Cenário político brasileiro é campo fértil para populismo de Bolsonaro e PT

Para Vilmar Rocha (PSD), situação em que a população não vê solução e se sente insegura é a mais propícia para surgimento de líder carismático

Para Vilmar Rocha (PSD), a radicalização política é um perigo no segundo turno das eleições presidenciais

O segundo turno da eleição presidencial se consolidou com duas candidaturas populistas. “O campo mais fértil para prosperar o populismo é quando a população se sente insegura, com medo, raivosa e não vê soluções na política tradicional”, explica o ex-deputado federal Vilmar Rocha, que é presidente estadual do PSD e professor aposentado de Direito Consti­tucional da Universidade Federal de Goiás (UFG). A disputa entre o deputado federal Jair Bolso­naro (PSL) e o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT), o candidato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do PT, reforça a análise de Vilmar de que a população identificou nos dois candidatos o apelo para um líder que salve o País com propostas simplistas.

“Claramente os dois principais líderes de votos no primeiro turno para presidente têm um forte componente populista.” Para entendermos melhor o motivo pelo qual o ex-professor de Direito Constitucional classifica as campanhas de Bolsonaro e Haddad, pedimos para Vilmar Rocha, autor do livro “O Fascínio do Neopopulismo” (Topbooks, 2007), explicar o que vem a ser o populismo. “O populismo mente na medida em que propõe soluções fáceis para problemas complexos. Sabemos que não se resolvem problemas estruturais complexos com uma canetada ou uma paulada”, descreve.

De acordo com Vilmar, tanto o candidato do PSL quanto a candidatura do PT, que para o presidente estadual do PSD se trata da representação do que seria o nome de Lula na disputa, trabalham a exaltação do líder carismático, uma das características que define a estratégia populista. “O populista não usa e abusa da palavra, mas se apropria dela. O populismo fabrica a verdade”, observa. O uso arbitrário dos recursos públicos e a divisão direta da riqueza por meio de programas assistencialistas personificados na figura do político são táticas usadas pelo populismo. “O populista alimenta o ódio de classes, sejam elas quais forem, e mobiliza permanentemente os grupos sociais ou os mantém sob controle.”

Outro sinal que identifica o populismo é o fato de instigar sistematicamente o inimigo. Enquanto Bolsonaro trabalha o discurso de que o PT é o grande inimigo da nação, a candidatura de Haddad tenta mostrar os riscos que o Brasil corre se eleger seu adversário presidente. “O populista despreza a ordem legal, o Estado democrático de direito e a Constituição. O populista mina, domina e, em último recurso, domestica ou cancela as instituições democráticas”, afirma Vilmar.

Como o populismo é uma estratégia para chegar ou se manter no poder, o ex-professor de Direito Constitucional lembra que temos exemplos de políticos populistas de direita, como Jânio Quadros, Fernando Collor e Bolsonaro, mas também de esquerda: Lula no Brasil e Hugo Chávez na Venezuela. “O populismo voltou com muita força nestas eleições. E as redes sociais agilizam e potencializam o discurso populista.” A falta de moderação, com uma comunicação que acontece de forma intensa e desprovida de crítica em que todo mundo se conecta pela internet, intensificou o alcance do populismo na disputa eleitoral.

E foi justamente o avanço da comunicação sem qualquer tipo de moderação nas redes sociais e aplicativos de troca de mensagens e arquivos que fez com que candidatos que apostaram no tempo de TV e rádio durante a propaganda eleitoral não obtivessem resultado eleitoral, como aconteceu com Geraldo Alckmin (PSDB), ex-governador de São Paulo. “A ideia de ter um tempo grande de televisão foi um erro de estratégia. Isso era importante quando não havia as redes sociais, que reduziram a importância de se ter muito tempo na TV”, avalia.

Outro espaço de busca de informação que perdeu importância de influência no processo eleitoral são os meios tradicionais de comunicação, além da televisão, como rádios, jornais e revistas. “A relevância migrou para as redes sociais, que cresceram seu poder de influenciar o processo eleitoral.”

Radicalização

Vilmar destaca que no primeiro turno tivemos a eleição do não. “O recado das urnas foi claro de que houve um não ao establishment, à situação política que está no poder. A população votou contra a atual situação política.” Para o presidente do PSD, a influência das igrejas é um dos fatores que contribuiu para que tivéssemos uma guinada conservadora no resultado das eleições. “Cresceu o apoio a candidatos que apresentaram pautas conservadoras ligadas aos costumes, contra o aborto e o casamento homoafetivo, por exemplo.”

Ao mesmo tempo, o resultado do primeiro turno deixou um alerta: “É preciso tomar cuidado para que a polarização política não se radicalize e que haja um equilíbrio”. De acordo com o ex-professor da UFG, a radicalização “é muito perigosa”. “Já há sinais na internet e na mídia de certa radicalização, com uma espécie de violência contra gays, o que é muito perigoso e pode levar a um ponto de confronto e gerar um ambiente de violência”, alerta Vilmar. A preocupação é que a divisão se torne uma onda, como um efeito de manada, onde não exista a reflexão crítica sobre os candidatos e suas propostas. “Com a eleição do novo presidente, quando este der o tom de renovação e mudança, espero que a radicalização diminua.”

Para o presidente do PSD, ainda não é possível dizer se Bolsonaro é um político fascista. “O candidato teve longa atuação parlamentar dentro das regras institucionais sendo eleito pela população. Não houve até o momento nenhuma tentativa de quebrar a ordem legal.” De acordo com Vilmar, a força da democracia brasileira dificulta que um líder político consiga quebrar as regras do jogo hoje. “A pesquisa Datafolha mostrou que 69% da população é a favor da democracia. Você pode ter um discurso mais forte em determinados momentos, mas a ação deve se dar dentro do permitido pela Constituição.”

Vilmar reconhece que existe um “tom de exagero” nas campanhas e nos discursos eleitorais, mas é preciso aguardar o exercício do poder do candidato a presidente que for eleito para saber como será sua atuação. O ex-deputado descarta a possibilidade de haver um “autogolpe”, como declarou o candidato a vice-presidente de Bolsonaro, o general da reserva Hamilton Mourão (PRTB). “A democracia no Brasil está madura, conta com apoio popular. Isso é apenas declaração de campanha, não tem a menor possibilidade”, declara.

No segundo turno, Vilmar diz que Haddad e Bolsonaro farão sinalizações para a opinião pública de que atuarão de acordo com as regras da democracia e da Constituição. “Vão propor reformas e mudanças, mas dentro do Estado de direito.” Para o ex-professor da UFG, não há espaço para rupturas institucionais.

Ausência nos debates

Não ir aos debates, na opinião de Vilmar, ajudou Bolsonaro a não se expor, mas não foi determinante no resultado do primeiro turno. “O candidato do PSL não se submeteu ao crivo dos debates, não se desgastou. Mesmo se ele tivesse continuado em campanha, o resultado seria parecido com o que aconteceu. Talvez tivesse um pouco menos de votos, mas estaria no segundo turno com chance de vitória. A eleição está muito polarizada. De agora em diante, Bolsonaro só precisa de não errar.”

A avaliação do presidente estadual do PSD é de que o partido se saiu bem nas eleições, com a quarta maior bancada da Câmara dos Deputados, que contará com 34 cadeiras a partir de fevereiro de 2019, maior do que as do MDB e PSDB. No Senado, a sigla terá cinco senadores. “O PSD se saiu bem na eleição estadual. Elegemos o quarto deputado federal mais votado – Francisco Jr. – e dois estaduais – Lucas Calil e Wilde Cambão. O partido manteve a sua posição mesmo com este vendaval todo, com essa avalanche. Nos mantivemos como um partido médio.”

Vilmar diz que ainda não é o momento de comentar a operação Cash Delivery, do Ministério Público Federal (MPF), e que tem como o principal investigado o ex-governador Marconi Perillo (PSDB). “Vamos esperar um pouco. As coisas estão acontecendo. As emoções estão muito afloradas. É preciso ter um tempo de distanciamento para fazer uma análise mais racional.”
Sobre a eleição do senador Ronaldo Caiado (DEM) para governador no primeiro turno, o pessedista afirma que o democrata encarnou o espírito de mudança. “Caiado tem qualidades e defeitos como todos nós. As pessoas não escolheram Caia­do pelas qualidades. Escolheram porque o povo queria mudança. Ele simbolizou a vontade de mudança no poder em Goiás. Se vai ser essa mudança ou não só o tempo dirá.”

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