Cai água, cai barraco: Petrópolis repete tragédia que há tempos já deixou de ser acidente

Encostas ocupadas são um problema social e ambiental desde o século 19 e sua solução nunca foi prioridade de qualquer governo

Separadas por 54 anos, as tragédias de Caraguatatuba e de Petrópolis: todo verão, há décadas, as chuvas continuam levando vidas de brasileiros em suas águas | Foto: Reprodução

Tragédias com pobres são menores – adjetivação em que pensei colocar aspas, mas percebi que não teria por quê: o sentido é claro. No Brasil e no mundo, os pobres e miseráveis, quando morrem aos montes, causam menos choque do que uma eventualidade ocorrida com pessoas mais abastadas. Por isso, um atentado a bomba em algum lugar da África terá sempre menos repercussão do que o mesmo ato terrorista em alguma capital europeia, ainda que com um número multiplicado de vítimas.

Existe, na sociedade e mesmo na geopolítica, uma hierarquia entre quem importa mais e quem importa menos, algo que a pandemia, infelizmente, deixou muito claro: doenças que não atinjam o primeiro mundo – ou que não afetem seu PIB – são menos preocupantes para a ciência. Em um exercício de imaginação, como seria o tratamento à Covid-19 se não fosse uma pandemia, mas uma enfermidade que, matando de 2% a 3% dos que contaminasse, fosse circunscrita à África e à América Latina? Se o coronavírus não tivesse causado o estrago no coração do Ocidente, as vacinas teriam sido produzidas com tanta rapidez? Haveria sido produzida a maior força-tarefa da história das pesquisas?

O noma pode responder. Uma doença que afeta 140 mil crianças por ano. Mata a maioria delas e deixa deformadas outras dezenas de milhares, por simples falta de tratamento com antibióticos em tempo hábil. O termo noma vem do grego e significa “devorar”: é uma doença necrosante destrutiva da boca e do rosto. Começa por uma ferida na gengiva. A lesão inicial, se não tratada, evolui para uma gengivite ulcerativa que causa necrose e se propaga rapidamente. Destrói os tecidos moles da boca e também os ossos, daí progredindo para perfurar os tecidos duros e a pele do rosto. A face de quem sobrevive a um quadro assim fica monstruosa e os sobreviventes, muitas vezes, são escondidos por suas famílias.

Em uma reportagem do El País de 2018, o jornalista Manuel Ansede resume o que é o noma, após uma equipe dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) analisar 74 casos em um hospital do mundo especializado na doença, em Sokoto, na Nigéria. “Seus resultados certificam o evidente: o noma se espalha entre as crianças das famílias mais pobres das aldeias mais pobres dos países mais pobres. É a pobreza ao cubo.” O principal fator de risco é a miséria.

O noma não é uma doença nova: foi notado ainda no século 16, na Europa, onde já não existe mais. Tornou-se exemplar para apontar para os limites desumanos que são impostos a quem está nas partes esquecidas do globo. Isso vale para doenças, para tensões políticas, conflitos armados ou vítimas de desastres ambientais.

A miséria é a mãe das grandes tragédias brasileiras, que refletem, em casos como o da cidade de Petrópolis, os danos provocados pela vergonhosa desigualdade social. E o que são famílias levadas a habitar penhascos, senão a prova da falta de lugar reservada aos menos favorecidos.

Mais de 50 anos de morros enterrando gente

Já faz mais de três décadas de quando a banda Biquíni Cavadão lançou a música Cai Água, Cai Barraco, quando o pop-rock nacional ainda tomava conta das rádios. Era 1991 e os versos iniciais diziam “Cai água, cai barraco/ E desenterra todo mundo/ Cai água, cai montanha/ e enterra quem morreu/ É sempre assim todo verão/ O tempo fecha, inunda tudo/ É sempre assim todo verão/ Um dia acaba o mundo todo…”

Com um ceticismo cínico, a canção denunciava um morticínio em desastres naturais que no Brasil já tinha um grande marco havia mais de 20 anos. Foi em março de 1967, quando as enchentes e deslizamentos de terra causaram o inferno em Caraguatatuba, no litoral paulista.

Choveu tanto em um dia só, o 18 daquele mês, que o pluviômetro do município saturou depois de bater em 420 milímetros. Na manhã daquele dia, começaram os deslizamentos. Houve uma avalanche de pedras, árvores e lama dos morros vizinhos à cidade. À tarde, toda a serra desbarrancou. A cidade ficou isolada. A Rodovia dos Tamoios, que lhe dava acesso, ficou destruída, com carros presos no trecho de serra. A ajuda necessária só pôde chegar via mar e ar.

A contagem oficial registrou 436 mortes. Moradores, no entanto, sempre disseram que o número foi o dobro ou até o triplo, já que muitos corpos acabaram levados pelo mar ou nunca foram encontrados debaixo da lama. A dimensão do desastre chegou a tal dimensão que saber o número de desaparecidos ficou impraticável: muitos dos que poderiam indicar essas ocorrências também haviam sumido para sempre no meio da imensa massa deslocada de terra.

Exatos 20 anos depois do lançamento do rock-denúncia da banda carioca e, como era previsto, nada tinha sido feito para evitar esse tipo de “tragédia de pobre”. O que iria mudar naquele 2011 era o recorde nacional de vítimas de desastres climáticos. Chuvas na região serrana do Rio de Janeiro entristeceriam o início de ano e tirariam a vida de pelo menos 918 pessoas. Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis foram as mais afetadas.

Agora, 11 anos depois, a semana começou com uma cabeça d’água na mesma Petrópolis e terminou com cerca de duas centenas de mortes já confirmadas e outra centena de desaparecidos.

Mas, como diz a música, é assim todo verão. Na verdade, desde o século 19. E precisamos mesmo voltar as casinhas do tempo para entender historicamente como se deu a ocupação das encostas.

Basicamente, foram esses os espaços que se deram aos escravos libertos pela Lei Áurea de 1888 e a militares que voltavam da Guerra de Canudos, em 1897, onde combateram a comunidade liderada pelo místico Antônio Conselheiro. Um povo que vivia nas imediações do Morro da Favela – nome de uma planta muito comum naquela região do interior da Bahia. Sem ter lugar na cidade “constituída” ao retornar à capital federal, foi dada aos soldados a permissão para construir moradias improvisadas no Morro da Providência. Ergueram lá os barracos que se tornaram a primeira favela do País.

Desde então, as encostas ocupadas se tornaram um problema social e ambiental que governos nunca priorizaram. Porque tirar pobre de lugar perigoso e lhe dar moradia digna é algo custoso em sentido ambíguo: é preciso enfrentar o desgaste da remoção da área de risco e também é preciso (ou deveria ser) colocá-los em um novo local, com habitação e infraestrutura adequadas.

Seja qual for a esfera – municipal, estadual ou federal –, esse tipo de processo não é prioridade de governos. Quando, enfim, ocorre alguma ação, ou ela vem depois de tragédias anunciadas ou como medida de compensação para alguma obra que a administração necessita fazer, como uma construção que obrigue o desalojamento dessas famílias.

É ano eleitoral. Candidatos ao governo federal e em cada unidade federativa vão apresentar seus projetos. Quantos darão atenção real a um problema que atinge milhões de eleitores? Porque a hora do voto é talvez o único momento em que a cidadania e a dignidade do sujeito jogado nas beiradas da cidade se equivale às de quem mora nos condomínios fechados e cercado de segurança – o caso de muitos dos candidatos que serão votados.

Talvez o grande problema, para essas pessoas, seja a eleição ser em outubro e não em fevereiro. Oito meses depois, quem vai se lembrar dos mortos de Petrópolis?

Uma resposta para “Cai água, cai barraco: Petrópolis repete tragédia que há tempos já deixou de ser acidente”

  1. Avatar Patrick Hansen disse:

    Em 1895 a tragédia foi bem pior em Petrópolis. Já estávamos em tempos de “república”. Os milhões, talvez bilhões que foram descarregados na prefeitura da cidade serviram para muitas coisas, menos para solucionar o problema. Ao contrário, os políticos da cidade (leia-se vereadores e prefeitos – e somente estes) continuam estimulando a invasão das encostas e as milhares de construções irregulares que aumentam ano a ano a olhos vistos.

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