Caiado, o líder da bancada do ódio

O senador briga com Paulo Garcia, o que é bom motivo para que eu tenda a concordar com os argumentos do prefeito, mesmo antes de saber quais são

Senador Ronaldo Caiado: mania de destruir pontes e demais benfeitorias por onde passa

Senador Ronaldo Caiado: mania de destruir pontes e demais benfeitorias por onde passa

Henrique Morgantini
Especial para o Jornal Opção

Abro as notícias da semana e me deparo com um bate-boca de políticos.

Políticos quando resolvem abandonar a cordialidade e partir para o esbravejo são piores que o encontro das torcidas organizadas separadas pelo cordão de isolamento. Pelo distanciamento da segurança, no caso, na segurança dos microfones dos jornalistas, os xingamentos são livres e constrangedores. O prefeito de Goiânia, Paulo Garcia (PT), rompeu um longo período de silêncio diante das recorrentes críticas políticas e administrativas e fez-se em voz para disparar contra Ronaldo Caiado (DEM).

O senador, por sua vez, respondeu. O ato reflexo de Ronaldo Caiado é mais óbvio e previsível que o Natal cair no dia 25 de dezembro.

Para observar este embate, vou me preparar uma pipoca. Destas de micro-ondas que em dois minutos e meio estão prontas. Porque uma boa luta tem de ter pipoca e torcida. Enquanto o sinal de “pronto” não a­pita, me dedico a refletir sobre um dos políticos mais curiosos de Goiás: o atual senador Ronaldo Caiado.

Líder da Bancada do Ódio, Ro­nal­do Caiado tem a mania de destruir pontes e demais benfeitorias por onde passa. Tem sido assim ao longo de sua história. É o cocriador de Marconi Perillo e, junto com este, coautor das bases lógicas que permitiram a ascensão de De­mos­tenes Torres a voos que o colocaram como um dos senadores mais pop do Brasil. E foi com estes dois no­mes, para citar uma história recente da política de Goiás, que Ro­naldo Caiado conseguiu detonar as relações. É um político solitário cuja especialidade é a desídia com outros grupos.

O último que lhe restou, não por acaso, mas curiosamente, é uma personagem que também está de saída das disputas eleitorais: Iris Rezende. O lendário peemedebista é o último posto de sustentação para que a política praticada por Caiado siga profícua à sua maneira. E é por Iris a razão de tamanha trocação de Caiado e Garcia no MMA retratado com minúcias pelo site do Jornal Opção.

Como responsável por carregar o seu partido, o DEM, nas costas ou onde der, o senador goiano consegue uma sobrevida à legenda ao inseri-la na agenda política do sempre badalado PMDB. Mais do que uma ação de amor e fidelidade partidária, a missão de Caiado em manter os aparelhos ligados ao DEM é também pela garantia de sua própria sobrevida. Do contrário, entrará numa saia justa pelo fato de que ao já ter arestas pontiagudas com todos os integrantes das demais agremiações, Ronaldo Caiado corre o efetivo risco de não ter para onde ir. Onde ele pisar haverá uma arenga a ser resolvida. E resolver pendengas através do Cachimbo da Paz não é o forte do político. Faça aí as contas: PTB, PMDB. PSDB, PSB, não há uma legenda, entre as mais afamadas, que não haja um probleminha para Caiado resolver, seja com integrantes, seja na base que esta legenda integre. Em Goiás, é oposição. No Brasil, é oposição.

Dependendo do tamanho das terras que Caiado possui, seria o caso de fundar ali naquele latifúndio um Estado próprio. E então, a partir daí, proliferar sua ideologia única, que não encontra par ou lado em nenhum outro processo político existente hoje na República Federativa do Brasil.

Ronaldolândia ou Caiadópolis? Não posso deixar de imaginar nomes.
As primeiras pipocas começam a estourar, não posso me demorar muito com essas coisas da imaginação.

Responsável indireto pelo sucesso de Torres, que mantinha e mantem uma luz própria – é preciso que se diga –, hoje Ronaldo Caiado tenta ocupar a mesma posição do ex-aliado. Tenta porque lhe falta estofo de toda a sorte. O miolo intelectual segue distante, mesmo se sabendo que para se ser político (ou jornalista ou médico ou qualquer coisa) não se precisa lá de muita leitura e conhecimento elaborado.

Mas, ao contrário do que Demóstenes fazia à época de Lula, a oposição de Caiado é oca. Não há projetos, não há direcionamentos políticos de seu trabalho como senador que influa na realidade. É tudo muito furioso, retoricamente furioso. Tudo o que faz é realmente xingar e liderar uma massa de pouco-pensantes, que são muitos, que acreditam que é marchando com tratores e enxadas em direção ao Planalto que se vão resolver os problemas estruturais do Brasil.

Aliás, está aí uma das provas das manobras políticas no discurso de políticos como Ronaldo Caiado, que está longe de ser o único: esconder do eleitor e do cidadão brasileiro que os problemas do Brasil são estruturantes, são marcos fundadores da nossa Democracia e da nossa gente. Ao invés disto, cria o bode expiatório, calcado na cantilena de que o Mal do Mundo foi criado com o PT, instalado no poder com Lula e, agora, se torna um câncer recidivo com Dilma.

Só um inocente que crê em Caiado como solução para a política local ou nacional também crê em tamanha sandice.

Pessoalmente, encontro dificuldades ancestrais em estar no mesmo lado de Marconi Perillo. O tucano não me desce por várias razões. Mas não desce também para a parte que optou por não votar nele para o governo em 2014. Isto não muda nada e só reforça que a democracia é feita disso: de situacionistas e oposicionistas. Mas se tem uma condição sine qua non em que me torno um marconista apaixonado, de primeira linha, a ponto de ocupar as trincheiras do combate é se do outro lado houver a sombra de poder de Ronaldo Caiado em Goiás.

Marconi têm convicções e práticas questionáveis, qualquer grande líder político as tem, mas é acima de tudo um realizador. Marconi e Iris Rezende bateram muito e apanharam um pouco, mas mesmo assim conseguiram dedicar parte de sua agenda pública à construção literal do Estado de Goiás. Rezende fez o grosso, o que não havia, Perillo renovou, recriou, inventou, maquiou, evoluiu. Onde havia a estrada de Iris, Marconi duplicou. Onde havia uma escola do PMDB, Perillo transformou em universidade. Sim, sim, sob vários questionamentos. Mas o ponto é: todos sempre foram alvos dos olhos de coiote de Ronaldo Caiado, cuja contribuição a Goiás de forma efetiva data de tempos inimagináveis.

A voz da crítica de rapina em sintonia errada se torna a voz da inveja, do vazio.
Caiado facilita a escolha de lados na política: onde ele pisa, ocupe o lado oposto. E se prepare. Mesmo que você não entenda a questão, se pisar do outro lado, terá uma sensação mais leve depois.

A política brasileira sempre teve Ronaldos Caiados. E de alguma forma sempre precisou deles para ocasiões específicas. Os detentores do ódio nos discursos em cada fase da política brasileira, por sua vez, sempre foram mais cordatos na construção de suas ideias e com não raras nuances de profunda capacidade intelectual. Jamais fomos representados do ódio pelo ódio. Caiado, não. Ele tenta o ocupar os espaços de Lacerda, do mais recente Torres, quem sabe até de Brizola (quando os polos estavam invertidos no país), mas o faz com a brutalidade de um mourão de fazenda. Suas respostas mais educadas são rajadas de uma Thompson sem silenciador: ecoam até ensurdecer.

Conforme os tempos vão evoluindo, a necessidade de odiadores oficiais, por assim dizer, vão diminuindo. Os tempos da democracia são de diálogo. Marconi Perillo reconhece a importância da atuação de Dilma para Goiás e o faz abertamente, em discurso. Quando chama Lula de canalha, o faz em campo aberto, dentro de seu reduto (as duas vezes foram em convenções do PSDB). Sabe diferenciar a política da agenda administrativa.

Enquanto isso, Caiado comete uma piada pronta ao usar as redes sociais da internet, o lugar mais covarde para o debate, para chamar o ex-presidente de bandido “frouxo”.

O que pode ser mais irônico que se esconder atrás de uma tela de computador para chamar um adversário de frouxo? Eu estou neste momento atrás de uma. Eu sei a sensação da coisa real.

Plim, plim, plim, faz o micro-ondas da minha pipoca. Já não posso mais me demorar. Vou ler o que Paulo Garcia disse sobre Caiado e vice-versa, mas já com aquela mesma estranha sensação de que mesmo a contragosto, terei de concordar que Paulo Garcia, o prefeito, com todos seus defeitos e suas inoperâncias fez mais por Goiânia que todas as vezes em que Ronaldo Caiado vociferou contra ele.

Ou contra qualquer um.

Caiado está de um lado, gritando, pondo defeitos, sendo deselegante. Do outro estamos nós: todo o resto que tenta, errando ou acertando, fazer alguma coisa além de só dinamitar pontes e benfeitorias alheias.

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ivahy Rodrigues

Texto longo e cheio de basteiras. Bancada do ódio? Caiado é o mais importante líder de oposição ao Governo Federal. Caiado é culto, inteligente, bom orador e exerce uma liderança indiscutível. Texto rigorosamente petista. Penso não ser essa a função de um jornalista sério. Talvez o autor devesse (se é que não é) filiar-se ao partido dos trabalhares porque aí, escreveria em nome do mesmo. Decepcionante!

Alien

Perfeito. Não conheço nada que o Caiado tenha feito para o Estado de Goiás

José Roberto

Uma das análise mais perfeitas, do cenário político goiano e brasileiro, que já lí! Num momento de trevas de compreensão polícia eleitoral, de políticos a eleitores com idéias medievais, eis que deparo com tão brilhante texto. Sinceramente aceitar a política do chicote, do ódio e da desconstrução não cabe no meu repertório!

Daniel

“Caiado apresenta R$ 1,2 milhão em emendas para Goiânia só neste ano”. Não entendi então esse discurso. No próprio jornal tem essa matéria. Como dizem que ele não fez nada? Não o defendo, nem o critico, só estou mostrando fatos.