Caso Polyanna Borges: 11 anos depois, só um dos quatro condenados está preso

Polyanna Borges foi violentada e morta com oito tiros no ano de 2009, em Goiânia, e 11 anos depois, três dos condenados no caso já tiveram progressão de regime. Tânia Borges, mãe da vítima, conta como seguiu a vida

Polyanna Borges, violentada e morta aos 26 anos | Foto: Álbum de família

O caso Polyanna Borges é considerado um dos mais polêmicos e complexos da história de crimes de Goiânia. O nome da publicitária de 26 anos estampou manchetes de jornais do país inteiro no final da década passada e é visto, até hoje, com assombro pelas circunstâncias em que ocorreu.

Mais de uma década mais tarde, o Jornal Opção, veículo que fez ampla cobertura do caso desde a ocorrência do crime até a condenação dos envolvidos (alguns migraram recentemente para o semiaberto), relembra a história e conversa com a mãe de Polyanna, a escritora e fisiologista do exercício Tânia Borges.

Hoje com 65 anos, Tânia falou sobre as sequelas deixadas pela morte da filha e detalhes da luta pela justiça tanto para Polyanna quanto para todas as outras mulheres vítimas do que ela chama de ‘um sistema que as oprime e as mata’.

Polyanna Borges, 11 anos depois.

O crime

Era manhã de quarta-feira, dia 23 de setembro de 2009, quando a publicitária Polyanna Arruda Borges Leopoldino, de 26 anos, saiu de sua casa, localizada na Rua T-30 no Setor Bueno, em Goiânia, para ir até o campus da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás) do Jardim Goiás. Lá, ela ministraria uma palestra na Semana da Comunicação. No entanto, Polyanna não chegou a entrar na instituição. Naquela manhã, por volta das 7h30, a publicitária foi rendida por quatro homens armados que tinham como intenção roubar seu carro.

O roubo havia sido encomendado por Diango Gomes Ferreira em atendimento a um pedido de Leandro Garcêz Carvalho, proprietário, à época, da Batidos.com. Assad Haidar de Castro, Deberson Ferreira Leandro, Lavonierri da Silva Neiva e Marcelo Barros Carvalho tinham a missão de roubar um Chevrolet modelo Prisma Maxx preto. Após a subtração, o chassi e demais sinais identificadores do veículo seriam adulterados para a clonagem. O modelo era justamente o conduzido por Polyanna.

Polyanna foi abordada a caminho de uma palestra na PUC Goiás | Foto: Reprodução

Contudo, ao invés de anunciarem o assalto e levarem o carro, o grupo, que passou a noite anterior cheirando cocaína, conforme confissão posterior de um deles, mandou Polyanna ir para o banco de trás e levou o carro junto com a proprietária para as margens do Córrego Caveirinha, no Residencial Humaitá, Região Norte da capital. No local, Polyanna, que havia saído de casa numa quarta-feira de manhã para dar palestra numa universidade, foi violentada e morta com oito tiros.

Devido ao rumo caótico que o assalto tomou, os quatro homens decidiram se desfazer das provas do crime e atearam fogo no carro de Polyanna na Rua Xavante, no Residencial Caraíbas. O veículo foi encontrado parcialmente queimado por volta de 10h do mesmo dia do crime. Dentro dele, a polícia achou o celular, a bolsa e o notebook de Polyanna. Inicialmente, chegou-se a cogitar a possibilidade de um sequestro.

Entretanto, dois dias depois, no dia 25 de setembro, o corpo da publicitária foi encontrado em um matagal nas margens do Córrego Caveirinha. Ela estava sem roupa e com a marca dos oito tiros.

Solução, prisão e condenação

O caso Polyanna levou mais de 2 anos do início das investigações até a condenação dos envolvidos. Nesse meio tempo, reviravoltas não faltaram. No dia 20 de dezembro de 2011, a Polícia Civil de Goiás anunciou que havia concluído o inquérito referente ao assassinato da publicitária. Na época, quatro dos seis envolvidos foram presos. Os outros dois encontraram desfechos diferentes.

A polícia havia conseguido capturar Diango, Leandro, Assad e Marcelo. Deberson e Lavonierri, que participaram ativamente da morte de Polyanna, foram alvos de mortes, no mínimo, intrigantes. Na noite de 2 de dezembro de 2009, mesmo ano do crime, Lavonierri foi morto após uma suposta troca de tiros com policiais militares. Ele dirigia um veículo Prisma roubado. À época, a suspeita da polícia era que ele estava no carro com Deberson, que o teria entregado aos policiais militares.

Já Deberson foi assassinado no dia 17 de fevereiro do ano seguinte, 2010. Na ocasião, a Polícia Civil informou a suspeita de que Deberson havia caído numa emboscada, pelas circunstâncias em que foi morto. Ele foi alvejado pelas costas quando atendia a uma ligação de um telefone público na esquina da Rua Barão de Mauá com a Couto Magalhães, na Cidade Jardim, em Goiânia.

Assassinos de Polyanna Borges sendo apresentados pela polícia | Foto: Reprodução

Ainda de acordo com a Polícia Civil, Deberson era informante das polícias Civil e Militar, tendo livre trânsito nos batalhões da PM e em delegacias especializadas.

Além de Deberson e Lavonierri, Luciano Assis, o indivíduo que guardava o Clio usado na abordagem e morte de Polyanna, foi morto no dia 23 de novembro de 2009. Luciano teria saído com o veículo para o enterro do avô, o que teria gerado a insatisfação dos outros criminosos. Luciano foi morto a tiros por dois homens no Conjunto Vera Cruz.

No dia 11 de outubro de 2012, os que continuaram vivos foram julgados e condenados, recebendo penas que ultrapassam 115 anos. A condenação, na época, partiu do juiz Wilton Müller Salomão, da 8ª Vara Criminal de Goiânia. Assad Haidar, o homem que disparou os tiros que mataram Polyanna, e Marcelos Barros  foram condenados por latrocínio (roubo seguido de morte), ocultação de cadáver, estupro e formação de quadrilha. Assad pegou 45 anos de prisão e Marcelo, 25 anos e 8 meses.

O homem que encomendou o roubo do carro de Polyanna, Diango Gomes, foi condenado por roubo qualificado e formação de quadrilha. Ele pegou 23 anos e 2 meses de prisão. Por último, Leandro Garcêz, que fez o pedido do carro, foi condenado pelos mesmos crimes e pegou pena de 21 anos e 4 meses de prisão.

Marcelo Barros, durante interrogatório | Foto: Polícia Civil

À época, o juiz Wilton Müller determinou cumprimento de pena em regime fechado, no entanto, hoje, mais de 8 anos após a condenação, apenas um, Assad Haidar, está em regime fechado.

O Jornal Opção apurou que Marcelo e Diango cumprem pena no regime semiaberto, enquanto Leandro já está no regime aberto. Diango teve alteração de regime no dia 14 de março de 2019, e foi submetido à monitoração eletrônica. Já Marcelo está no semiaberto desde o dia 12 de junho de 2020. Leandro foi o último a ter progressão de regime: ele está no aberto desde 30 de novembro deste ano.

Uma mãe contra a cultura do machismo

Aos 65 anos, Tânia Borges se dedica, hoje, à academia que possui junto com o marido. Uma de suas formações, fisiologia do exercício, a mantém ocupada diariamente com atividades que vão desde aula de pilates até a administração do estabelecimento. No entanto, Tânia, que também é formada em Letras, não deixa de separar tempo para a redação de um ensaio que será publicado numa coletânea no dia 8 de março de 2021, Dia Internacional da Mulher.

A data não poderia ser melhor. No ensaio, Tânia adianta que discorrerá sobre os pilares sobre os quais foi construída a civilização brasileira: o machismo e a violência contra a mulher. “Não é só uma homenagem para a Polyanna, minha filha, mas para todas as Polyannas violentadas e mortas”, diz.

A se levar em conta os dados, Tânia põe o dedo numa ferida aberta. Para se ter uma noção da atual situação da mulher, de acordo com os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, no primeiro semestre de 2020, os homicídios dolosos contra mulheres aumentaram de 1.834 para 1.861 casos, acréscimo de 1,5%.

Tânia Borges, mãe de Polyanna | Foto: Reprodução

Os números do crime de estupro são ainda mais desanimadores. Os dados do anuário de 2015 mostraram que a cada 11 minutos, uma mulher era estuprada no Brasil. Já a edição deste ano mostra que uma mulher foi violentada a cada 8 minutos em 2019, o que totalizou 66.123 registros de estupro.

Para Tânia, a morte da filha é fruto não só da maldade de seus assassinos, mas do machismo, da imposição da vontade do homem sobre a mulher. “Minha filha não disse ‘não’ para o assalto. Ela disse ‘não’ para a violência sexual”, diz, em referência ao laudo do Instituto Médico Legal (IML) da época, que não constatou DNA dos acusados na vítima.

Segundo a mãe de Polyanna, na ocasião da prisão dos assassinos de sua filha, ela ouviu de uma testemunha o relato de uma conversa que Assad teria tido dentro da cela com outro detento. “O cara perguntou pra ele: se você queria o carro, por que você matou a moça? Ele respondeu ‘porque ela não me quis’. Ele disse isso”, revela.

No entanto, Tânia conta que não julga a decisão de filha de resistir e lutar até o último segundo contra seus algozes para não ser violentada. Ao Jornal Opção, a mulher destaca a ligação forte que tinha com a filha, ligação essa que assustou até mesmo os homens que tiraram sua vida. “Numa confissão, um deles disse que enquanto eles tentavam estuprá-la, ela gritava ‘Mãe, me ajuda!’ Significa que sempre fui presente na vida da Polyanaa, porque na hora do desespero foi eu que ela chamou”.

Durante investigações sobre a morte de Polyanna, Tânia relata que passou a viver na companhia de delegados e dentro do Ministério Público. Eram reuniões com governadores (Tânia chegou a se encontrar com o então governador Alcides Rodrigues, em busca de soluções para o caso da filha), autoridades da Polícia Civil, Ministério Público, idas em jornais e manifestações. Uma luta que só terminou em outubro de 2012, com a condenação dos assassinos.

11 anos depois

Desde a morte da filha, Tânia faz análise. Foi uma maneira de, segundo ela, não aderir a calmantes e medicamentos para conseguir dormir. Mas o tabu do nome da filha ainda é vivo. “Nós temos muita dificuldade de falar o nome da Polyanna dentro de casa. Até hoje, pra nós, é muito difícil”, conta.

Questionada pelo repórter sobre a alteração no regime de prisão dos condenados, Tânia responde: “Não sabia disso. Estou sabendo agora, por você”. Segundo ela, deixar de acompanhar tudo o que se referia aos assassinos de Polyanna fez parte de seu processo de cura.

“Pra mim eles já morreram. Dentro ou fora da cadeia, não interessa. Eu acredito muito mais no que está na minha memória no que de fato existe. Eu digo que, pra mim, eles já morreram porque eles não têm lugar na minha vida. Não representam absolutamente nada pra mim. Podem até vir à minha mente, mas eles não interferem no meu caminhar, na minha vida”, diz.

Polyanna Borges em seu casamento, em 2009 | Foto: Álbum de família

Segundo Tânia, os quatro homens, naquela manhã de outubro de 2009, tiraram dela a coisa mais preciosa que existe para uma mãe: seu filho. A publicitária havia se casado há poucos meses quando foi morta. Segundo a mãe, estava feliz e realizada. No entanto, ela deixa claro que as memórias que cultivou com a filha até o dia em que ela morreu, permanecerão.

“Eu não escuto mais a voz dela, eu não leio mais as suas poesias. Eu fiquei com o que ela foi até os 26 anos, mas eu continuo tendo três filhos. A Polyanna não morreu. Ela está viva dentro de mim, e esse foi o único caminho que eu encontrei de continuar viva. Com toda essa história, vigiando se eles [os assassinos] estão presos ou se não estão, eu preferia morrer. Então eu fiz uma opção, eu fiquei com a Polyanna viva comigo. A minha filha está comigo”, conclui.

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