Candidatos em Goiás estão despreparados para campanha digital

Com falhas de interação e estratégia, postulantes não exploram potencial das ferramentas em prol de maior captação de possíveis eleitores em 2022

A internet chegou ao Brasil em 1995, trazendo facilidades para quem tinha condições de obter o serviço. Com o passar dos anos e com o avanço da tecnologia,  tornou-se quase universal. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2019, cerca de 82,7% dos domicílios brasileiros tinham acesso à internet. A partir desse universo, as redes sociais surgem com o propósito de facilitar a comunicação e o relacionamento entre as pessoas de todo o mundo. Do mesmo modo, a política também se utiliza dessas ferramentas como aliadas.

Os objetivos desse uso são muitos, e vão desde o intuito de turbinar as campanhas eleitorais e se aproximar de seu público-alvo até capturar novos eleitores. Partidos e figuras políticas, portanto, investem cada vez mais em sua divulgação própria e de seus candidatos nas redes, partindo da premissa segundo a qual “quem não é visto, não é lembrado”. Foi com esse intuito que o Jornal Opção analisou os perfis dos possíveis pré-candidatos que podem concorrer ao governo estadual e ao Senado por Goiás em 2022.

Apesar da amplitude de cenários e possibilidades que as redes sociais e a internet permite alcançar, e de a política, de modo geral, se aproveitar desse universo, não são todos os políticos que sabem fazer o uso estratégico e até adequado dessas ferramentas. Para o cientista e marqueteiro político, Guilherme Carvalho, que é sócio da Expert Consultoria Política, alguns fatores estão aparecendo como uma espécie de barreira para a construção de uma pessoa interativa a um nível de influência nos perfis dos políticos. 

“A elite brasileira está muito envelhecida, então a interação mais direta e constante com o eleitor, seja utilizando os stories do Instagram, ainda é bastante restrita. Especialmente aqueles políticos mais jovens e que possuem uma característica mais denuncista  – e até mais agressiva. E não é todo político que tem”, avalia Guilherme. Para ele, isso se torna um problema ao se considerar a grande influência que, com o passar dos anos, as redes sociais adquiriram no que tange ao resultado do pleito. 

O marqueteiro exemplifica essa influência ao relembrar as eleições de 2018, momento em que as pessoas que tinham uma interação mais ampla nas redes conseguiram alcançar “dimensões muito maiores dimensões muito maiores do que aqueles que investiram em uma em estratégias mais tradicionais de corpo a corpo”. A pandemia da Covid-19, a partir de 2020, com a impossibilidade de aglomerações durante os momentos de restrições, foi um fator que intensificou ainda mais a importância da presença digital bem marcada nos interessados em disputa.

Hoje, ainda que o avanço da imunização contra o coronavírus esteja avançada, com mais de 60% da população adulta com o ciclo vacinal completo no Brasil, e a possibilidade do retorno das campanhas corpo a corpo, a importância do digital permanece significativa nos processos de interação com o público e marcação de presença da personalidade. O que se vê em Goiás, no entanto, é que grande parte dos políticos ainda se mostram resistentes a explorar o que as ferramentas do mundo virtual permite. De modo que, quando há a utilização, grande parte das vezes isso ocorre de modo básico, sem muitas inovações. 

Veja como são as redes dos pré-candidatos

Pensando nos pré-candidatos ao governo do Estado e ao Senado, Ronaldo Caiado (DEM), Gustavo Mendanha, Henrique Meirelles (PSD), João Campos (Republicanos) e Delegado Waldir (PSL) estão presentes nas três grandes redes sociais: Instagram, Facebook e Twitter. Já Wolmir Amado (PT) e Alexandre Baldy (PP) deixam o Twitter de lado e focam apenas no Facebook e no Instagram. O pesselista Waldir, apesar de possuir conta no Twitter, não a utiliza desde 2017 – na época, o tom de suas publicações lá era claro e contundente contra o governo federal, que era chefiado por Michel Temer (MDB). 

Ronaldo Caiado (DEM)

Com mais de 450 mil seguidores, Ronaldo Caiado é quem mais aposta na estética de sua conta do Instagram, por exemplo. Ao rolar o feed, é possível perceber a presença de uma ‘paleta de cores’ ligada a bandeira de Goiás em suas mais de 7,5 mil publicações, com grande presença das cores amarelo, verde, azul e branco. Diariamente, o governador faz de dois a três publicações, que variam entre 100 a 35 mil curtidas e 50 a 600 comentários. Suas postagens, no entanto, são mais ‘institucionalizadas’ do que ‘personificadas’, de modo a mostrar mais como é a gestão do governador de Goiás, do que do ‘Ronaldo Caiado’ propriamente dito. 

Predomina-se, portanto, divulgação de ações de caridade, os feitos do Governo de Goiás, e fotos com a própria população. Não há, desse modo, críticas contundentes a seus adversários. O que se vê sendo bastante utilizado para aproximação do público, mesmo em meio a essa institucionalização de suas redes, é o uso do humor, além do aproveitamento de recursos que se encontram em alta, como o reels. Para o marqueteiro político Guilherme Carvalho, a distância do perfil de Caiado da própria figura de Ronaldo Caiado – com maior foco em seu governo – pode fazer com que, por vezes, a característica de ‘influencer’ que os políticos precisam obter nas redes sociais para fidelizar seu público, se perca. 

No Facebook, o democrata possui mais de 939,5 mil seguidores e mais de 899 mil curtidas na página. Suas postagens são semelhantes – e quase sempre às mesmas – do Instagram. No entanto, lá, chega a realizar de dois a cinco posts ao dia, que alavancam de 10 a 300 comentários cada. Em todas as suas redes, seu posicionamento é muito semelhante, e além do Facebook, o Twitter também é prova disso, pelo tipo de conteúdo que é publicado. Já quanto às estatísticas, lá o governador de Goiás conta com mais de 531 mil seguidores, faz de um a onze ‘tweets’ por dia – sendo que a média se mantém entre cinco e seis – que conquistam entre 10 a 170 curtidas e 2 a 20 comentários.

No sentido de um candidato que busca a reeleição, Guilherme considera a postura de Caiado – especialmente pela atuação de sua equipe – negativa ao alcance de seu objetivo. “As pessoas seguem ele exatamente por ele ser governador, querem ver as ações acontecendo. No entanto, ser governador é uma coisa e ser candidato é outra. Ele não lança mão de ferramentas de engajamento, o que poderia ser melhor feito por parte da equipe. A conexão entre o governador e o cidadão já existe, o que falta é a conexão entre o candidato e eleitor”, explica o cientista político. 

Gustavo Mendanha (sem partido)

Diferente de Ronaldo Caiado, Gustavo Mendanha já utiliza mais ferramentas de interação, especialmente os stories do Instagram. Em seu perfil, ele possui mais de 165 mil seguidores, e mais de 3,2 mil postagens. O prefeito de Aparecida de Goiânia faz, em média, de uma a cinco postagens ao dia, que rendem de 30 a 500 comentários, de 500 a 10 mil curtidas e os vídeos, de 4 mil a 40 mil visualizações. Para Guilherme, ainda que ele seja mais interativo como pessoa, como Gustavo Mendanha, e não somente como prefeito, ainda faltam estratégias. 

“A intensidade visual do Gustavo Mendanha também não está clara. Eu a gente vê aquela foto de perfil dele que tem uma relação ainda com as coisas do MDB, o que pode passar por uma transição agora. No entanto, as publicações do feed e dos stories dele não possuem conexões com ferramentas que levam as pessoa a uma interação mais ampla”, declara Guilherme. Quanto ao posicionamento de Gustavo Mendanha, também há a divulgação de suas ações como prefeito de Aparecida de Goiânia, realiza anúncios e faz lives sobre política. O tom de crítica – especialmente quanto ao governo estadual – não deixa de esporadicamente aparecer. 

Em seu Twitter, onde possui mais de 7 mil seguidores, suas publicações contam com uma interação e um engajamento ainda mais reduzido, ainda que teste costume postar de um a sete ‘tweets’ ao dia, todos os dias. Suas publicações, no entanto, costumam alcançar de nenhum a dez comentários. O Facebook, por outro lado, mais existe como um reprodutor de tudo o que é postado em seu Instagram. 

Wolmir Amado (PT)

O ex-reitor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás e novo secretário-geral da Sociedade Goiana de Cultura (SGC), para o cientista e marqueteiro político Guilherme Carvalho, é quem tem o perfil mais “amador”, menos profissionalizado e que não utiliza as ferramentas oferecidas pela plataforma com a intenção de promover uma comunicação mais eficiente e interativa com seu público. De modo geral, suas publicações são muito ligadas a sua atuação com a PUC e  SGC. 

“Não me parece que ele já utilizou algum tipo de estratégia, já que a interação é baixíssima e não existe identidade visual”, avalia Guilherme. De forma mais explícita, o petista só possui 1.195 seguidores em sua conta do Instagram. E ainda que faça de uma a duas postagens por dia, as publicações não provocam muito engajamento, gerando de dois a 60 comentários por postagem – com uma média de dez a quinze. 

Além de não possuir conta no Twitter, só possui 202 ‘amigos’ em seu Facebook. Além de um perfil pouco atualizado, possui poucas interações, sendo de duas a dez por publicação. Sua última postagem na rede social foi no dia 14 de novembro deste ano. 

Henrique Meirelles (PSD)

Guilherme caracteriza a postura de Henrique Meirelles nas redes sociais como ‘fria’ e o compara com Geraldo Alckmin e até com Ronaldo Caiado, pela distância que existe entre o interlocutor e o público-alvo. “Eles são políticos extremamente técnicos sob vários aspectos, e boa parte deles não enxergam ainda a real necessidade de uma interação antes da campanha”, explica o marqueteiro político. Segundo ele, isso faz com que não apenas não haja interação, como sejam criados problemas na comunicação. “Falta falar de problemas concretos em uma linguagem clara”, pontua. 

“Me lembro que na eleição de 2018 o Alckmin afirmou que ‘se tivesse que mudar a linguagem dele, preferiria perder’, como realmente aconteceu. Ele perdeu o feio, e é justamente por isso, porque o mundo digital ele está cada vez mais presente. É preciso que sejam utilizados mecanismos que criem o mínimo de vínculo e chamem o eleitor, a cada postagem, a interagir de fato. No entanto, eu não tenho visto pré-candidatos e cargos majoritários entendendo a necessidade dessa mobilização, com exceção do Delegado Waldir”, admite o especialista. 

Apesar dos mais de 40,5 mil seguidores que Meirelles acumula no Instagram, Guilherme compara o perfil do secretário da Fazenda e Planejamento de São Paulo com o do ex-reitor da PUC, Wolmir Amado. Isso, porque além de não ser tão frequente em seu ritmo de postagens, com uma média de quatro publicações semanais, suas publicações não rendem tanta interação, com posts que variam de dois a 250 comentários – mas na média de vinte a 60 -, e de 90 a 2 mil curtidas. “Por si só o Meirelles não é aquele político caloroso que é percebido. Ele se faz perceber. E o mesmo é trazido às suas redes sociais”, opina o cientista político. 

Em seu Twitter, o político pessedista é relativamente frequente e faz posts a cada dois ou quatro dias, de um a quatro ‘tweets’ em cada um dos dias. No Facebook, também é pouco frequente, publicando algo a cada dois ou quatro dias, mas suas postagens são muito similares às compartilhadas no Instagram. De modo geral, seu posicionamento e estratégia são muito parecidos em todas as suas redes, ao utilizar-se de um perfil mais analítico. Assim, ele traz temas econômicos e políticos, os avalia, opina e os analisa. Sua opinião sobre os acontecimentos também é muito clara e explícita e ele adota uma postura crítica ao governo federal. 

Alexandre Baldy (PP)

Além de não estar presente no Twitter, o Instagram de Alexandre Baldy, para o marqueteiro Guilherme Carvalho, não tem uma identidade visual clara. “Há uma mistura de cores e uma paleta não muito bem definida nas postagens. Além disso, mistura com o perfil dele como secretário, dando a impressão de algo começou a ser construído, mas parou no meio do caminho”, explicou. 

Apesar de realizar uma média de uma a duas publicações diárias em sua conta de 102 mil seguidores, as postagens de Baldy contam com baixa interação. Isso, porque ainda que ele faça de uma a duas postagens ao dia, suas mais de 3,6 mil publicações contam com cerca de 11 a 1.500 curtidas e vão de quatro a 150 comentários – sendo que a média é de 50 comentários por postagem.  De forma geral, o que é exposto por Baldy em suas redes é uma grande divulgação de ações eventos e encontros com outras pessoas, além de homenagens. 

Guilherme acredita que Baldy peca no sentido de que, assim como Gustavo Mendanha, o deputado não costuma utilizar mecanismos de resposta para motivar interação com o público. Do mesmo modo, sua conta no Facebook – que conta com mais de 70,6 mil seguidores e 69,6 mil curtidas – é praticamente uma reprodução de tudo o que é feito no Instagram. 

João Campos (Republicanos)

Quando se fala do Twitter e do Facebook, João Campos não é muito diferente dos demais. No Twitter, de pouca atividade, tem pouca interatividade. Sua última publicação foi no dia 8 de setembro deste ano. Até então, buscava sempre divulgar ações e medidas do governo federal, além de não poupar críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF). O Facebook, tal como o do Baldy, mesmo com os mais de 50,4 mil seguidores e 40,9 mil curtidas, é basicamente uma reprodução dos mais de 2,7 mil posts que existem em seu perfil do Instagram. 

Campos ganha, no entanto, no sentido de ter uma identidade visual, o que muitos outros já não possuem. Empata, no entanto, pela falta de estratégia de interação com seu público. “Estamos falando de redes sociais quase que amadoras”, comenta o marqueteiro político. 

Delegado Waldir (PSL)

Se nessa lista se tivesse um ganhador quando se fala de estratégia para interagir com o público, delegado Waldir (PSL) seria o vencedor. Para Guilherme, apesar da falta de identidade visual, o deputado federal e possível candidato ao Senado pode ser considerado o mais habilidoso entre os mencionados. “A página dele é muito frequentada. Ele não dialoga muito diretamente sobre as ações dele, mas ele mostra sempre ações dos outros. Lá tem um apelo muito direto, porque ele aborda questões que estão na sociedade. Ele aparece muito nos stories, mas ele não aparece no feed. Isso é interessante porque você chama a pessoa, você evoca mecanismos para que a pessoa veja aquele fato, e se ela vai no story ela consegue ver o deputado. É uma estratégia interessante principalmente quando somado a desgastes que ele teve no decorrer do mandato”, analisa o cientista e marqueteiro político. 

O Instagram do pesselista hoje soma mais de 168 mil seguidores. Suas mais de 4,5 publicações – que ocorrem de uma a três vezes ao dia – rendem de 600 a 8 mil curtidas, de 30 a 1,5 mil comentários. Quando publica vídeos, estes costumam ter de 50 mil a 80 mil visualizações. As postagens com baixo engajamento são exceção no perfil de Waldir. Entre o que é mais publicado pelo deputado federal, estão muitas críticas diretas à criminalidade com vídeos de assalto. 

Também são divulgados vídeos e postagens de humor e futebol, além de poucas atualizações sobre o que é aprovado no Senado ou na Câmara dos Deputados. Assim como os demais, seu Facebook, que possui mais de 771,2 mil seguidores e 952,6 mil curtidas, é uma reprodução de tudo o que é publicado no Instagram. Seu Twitter, por outro lado, não é atualizado desde 2017 – momento em que era extremamente crítico ao governo estadual e federal da época.

Preferência ao Instagram

Ao analisar o perfil de cada candidato ao Governo de Goiás e ao Senado Federal por Goiás, é preciso ressaltar o distinto perfil que cada uma dessas redes possui. O Instagram, pelo maior foco no visual e pelos recursos que permitem se comunicar em poucos segundos e com pouco texto, acabam sendo mais adequadas a corrida e agitada de uma campanha eleitoral, que busca captar o público de forma mais fidelizada. “É a rede social que possibilita uma massificação maior de interação, principalmente pela ferramenta reels, e pelo próprio feed. 

Além disso, o story atua como uma complementação que mostra o dia a dia da pessoa, algo que o público gosta de acompanhar, já que não é só sua carreira institucional que importa, mas sua vida pessoal também”, explica. Mendanha e Baldy, inclusive, ganham pontos no que tange a tentativa de mostrar quem está por trás do perfil, não poupando o público de postagens sobre suas respectivas famílias e um pouco da vida pessoal. 

Isso acontece, porque para o cientista e marqueteiro político, tanto o Facebook quanto o Twitter são redes sociais que mais podem trazer desgaste político do que beneficiar o político. O Facebook, por permitir “textões”, o Twitter, pela restrição de caracteres e pela grande quantidade de debates e embates ocorridos na rede. 

“O Twitter costuma gerar mais desgaste do que interação com o público. Já o Facebook é uma rede social que abre a possibilidade de discussão – não de diálogo. Ele pode ser uma ferramenta interessante, mas quase sempre também leva mais a desgaste. Eu acho que hoje se comunica muito visualmente e de forma curta, com o que as pessoas têm paciência de ver, que é um, dois ou até três stories de um assunto”, complementa. Tanto o Twitter, quanto o Facebook, portanto, devem ser redes sociais utilizadas como complemento, não como foco principal – que estrategicamente deve ser o Instagram. 

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