Brasileira repatriada de Wuhan comenta um ano de Operação Regresso

Adrielly Eger teve a vida e a carreira profundamente impactada pela Covid-19 e se diz ansiosa pela vacina

Carreira de modelo de Adrielly Eger foi paralisada por Pandemia | Foto: Reprodução / Acervo Pessoal

Um ano atrás, no dia 05 de fevereiro, a Força Aérea Brasileira (FAB) começou a operação “Regresso à Pátria Amada Brasil”. Duas aeronaves VC-2 de transporte presidencial partiram da base aérea de Anápolis, Goiás, com paradas em Fortaleza, Las Palmas (Espanha), Varsóvia (Polônia), Ürümqi (China) e finalmente Wuhan. Os aviões carregavam 11 tripulantes e 6 profissionais de saúde da Força Aérea Brasileira (FAB), além de um médico do Ministério da Saúde. 

Às 10h15 do dia 07 de fevereiro de 2020, uma sexta-feira, as aeronaves fizeram a última parada antes de ir ao berço da recém iniciada pandemia de Covid-19. 

Naquela manhã, o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), esteve na sede do Ministério da Defesa para acompanhar as atualizações da operação e afirmou à agência de comunicação do governo: “Não existe qualquer risco para terceiros aqui no Brasil. Uma operação muito bem preparada e planejada, bem demonstra a dedicação, o empenho e o patriotismo de todos os envolvidos. [A missão] será cumprida de forma ímpar”.

As equipes de saúde envolvidas estavam capacitadas para realizar missões de defesa Química, Biológica, Radiológica e Nuclear (DQBRN). O protocolo de eventos DQ BRN consiste em empregar Meios de Força Aérea para deslocar pessoal e material que tenham sido submetidos à ação de agentes nocivos e para transportar pessoal e material especializados no combate a estes desastres.

Brasileiros resgatados na China chegam à Base Aérea de Anápolis | Foto: Reprodução / EBC

Às 13h30, horário de Brasília, os dois aviões tocaram o solo de Wuhan para resgatar os 34 brasileiros que estavam presos em quarentena no epicentro da infecção do então novo coronavírus (Sars-CoV-2). A chegada ao Brasil aconteceria à meia-noite do sábado para o domingo, dias 8 e 9.

Em coordenação com o Ministério da Saúde e com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), a Ala 2 – Base Aérea de Anápolis e os seus hotéis de trânsito foram preparados para receber os repatriados brasileiros em quarentena por 18 dias. Tanto os cidadãos resgatados pela missão quanto a tripulação e equipe médica ficaram isolados na Base Aérea de Anápolis. Todos contaram com 3 monitoramentos diários de saúde (realizados pela Secretaria de Saúde do Estado de Goiás); serviço religioso; apoio psicológico e pedagógico; emergência odontológica; primeiros socorros; e nutricionista. 

Os cidadãos em quarentena também tiveram diversas facilidades no serviço de hospedagem: internet, TV a cabo, frigobar, lavanderia, copa 24h, máquina de gelo, geladeira, helpdesk, brinquedoteca, videogame e apresentações musicais. Eles também têm acesso a seis refeições diárias. As instalações da base permitiam o isolamento em apartamentos individuais em “área branca” para quem não tem sintomas; “área amarela” para quem tem qualquer intercorrência de saúde; e, caso necessário, uma “área vermelha” para uma evacuação aeromédica para o Hospital das Forças Armadas em Brasília (DF).

O Ministério da Defesa informou que dispôs de um orçamento de R$11,2 milhões para os custos com a operação. 

Repatriada

“Foi um crescimento, apesar de todas as dificuldades e aflição que passamos”, diz Adrielly Eger sobre estar na China durante pandemia | Foto: Reprodução / Instagram

Adrielly Eger era uma modelo paranaense de apenas 19 anos quando chegou a Wuhan em novembro de 2019 para seu primeiro contrato internacional. Ela ficaria na China por três meses antes de seguir seu itinerário preparado, com destino ao Vietnã, quando o coronavírus surgiu na província de Hubei onde ela estava temporariamente. Com a quarentena, Adrielly Eger ficou presa na cidade e, sem conhecer o vírus, decidiu retornar ao Brasil após conversas com familiares e amigos.

“Lá, meu dia era corrido; eu trabalhava o tempo todo, às vezes até a noite. Hoje eu voltei para a casa de minha família e minha carreira está parada no momento”, conta Adrielly Eger. “Estou   fazendo um curso de maquiagem porque é um ramo que eu gosto bastante, mas também para ter algo a que me dedicar, pois minha carreira está parada no momento. Estamos todos aguardando a vacina para ver o que vai acontecer no futuro”.

Adrielly Eger atualmente vive em Céu Azul, cidade paranaense de 12 mil habitantes. O contraste com a metrópole de Wuhan e sua população de 11 milhões agrada a modelo, que residiu brevemente em Santa Catarina após sua chegada ao Brasil, mas conta que buscou o campo para fugir da clausura da quarentena. 

“Fiz a quarentena Wuhan e depois a de Anápolis. Achei que estaria bem, segura, que poderia sair e espairecer um pouco em Santa Catarina. Eu morava na frente da praia; achei que poderia curtir e me libertar de todo tempo que tive de ficar trancada. Mas uma semana após minha chegada teve início o lockdown, pois notificaram o primeiro caso de transmissão da Covid-19 em solo brasileiro. Então eu saí de duas quarentenas para outra longa e sem prazo para terminar. A pandemia começou e fiquei dentro de um apartamento, me sentindo muito mal emocionalmente”, diz Adrielly Eger.

A jovem conta que só conseguiu se acalmar quando foi para o interior de seu estado natal, isolada de outras pessoas, onde pôde voltar a caminhar ao ar livre. Mas o período que passou na China deixou marcas em Adrielly. “Hoje, quando eu lembro ou assisto os vídeos da operação regresso ou vejo as fotos, eu ainda choro. Minha família também chora. Foi um período muito difícil, todos sofremos juntos com as dúvidas e a aflição.”

Apesar de tudo, a modelo guarda lembranças positivas do crescimento pessoal e profissional que teve no país asiático. “Foi uma experiência única para a minha vida. Conheci muitas pessoas boas e retornar ao Brasil foi muito marcante para mim – isso tudo me fez dar valor a outras coisas além do trabalho; me fez ver o valor das pessoas que estão ao meu lado. Então, eu diria que foi um crescimento, apesar de todas as dificuldades e aflição que passamos.”

Adrielly Eger relata que tem cuidado redobrado com a higienização, máscaras, distanciamento social: “Graças à Deus, não peguei Covid-19 até hoje e nenhum familiar morreu pela doença. Nos cuidamos muito. Vejo muitas pessoas falando que têm medo de tomar a vacina. Eu penso o contrário: é a única coisa que vai me fazer sentir segura de novo e trazer tudo de volta ao normal. Estou esperando muito por esse momento. Depois de tudo que passei, receberei a vacina e esse será um momento muito forte para mim. Espero por isso desde que fiquei presa em Wuhan. Algo que pudesse tirar de mim o medo do vírus”. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.