Brasil perdeu 15,7% da superfície coberta com água em 30 anos

Retração da superfície coberta com água no Brasil foi de 15,7% desde o início dos anos 90, caindo de quase 20 milhões de hectares para 16,6 milhões de hectares em 2020

Registro da seca em Sobradinho (BA) | Foto: Wikimedia Commons

O Projeto de Mapeamento Anual do Uso e Cobertura da Terra no Brasil (MapBiomas) gerou um relatório de dados chamado “Água”. Nesta série, foram processadas mais de 150 mil imagens geradas pelos satélites Landsat 5, 7 e 8 de 1985 a 2020, com o objetivo de compreender o que está havendo com a superfície de água em todas as regiões do país. Os resultados encontrados apontam para uma marcha nacional em direção à seca. No Cerrado, a água natural, de rios livres, está perdendo espaço para a água antrópica com reservatórios. Há uma combinação de regiões com redução e outras com aumento de superfície de água em barragens no Cerrado, levando a uma leve perda de superfície da água neste bioma.

Ao todo, a retração da superfície coberta com água no Brasil foi de 15,7% desde o início dos anos 90, caindo de quase 20 milhões de hectares para 16,6 milhões de hectares em 2020. Embora essa área seja equivalente ao estado do Acre ou quase 4 vezes o estado do Rio de Janeiro, desde 1991, quando chegou a 19,7 milhões de hectares, houve uma redução de 15,7% da superfície de água no país. A perda de 3,1 milhões de hectares em 30 anos equivale a uma vez e meia a superfície de água de toda região nordeste em 2020. 

A perda da superfície de água natural por causa da água armazenada em estruturas construídas pelo homem tem consequências preocupantes na alteração do regime hídrico, afetando a biodiversidade e a dinâmica dos rios. Há ainda dezenas de outras barragens projetadas para esta região, com pouca contribuição para o sistema elétrico e um grande potencial de impactos.

Em entrevista ao Jornal Opção, Andre Amorim, à frente do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), afirma que vários fatores explicam a seca, como o fenômeno meteorológico La Niña, o avanço no desmatamento e o próprio aquecimento global. “Esses fatores se somam a um modelo de produção agropecuária que altera o regime de drenagem da água e intensifica a deposição de sedimentos, reduzindo a vazão da água. Se isso não for revisto, o abastecimento de água estará comprometido”, explica Andre Amorim. Infelizmente, as ferramentas de modelagem do Cimehgo não apontam um prognóstico positivo e as chuvas regulares capazes de reabastecer reservatórios e lençóis freáticos ainda estão distantes

Enes Gonçalves Marra, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) que pesquisa a aplicação da Eletrônica de Potência no aproveitamento de fontes renováveis de energia, afirma: “Várias medições ao longo da última década vêm apontando para uma seca prolongada e nenhuma atitude foi tomada. A Agencia Nacional de Águas (Ana), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) todos já emitiram diversos relatórios e alertas sobre isso, mas nenhum governo se dispôs a fazer um planejamento de uso compartilhado da água.”

Enes Gonçalves afirma: “conseguimos jogar fora nossos mananciais e bacias por pura má gestão” | Foto: Reprodução/UFG

O engenheiro afirma que a questão não é apenas energética, não é nem mesmo hídrica – o problema é de gestão hídrica. Enes Gonçalves Marra diz que Brasil é o terceiro país do mundo com mais água doce disponível no mundo, e que falar sobre crise hídrica no Brasil é um atestado de incompetência. “Nós conseguimos jogar fora nossos mananciais e bacias por pura má gestão. Precisamos planejar, executar o que planejamos e fiscalizar. É necessário acompanhar melhor a irrigação e o desmatamento. A vegetação é que faz as chuvas através da evapotranspiração, além de conter o assoreamento dos rios. Estamos pagando o preço pela nossa imprudência ambiental e incapacidade de respeitar o que planejamos. Agora, estamos presos em uma conversa inócua sobre privatização versus estatização, sendo que não adianta empurrar o problema para outra empresa ou gestão governamental: é necessário planejar, regular, e fiscalizar como política de Estado. Não podemos continuar lidando de forma emergencial com crises uma atrás da outra”.

O coordenador do MapBiomas Água, Carlos Souza Jr., comenta que o resultado é bastante preocupante porque o sinal de tendência de redução de água no Brasil, com os dados de satélites, é bem claro. “As evidências vindas do campo já indicam que as pessoas já começaram a sentir o impacto negativo com o aumento de queimadas, impacto na produção de alimentos, e na produção de energia, e até mesmo com o racionamento de água em grandes centros urbanos”, alerta.

Segundo o pesquisador, são vários fatores que podem explicar a redução de superfície de água no Brasil nos últimos 36 anos. “A dinâmica de uso da terra baseada na conversão da floresta para pecuária e agricultura interfere no aumento da temperatura local e muitas vezes altera cabeceiras de rios e de nascentes, podendo também levar ao assoreamento de rios e lagos. A construção de represas em fazendas para irrigação, bebedouro ao longo de rios diminui o fluxo hídrico; e, em maior escala, as grandes represas para produção de energia, com extensas superfícies de água sujeitas a processos de evapotranspiração que leva a perda de água para atmosfera”, diz. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.