Se tivesse colocado a lona preta — que seria mais barato, inclusive — haveria contaminação do solo, muito maior ainda. Escolhemos o depósito em Abadia e as especulações eram enormes. As pessoas falavam que o netinho dele e o meu filho, que eram bebês e tinham a mesma idade, tinham ido morar longe de Goiânia com a nossa família. Foi preciso a gente se mudar para Abadia para mostrar que não tinha perigo. Ele com o neto dele, eu com meu filho. A imprensa mostrando talvez as pessoas ficassem mais tranquilas. A gente ia para lá aos finais de semana durante o dia.”

“O preconceito era o grande desafio. Nas notícias, os jornalistas falavam que o acidente aconteceu no Setor Aeroporto. Ninguém queria descer no Santa Genoveva. Quanto tinha voo com escala em Goiânia, ninguém queria vir. Eu estava em um hotel de Brasília e passei mal. Tive um cólica renal. Pedi a um médico que estava lá para me indicar um hospital. Ele chamou um taxista e me apresentou: olha, este aqui é o Secretário de Saúde de Goiás, leva ele ao hospital para mim. O taxista olhou para a minha cara e não quis me levar. Fui em outro taxista que estava lá atrás, nem sabia quem eu era e me levou ao médico.”

“Quando os rejeitos foram levados para Abadia, as coisas foram melhorando. Eu estava em uma entrevista no programa Roda Vida, em São Paulo, e o Bordoni, da TV Brasil Central, mostrava, ao vivo, a retirada da cápsula da sede da Vigilância Sanitária. Foi importante, um alívio.”

“Só Depois de muita pressão que o presidente José Sarney, mesmo sendo do mesmo partido do governador, veio a Goiânia. Eu participei da comitiva que visitou os hospitais. Fomos na Rua 57 e depois visitamos os radioacidentados no Hospital Geral de Goiânia. Claro que foi uma visita protocolar, para mostrar que a situação estava controlada. A ideia era que o presidente Sarney ajudasse a tirar aquele estigma. Mas Ele não ajudou em nada, apenas com a CNEN, que era Federal, e o presidente da entidade, Rex Nazaré, veio a Goiânia para comandar pessoalmente os trabalhos. Foi a única ajuda do Sarney”

“O maior drama era identificar os pontos de contaminação. Tinha de provar para eles que estava tudo contaminado e precisavam sair dali. Outro drama foi a incompreensão de pessoas que não queriam que os rejeitos ficassem próximos à residência. Era terrível demais, principalmente para nós como Governo.”

 

 

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Adnair

Lembro com fosse hoje,eu morava no mesmo setor Norte ferroviário,Mas graças a Deus não fomos atingidos.