Cadê o eleitor?

Na reta final da campanha, as ruas não vivem clima de eleição

Seja desânimo ou maturidade, uma coisa é certa: a não empolgação com o processo eleitoral é benéfico para o País

Seja desânimo ou maturidade, uma coisa é certa: a não empolgação com o processo eleitoral é benéfico para o País

Afonso Lopes

O fenômeno não é atual, mas parece que vai ganhando cada vez mais força a cada eleição. Os tempos de carros adesivados nas esquinas, camisetas, badulaques e salamaleques eleitorais se foram. Costuma-se dizer que o eleitor está desanimado. Se for isso, pode ser um ótimo sinal para a democracia brasileira. Significa, na realidade, que o cidadão começa a enxergar a política, o processo eleitoral e os políticos em geral não como times de futebol. Ou seja, os eleitores estão deixando para trás o papel de torcedores e assumindo a condição cidadã de julgadores. E para julgar bem, quanto menos envolvimento direto com as campanhas, melhor.

É claro que uma parcela da população é tão apaixonada pelos partidos e políticos como era antes. Mas essa é uma espécie de eleitor que caminha para a extinção, assim como ocorreu nos demais países democráticos do planeta. Se não para a extinção total, pelo menos para uma situação, digamos, mais exótica dentro do contexto social. Cada vez menos eleitores vão encarar emocionalmente as eleições como torcidas organizadas acompanham os campeonatos de futebol.

Amadurecimento ou decepção?

Há uma discussão sazonal após as eleições: esse distanciamento do eleitor é amadurecimento democrático ou decepção pura e simples? Há defensores de uma tese e de outra. Talvez os dois lados estejam corretos na avaliação. Os eleitores estão realmente mais maduros politicamente do que estavam nos anos de 1980 e 1990, após quase 30 anos de eleições com cartas marcadas – numa delas, o governo perdeu a maioria no Senado, mas um decreto criou uma bancada inteira de senadores nomeados. Quando veio a abertura democrática, com o retorno das eleições diretas para governadores de Estado e prefeitos de cidades consideradas de segurança nacional, em 1982, foi um “sarará meu pai” inesquecível. Logo depois, em 1989, o êxtase, o nirvana das emoções eleitorais no Brasil, com a eleição direta de presidente da República.

Esse divórcio involuntário dos eleitores brasileiros com as eleições de governadores e presidentes desaguou como água represada. E aí, a cada campanha, as ruas ficavam lotadas de paixões. Num certo sentido, e para aquela época, isso foi ótimo para consolidar a democracia. Ficou muitíssimo evidente que os eleitores gostavam de participar do processo de escolha dos governantes, e esse foi um dos aspectos que pode ter inibido qualquer possibilidade de retrocesso.

Se havia um sentido prático em colar adesivos nos carros e amarrar bandeirolas dos candidatos preferidos nas janelas de casa e dos apartamentos, dando vazão inclusive às emoções, hoje tal comportamento parece meio esdrúxulo. O eleitorado olha o carro com adesivo e imagina logo que se trata de algum assessor de político ou parente. E geralmente é isso mesmo. Nas eleições deste ano, há muito mais adesivos contra algum candidato do que a favor de alguém. É como se o torcedor do Vila Nova deixasse de adesivar um tigre no seu carro para usar apenas um periquito depenado. No futebol uma coisa dessas não faria nenhum sentido. Na política, atualmente, faz.

Quem perde?

Especialmente a partir das eleições de 2010, que teve número recorde de abstinência e eleitores que votaram branco ou anularam seus votos, surgiram inúmeras teses sobre quem ganha com esse clima eleitoral gelado nas ruas. Para muitos, ganham os governantes atuais. Para outros, ficam no lucro os candidatos que conseguem se cristalizar mais cedo. Na realidade, quem ganha é o processo como um todo.

Nos demais países democráticos, especialmente europeus e nos Estados Unidos, onde o voto não é uma obrigação, mas um direito que pode ou não ser exercido pelo cidadão, ninguém se espanta com ausência de 35 ou 40% dos eleitores nas urnas. Quando esse percentual avança para a faixa de 50% também por lá surgem alguns profetas do caos social. É bobagem. O eleitor hoje, e depois de décadas votando diretamente os dirigentes, se manifesta quando o status quo é ameaçado. Ou seja, se uma onda contrária surge como possibilidade, ele corre para as urnas. Mal comparando, seria como na convocação para o exército do país. Se não existe ameaça externa, somente alguns atendem ao chamado. Se, ao contrário, um exército adversário se acumula na fronteira e ameaça invadir a qualquer momento, não é nem necessário chamar porque vão sobrar voluntários.

Eleitoralmente, ninguém lucra com esse comportamento do eleitor. E também ninguém perde. No máximo, fica mais difícil para os candidatos fazer propagar suas bandeiras. É como se eles falassem o tempo todo e ninguém ouvisse. Não repercute. Mas é uma tremenda bobagem acreditar que o eleitor não é cada vez mais um ótimo observador. Ele está vendo tudo, acompanhando de perto e se embasando para decidir o que ele entende ser melhor. Vai errar ali, vai acertar aqui, mas certamente não julgará sob efeito de uma cegueira emocional. É melhor que seja assim.

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