A casa da Dona Dalva mostra: arquitetura não é luxo, mas questão de dignidade

Um projeto em que uma senhora de mais de 70 anos pôde usar, da melhor forma, a economia de uma vida inteira — e obteve alta qualidade de vida com uma casa na periferia

A casa da Dona Dalva e o contraste com habitações típicas da periferia | Foto: Pedro Kok/Terra e Tuma Arquitetos

A casa da Dona Dalva e o contraste com habitações típicas da periferia  | Foto: Pedro Kok/Terra e Tuma Arquitetos

Elder Dias

Está longe de ser cena incomum em bairro periférico: é uma casa não só modesta, mas antiga, e também em ruínas. Rachaduras, mofo, problemas de estrutura, colapso hidráulico, elétrico e sanitário. Resta pouco de lar, sobra muito em risco de vida. Mas nada que impedisse os céus de avisar, de um modo especial e na hora certa, àquela que lá morava já havia três décadas: de que adianta guardar esse dinheiro e viver assim? Era hora de mudar. De casa e de qualidade de vida.

Naquele dia, após chegar do trabalho, a diarista Dalvina Borges Ramos, já septuagenária, tinha acabado de sair do quarto para tomar banho. Foi quando ouviu o estrondo: era o teto caindo sobre sua cama. “Foi Nossa Senhora Aparecida que me ‘tocou’ para o banheiro”, lembra, sorrindo, no vídeo já com dezenas de milhares de visualizações no canal YouTube.

Menos misticamente, quem se ‘tocou’ em seguida foi ela mesma: aquilo deixara de ser uma habitação para se aproximar perigosamente de se tornar um túmulo. Precisava de um novo lugar para morar. “Conforme ela conta, aquilo foi uma cena de novela. O filho então viu o que tinha acontecido e nos falou ‘olha, vamos começar essa obra já”, relata o arquiteto Pedro Tuma.

A antiga casa da Dona Dalva: estrutura prestes a ruir foi demolida para dar lugar a um “palácio”, na visão da diarista | Fotos: Fotos: Pedro Kok/Terra e Tuma Arquitetos

A antiga casa da Dona Dalva: estrutura prestes a ruir foi demolida para dar lugar a um “palácio”, na visão da diarista | Fotos: Pedro Kok/Terra e Tuma Arquitetos

Capital para isso Dalvina tinha: durante 30 anos de seu trabalho duro como diarista, tinha economizado nada menos do que R$ 100 mil. Mais do que uma poupança, aquilo era uma façanha, uma anomalia no meio suburbano. Poderia tentar comprar um apartamento, mas… e o pertencimento ao lugar onde vivia? E sua vizinhança? Aquela economia exótica, decidia, agora lhe serviria para fazer uma nova casa. E o teto despencando era o sinal definitivo de que as obras deveriam começar logo. O filho dela — que aportou mais R$ 50 mil de sua parte aos R$ 100 mil iniciais, para ter, em contrapartida, a construção extra de um cômodo para ele e a mulher — apressou o trabalho com o escritório de arquitetura que já havia contatado tempos atrás, por indicação de alguém conhecido de alguém. E aqui está a primeira novidade: pessoas da periferia contratando arquitetos. Um luxo, não?

Não. Pelo contrário, uma necessidade: fazer R$ 150 mil derrubarem uma casa velha (o que já tem um custo considerável) e se tornarem uma nova, com a devida funcionalidade e conforto que merecem uma vida inteira de trabalho, em um espaço tão exíguo e desafiador (o lote possui 4,8 metros de frente e 95 metros quadrados no total) tem de ser trabalho de profissional. Ainda mais se se considerar que, no caso, o dinheiro se aplica ao custo de vida (e de obra) em São Paulo – que pode chegar ao dobro do valor do metro quadrado de uma cidade como Goiânia, por exemplo.

Dalvina gosta de ser chamada de Dalva. E sua trajetória, bem como essa sua casa no bairro de Vila Matilde, zona leste da capital paulista, acabaria por ficar famosa na arquitetura mundial. Na verdade, não “essa” casa, cujo teto quase a vitimou, mas outra, totalmente outra, cujo projeto e realização partiu de Danilo Terra, Pedro Tuma e Fernanda Sakano, do escritório Terra e Tuma Arquitetos Associados. Para tratar desse trabalho e de outros, o jovem trio aceitou convite do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU-GO) e, na semana passada, falou da experiência na UniEvangélica, em Anápolis, e nas Faculdades Alves Faria (Alfa), em Goiânia, durante a 7ª edição da Aula Magna do CAU-GO.

Arquitetos Danilo Terra, Pedro Tuma e Fernanda Sakano: trio premiado rumo à exposição na Bienal de Veneza | Foto: Renan Accioly

Arquitetos Danilo Terra, Pedro Tuma e Fernanda Sakano: trio premiado rumo à exposição na Bienal de Veneza | Foto: Renan Accioly

Foram eventos lotados, com plateia curiosa. É que, em meio a obras portentosas de todos os continentes, a humilde residência da periferia paulistana foi a vencedora, na categoria Casas, do concurso “Building of the Year 2016”, promovido pelo ArchDaily, o site de arquitetura mais conhecido do mundo. Mas não foi a equipe quem acabou ficando com os principais louros — pelo menos não em termos de mídia popular. De “Vila Matilde House” (em inglês, a “Casa da Vila Matilde”, título dado à obra para concorrer ao prêmio), a peça se tornou a “Casa da Dona Dalva”.

Para um arquiteto, fazer uma obra faraônica ou erguer a casa da Dona Dalva é algo regido pelos mesmos princípios: adequar a intervenção ao valor a ser investido, por meio de um projeto funcional e voltado ao que quer seu cliente. Na prática, pode ser mais fácil construir um enorme shopping center do que encaixar a reforma de uma pequena residência. “A casa da Dona Dalva deu infinitamente mais trabalho do que fazer um galpão de 10 mil metros quadrados”, compara Danilo Terra. Outros fatores que tornariam ainda mais desafiador o projeto aparentemente mais simples, por ser “menor”, são os recursos limitados e a necessidade de execução rápida.

Por isso, em princípio, os arquitetos não entenderam a repercussão do que tinham feito na Vila Matilde. “Nós tínhamos em conta ter cumprido nosso papel com dedicação, como faríamos em qualquer trabalho”, diz Pedro Tuma. Mas, vasculhando mais a fundo — ele e seus parceiros admitem —, não poderia ser mesmo só um trabalho a mais: o fato de ser uma intervenção em uma área de periferia, com lotes divididos, barracões, lajes improvisadas e puxadinhos de todos os tipos, já mostra um ponto fora da curva. Junte-se a isso a história de uma senhorinha que depositou nas mãos deles a economia de uma vida inteira e tem-se uma bela odisseia para contar.

O cinza dos blocos de concreto contrasta com o verde das plantas: arquitetura contemporânea | Fotos: Pedro Kok/Terra e Tuma Arquitetos

O cinza dos blocos de concreto contrasta com o verde das plantas: arquitetura contemporânea | Fotos: Pedro Kok/Terra e Tuma Arquitetos

O resultado final também é obviamente chamativo, como se vê pela foto principal que ilustrou o concurso e que está reproduzida na página ao lado: um projeto de arquitetura contemporânea — que poderia muito bem estar edificado em um condomínio fechado de classe média alta — encrustado ali, em um bairro popular, entre um sobrado modesto à direita e uma habitação que não se sabe se está sendo erguida ou em decadência, à esquerda. Uma composição harmônica de blocos de concreto aparentes, solução já usada pelo Terra e Tuma em outros trabalhos, e o verde de que Dona Dalva não abre mão (“ela gosta de plantas e usa a horta”, diz Fernanda Sakano), em meio a resoluções funcionais de aproveitamento do espaço mínimo da melhor forma.

No fim, Dona Dalva ganhou o que se pode chamar verdadeiramente de “lar”. E a arquitetura, com o caso, consegue viralizar uma ideia importante: a da função social do profissional da área. Ainda nos dias atuais, contar com os serviços de um arquiteto parece um luxo, especialmente para a parte menos privilegiada da população. É como se ter um projeto de construção ou reforma de uma residência fosse algo supérfluo ou destinado aos mais abastados, longe do alcance dos remediados. A classe tem preocupação com isso que chamam de “gourmetização” do arquiteto.

Como todo caso de sucesso, há também controvérsias e questionamentos. Alguns chegaram a acusar o escritório de fazer algo entre o populista e o hipócrita com a casa da Dona Dalva. Fernanda, Danilo e Pedro reagem prontamente. “O que quisemos, o tempo todo, foi dar a ela dignidade. A gente queria proporcionar para Dona Dalva uma casa salubre, morar em uma casa dela aprovada e legalizada pela prefeitura, assistindo televisão na distância adequada. Agora ela tem liberdade de fazer o que quiser”, diz Danilo.

O ocorrido na Vila Matilde com uma casa se tornando uma habitação singular se contrapõe às ações de governo nos conjuntos habitacionais. Assim como os três colegas, também Maria Ester de Souza, vice-presidente do CAU-GO, chega perto da indignação ao observar que a qualidade do projeto poderia ser muito mais bem trabalhada. “O que a gente vê dentro de um projeto como o Minha Casa Minha Vida é lastimável, é uma plantação de casinhas. É uma qualidade de nível desesperador. Basta ver um projeto como o de algumas etapas do Jardins do Cerrado [último bairro da região oeste de Goiânia, na divisa limítrofe com Trindade].”

Há agressões mais graves e um caso, em especial, é exemplar. Para abrigar os atingidos pela barragem da usina hidrelétrica de Belo Monte, foram erguidos conjuntos habitacionais gigantes, como o Reassentamento Jatobá, em Altamira (PA). Uma violência extrema com a qualidade de vida de famílias inteiras que por gerações viveram de um rio, com espaço a perder de vista, e são praticamente obrigadas a sofrer um processo de favelização nas novas habitações. Perde-se toda a identidade em um depósito de pessoas que não se pode chamar de projeto urbanístico. O desemprego e o ambiente estranho e hostil acabam levando à promiscuidade e à criminalidade quase de forma macabramente natural. O oposto disso? É a história de Dona Dalva, que hoje diz ter um “palácio”.

Interior da casa da Dona Dalva mostra como um pequeno espaço pode ser reaproveitado de forma racional | Foto:

Interior da casa da Dona Dalva mostra como um pequeno espaço pode ser reaproveitado de forma racional | Fotos: Pedro Kok/Terra e Tuma Arquitetos

Mas nem sempre um mau projeto é infelicidade só das classes baixas. Fernanda Sakano lembra que há muito projeto voltado à elite que deixa a desejar. “Se for ver muito do que está sendo vendido para a classe média ou para a classe alta como espaço de qualidade é algo absurdo. É marketing. Os apartamentos estão cada vez menores, mal cabem um guarda-roupa, o aproveitamento da luz e o tamanho das janelas são sofríveis. Resta marketing”, avalia.

O escritório Terra e Tuma se prepara agora para apresentar o trabalho na Bienal de Arquitetura de Veneza, que será aberta no próximo mês. Na bagagem vai mais do que a casa da Dona Dalva: há experiências interessantes, como o também premiado Renova SP, um projeto urbanístico na região Tremembé-Jaçanã, na capital paulista, em que o grupo trabalhou com o poder público. l

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Olenka

Sensacional ! Uma reportagem muito bem escrita, fluida sem deixar a desejar. Quanto aos arquitetos: sejam quais foram seus reais objetivos, primeiramente ultrapassaram a barreira do preconceito, ousaram com extrema criatividade para não perder a funcionalidade. Foram muito sensíveis, merecem louros, sim. Parabéns !

Bosco Carvalho

Um exemplo onde a empatia dos arquitetos sobressaiu e que deveria ser multiplicada em todos os níveis de nossa vida.
Parabéns a eles e ao Opção por valorizar feitos com essa qualidade e ao Elder pela sensibilidade ao redigir.
O mundo precisa de mais situações como essa!