Campanha #JuntosPodemos: o relato de uma candidatura que venceu mesmo sem ganhar

O desafio de mobilizar pessoas por meio do convencimento, participar de uma eleição a vereador percorrendo um caminho bem alternativo e chegar a 1.882 votos gastando muito pouco 

Apoiadores festejam o fim da campanha após carreata que teve o candidato conduzindo uma “bike de som” | Fernando Leite/Jornal Opção

Apoiadores festejam o fim da campanha após carreata que teve o candidato conduzindo uma “bike de som” | Fernando Leite/Jornal Opção

ELDER DIAS

(…) “Olhe bem Vossa Mercê — disse o escudeiro — que aquilo não são gigantes, são moinhos de vento; e os que parecem braços não são senão as velas, que tocadas do vento fazem trabalhar as mós.”
“Bem se vê — respondeu Dom Quixote — que não andas corrente nisto das aventuras; são gigantes, são; e, se tens medo, tira-te daí, e põe-te em oração enquanto eu vou entrar com eles em fera e desigual batalha.”
(Miguel de Cervantes)

O texto de hoje é para falar de uma saga eleitoral pouco ortodoxa. Uma saga ao mesmo tempo pessoal e coletiva. Acima de tudo, quixotesca — daí o início, pertinente, com a citação da passagem clássica do herói de Cervantes contra os moinhos de vento. Mas, ainda que seja para falar de 2016, a história começa de verdade bem antes, em 2004.

Naquele ano, acabei por me envolver na campanha eleitoral como militante de verdade. E quando digo “de verdade” significa algo quase como torcedor mesmo — a militância é paixão por uma causa, o que a torna algo muito próximo do que temos no futebol. Enchi o carro de adesivos, empunhei bandeira (antes supliquei para ganhar uma, dada a escassez de material) e me voluntariei para ir à rua pedir voto para um dos candidatos a prefeito. Fui “escalado” pela coordenação para fazer campanha justamente em uma das regiões eleitorais mais inóspitas: o principal reduto do adversário daquele que eu apoiava. Ao andar de casa em casa para tentar ganhar ou reverter votos, fui tomando contato com a discussão política de uma forma bem mais direta. Nunca havia tido antes esse tipo de contato com o eleitor. E descobri coisas interessantes, para o bem e para o mal.

Lembro-me de que, ao bater na porta de uma residência bem humilde, uma criança gritou lá de dentro, de seu jeito, que não poderia me atender. Logo depois, no portão seguinte, a vizinha me disse: “Elas (as crianças) não têm como sair. O pai está preso no Cepaigo. Então a mãe sai para trabalhar e deixa os meninos trancados porque não tem vaga na creche.”

Esse tipo de situação evidenciava um outro mundo, que eu não conhecia de tão perto. Naquela experiência de cerca de um mês, tomei pé de como as pessoas podem ser indóceis ou amáveis com um desconhecido; treinei a argumentação e a contra-argumentação como nunca; e perdi a timidez ao encarar situações desfavoráveis ou embaraçosas. Em suma, me tornei um cidadão consciente do que era, de fato, a “realpolitik”. O mundo duro dos embates eleitorais me desafiou e me fascinou. Saí daquela campanha com um propósito: o de ser candidato a vereador nas eleições seguintes.

Em 2007, procurei um partido pequeno para me filiar. Eu tinha (e tenho) minha ideologia, mas o caminho que eu queria trilhar, com independência e sem dinheiro para despejar, não comportava uma aventura em um partido pelo qual fossem necessários 5 mil ou 6 mil votos para ser eleito. Esta é a vantagem dos nanicos: darem a oportunidade de ser eleito sem grandes gastos. Acabei me filiando ao PMN, pelo qual concorreria em 2008.

Ninguém entra em eleição para perder, claro. Mas eu sabia que seria, além de uma campanha, um bom aprendizado. Meu propósito era juntar pessoas mais pelas ideias do que pela amizade. Mas comecei pelos amigos mais próximos. Muitos acharam loucura, outros nem tanto. Pelo menos, ninguém me reprovou tacitamente.

De casa em casa
Minha meta era ir de casa por casa, de porta em porta, pelo menos em meu bairro, o Conjunto (ou Vila) Itatiaia. Talvez, penso agora, isso fosse pela imagem de contato pessoal que me tinha deixado a missão de cabo eleitoral militante quatro anos antes. O fato é que, em poucas semanas, havia percorrido 13 ruas inteiras, por mais de 300 casas e conversado com muita, muita gente. Nada de diferente da conhecida campanha “sola do sapato”. O problema é que eu não sou um político tradicional, nada objetivo: sem essa de dar aquele tapinha nas costas, fazer o pedido de voto e ir rumo ao próximo eleitor. Para ter ideia, lembro-me de que me demorei quase uma hora conversando com um senhor — Seu Antônio, que aliás reencontrei nesta eleição – que nem votava em Goiânia. Era de Goianésia, onde tinha sido vereador. Mas, por gostar de política, ficamos nós em um papo muito saboroso. E nada pragmático.

O carro de som era meu próprio Ford Ka 2003, adaptado com alto-falantes emprestados de um amigo e que, quando eu não estava em busca de material gráfico ou fazendo alguma visita distante, fazia rolar nas ruas o jingle – uma versão de “Rock Around The Clock”, clássico dos anos 50 eternizado de Bill Halley and His Comets. “Um dois três quatro – nossa!, é muito número/ cinco seis sete oito – assim não decoro!/ nove dez onze doze – não dá mais, cansei, agora é três, é três, é três três três!”. Composição própria em parceria com o amigo Gustavo Pessoa, que também deu voz à música, que foi gentilmente executada, a custos módicos para sua gravação, pela banda Abluesados, durante um ensaio no Martim Cererê.

Um passeio ciclístico pelas ruas do Itatiaia e do São Judas, bairro vizinho, puxado pelo “Ka de som” e colorido de laranja e verde com bandeiras de TNT bem simples, terminou com o plantio de mudas de flamboyant, no fim de uma rua do Residencial dos Ipês. Hoje eles estão lá, frondosos e florindo, oito anos depois. São o legado de uma campanha que se propôs ser diferente. E foi mesmo, sem falsa modéstia.

Camiseta, calça jeans, tênis e bandeira na mão, em busca de simplificar a política — e o político | Fernando Leite/Jornal Opção

Camiseta, calça jeans, tênis e bandeira na mão, em busca de simplificar a política — e o político | Fernando Leite/Jornal Opção

No fim, 1.491 votos, com o custo total de R$ 6 mil de recursos próprios. Uma razão de 4 reais/voto. Um adversário, reeleito, para ter três vezes esta votação, gastou 25 vezes mais. Ou seja, para obter um voto investiu oito vezes o que eu gastei. O que barateara minha campanha? O convencimento das pessoas, conseguir fazer eleitores se tornarem militantes, por acreditarem na proposta da candidatura.

Só quem já foi candidato sabe a dificuldade que é superar a barreira dos 500 votos. Nem digo mil, mas 500 mesmo. E chegamos, naquela eleição, a quase o triplo disso. A quantidade de votos, ainda mais diante do baixo custo, tornava 2012 um ano promissor para a nova investida eleitoral. Mas, envolto em questões pessoais e com a proposta de um colega que me convenceu de que teria nosso projeto como base, decidi apoiá-lo. Foi um erro, por dois motivos: ele não cumpriu o compromisso de fazer essa campanha “diferente” (menos ainda o mandato que alcançou) e eu perdi o embalo de 2008.

Na verdade, não sou político de carreira. Sou político o tempo todo, por gostar de discutir a “polis”, a cidade. O que eu já faço como jornalista. E a oportunidade de estar no Jornal Opção — um veículo que preza pelo debate amplo, pela análise e no qual, na maioria das vezes, eu posso me pautar e falar livremente de temas que considero importantes — também me fez contemplado no papel de “ser político”.

Movido pela descrença
Isso talvez tenha sido uma das razões para eu só ter voltado a pensar em eleição já na metade do ano passado. O que me fazia voltar? Estar descrente da política. Parece contraditório, mas a descrença me impulsionava à reação, a mostrar que tinha de ser diferente. Não me conformava — e não me conformo — que deixemos um poder como o Legislativo nas mãos de um Cunha. Não podíamos — e não podemos — desistir.

Tinha de decidir se disputaria e, caso afirmativo, a qual partido me filiaria. A estratégia teria de ser a mesma de oito anos atrás: um partido que comportasse um investimento modesto e que desse liberdade de trabalho para esse jeito de fazer política.

A busca por um teto que abrigasse a futura candidatura se encerrou logo. Acabei por me aproximar, por um conhecido — que, durante o pleito, acabou por se tornar um amigo — que estava na executiva do PTC. Partido Trabalhista Cristão. Uma sigla que, a princípio, não me agradava: sou cristão, mas da “ala Papa Francisco”, nada adepto do cristianismo homofóbico e fundamentalista que prega a bancada da bíblia, puxada no Congresso por outro partido com “cristão” no nome, o PSC. Com o tempo, percebi que o PTC, pelo menos em Goiás, é menos religioso que pragmático: o discurso poderia ser o que eu quisesse, bastaria que colaborasse com meus votos para a chapa.

Acho meio maluco alguém “torrar” um lote para fazer campanha. Já vi candidato fazer isso para ter, ao fim, menos de 400 votos. Vender um bem para se arriscar em algo quase sempre bastante instável como é uma corrida eleitoral me parece uma de duas coisas: ou é muito idealismo mesmo ou é investimento de risco, no sentido financeiro da expressão. Não é de hoje que se sabe que o Legislativo é um balcão de negócios para muitos de seus ocupantes. Eu poderia até ser leviano e, já sendo, dizer que esses empreendedores com mandato são maioria na maioria das casas de leis.

Meu patrimônio para embarcar na campanha era um só: o que eu tinha construído até então como jornalista e pretenso líder comunitário. A partir daí, o trabalho era puxar pessoas comuns, mas que quisessem o que eu também gostaria de provar: chegar à Câmara de Goiânia por meio de um trabalho coletivo pautado na simplificação da política, na interatividade, defesa da comunidade e no cuidado com a cidade.

Não foi difícil encontrar muita gente boa pelo caminho. Pessoas que tinham correntes políticas e preferências partidárias diversas, mas que entenderam bem o viés ideológico da proposta: ir de encontro “ao que está aí” promovendo uma forma própria de fazer a tão propalada “nova política”, o que se pretendia provar em ações concretas já com a campanha.

Meu quixotismo faz-me andar na contramão. Fugi de qualquer proposta que considerasse alguma espécie de aliciamento. Sugeriram falar com líderes de igreja, os evitamos; padrinhos políticos não procuramos nenhum; e dirigentes de entidades, organizações e sindicatos seriam bem-vindos, mas como pessoas físicas. Sei que negociações, acordos e concessões são ingredientes necessários na política, mas o grupo estava disposto a evitar tudo que se prendesse a algo que fosse além dos propósitos que tínhamos – ou que os limitassem. Um ex-vereador, ocupante de um cargo importante no governo, chegou a me ligar para que eu fosse até ele. Queria me ajudar na campanha e me convidou a ir a seu gabinete. Nada contra conversar, mas tudo a favor de ser em um ambiente onde pudéssemos ser ambos vistos. Propus um shopping. Talvez não tenha sido por isso, mas ele não me retornou. Purismo? Eu prefiro chamar de transparência.

Amigos militantes
Como da vez anterior, a campanha contava com a ajuda de amigos militantes. A discussão foi coletiva a começar da identidade visual, a continuar pela escolha das fotos oficiais e a prosseguir pelos temas a serem abordados. Um caminho natural era a busca das redes sociais, buscando o máximo de interação com os eleitores e dando publicidade aos fatos da campanha, via Twitter, Instagram e Facebook, com um planejamento para mídia digital que foi algo muito acertado (mais amizade envolvida). No Facebook, com o recurso da transmissão ao vivo (live cam), fizemos 15 sessões da chamada “Campanha Interativa”. Algumas chegaram a durar quase uma hora, com audiência média em torno de 20 pessoas e temas diversos, desde a questão do voto nulo, passando por mobilidade urbana e segurança pública, chegando até uma sabatina sobre a função do vereador. Tudo isso ao vivo, em um estúdio altamente improvisado no quarto de casa, e procurando responder em tempo real a todos os questionamento. Ao fim, os vídeos somaram quase 10 mil visualizações. Creio que pouquíssimos candidatos Brasil afora tenham usado essa ferramenta dessa forma.

Uma das 15 transmissões ao vivo feitas via Facebook durante a campanha: busca de interação em tempo real com os eleitores | Foto: Reprodução / Facebook

Uma das 15 transmissões ao vivo feitas via Facebook durante a campanha: busca de interação em tempo real com os eleitores | Foto: Reprodução / Facebook

Mobilizar as pessoas é algo complicado. Daí que muitos candidatos entendam que funcione melhor a linguagem do dinheiro: “eu pago e eles fazem”. Militância exige muita sinergia. E, convenhamos, não vivemos o melhor dos mundos políticos para que ela aconteça. Por isso meu orgulho de poder dizer que nossa campanha se encerrou com uma carreata de 42 carros (além de uma moto e duas bicicletas), todos movidos pela própria vontade de participar, alguns vindo de muito longe. Serpenteando as ruas do Itatiaia até chegar ao Parque Leolídio di Ramos Caiado, no Goiânia 2, quase 20 quilômetros.

Compensação ambiental
Em vez da tradicional caminhonete, fiz o trajeto montado em outra inovação da campanha: uma “bike de som” que usamos para divulgar o jingle da campanha — novamente uma cortesia de um amigo —, uma versão de “Hey Brother”, do DJ sueco Avicii. Sustentabilidade e inovação, mas que para alguns deve ter parecido falta de recurso. Mais do que o divertido desfile com buzinaço que foi, a carreata vai render frutos: serão 42 árvores plantadas, compensação pela poluição gerada na campanha por conta de gasto com combustível, adesivos e impressos. Todo o material que sobrou foi recolhido: nenhum santinho foi jogado na rua em tempo algum, muito menos às portas dos colégios eleitorais, prática infelizmente ainda corriqueira no dia da eleição e que foi repetida por muitos dos que ganharam este ano.

Encerrava-se a campanha, com a sensação de ter combatido o bom combate. Poderia ser melhor, claro, se houvesse mais metodologia, mais organização, ainda que com os mesmos recursos. As urnas foram abertas e apareceram 1.882 votos para o número 36333. Ao fim, um gasto com material de campanha de R$ 3.211,50. Menor que em 2008, graças ao uso das redes, e contendo doações espontâneas de apoiadores. Votar “Elder Dias” teve o custo de R$ 1,70 e isso só se explica pela mobilização, pelo convencimento “grão em grão” que fez cada um dos que compraram essa causa resumida pela hashtag-lema #JuntosPodemos.

Um resumo de uma campanha de militância à moda antiga, com bandeiraço com jornalista, advogada, professor e filósofo como voluntários. A segunda suplência é menos do que se esperava, mas foi uma vitória. Parece frase de efeito, mas é verdade: mesmo sem ganhar, saímos vencedores.

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Renato Oliveira

Parabéns, Elder. Eu dispensaria os R$ 1,70. Me convence pelas ideias e ideais.