Brasil ameaça a vacinação mundial contra a Covid-19

Cientistas explicam que o coronavírus tem uma oportunidade de sofrer mutações a cada vez que se replica – com 13.3 milhões de casos confirmados no Brasil, não faltam chances para que o vírus evolua e torne-se esquivo às vacinas 

Dose de vacina contra o novo coronavírus. | Foto: Miguel Noronha, Agência F8/Reprodução

O surgimento de variantes do coronavírus – B.1.1.7 no Reino Unido, B.1.351 na África do Sul, D614G no Brasil, México e Europa – despertou a preocupação de que as mutações possam fazer com que o vírus escape da imunidade resultante de reinfecção ou vacinação. Enquanto estudos preliminares realizados pelo Instituto Butantan sugerem que a vacina desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac pode neutralizar as variantes surgidas até agora, as condições no Brasil são ideais para o aparecimento de cepas que façam a imunologia voltar à estaca zero contra a Covid-19.

Segundo os biólogos ouvidos, a relutância de autoridades em impor um lockdown e rastreio de contágio que reduzam a taxa de infecção no país fazem com que haja muitas oportunidades para o vírus mutar e se recombinar. Enquanto isso, a lenta vacinação parcial cria uma pressão de seleção para o vírus – há uma enorme recompensa do ponto de vista evolutivo para aquela cepa de Sars-CoV-2 que conseguir escapar da imunização dos vacinados. Uma variante que fuja à vacina poderia se espalhar rapidamente sobre suas concorrentes.

Essas condições fizeram a imprensa internacional categorizar o Brasil como: “Uma ameaça global à saúde”, “um problema mundial”, “uma porta aberta para variantes letais”. Cepas mutantes, que têm chances e estímulos para surgir aqui, poderiam se espalhar para países que (ao contrário do Brasil) se empenharam em controlar o contágio e investiram em vacinação, colocando a perder seus esforços.

Mellanie Fontes-Dutra, biomédica doutora em neurociência e divulgadora científica, afirmou sobre a questão: “Quando falamos que o Brasil pode ser um celeiro de novas variantes, não estamos prevendo o futuro – isso é o nosso presente. Nesta quarta-feira, 7, duas notícias de novas variantes foram divulgadas (P.4 e N.10)”. A cientista lembra que apenas o uso de máscaras eficientes (como as PFF2) bem aderidas ao rosto e o distanciamento físico podem resolver a situação a curto prazo. 

CoronaVac sob escrutínio

Foto: Reprodução

Em uma tentativa de medir a resistência dessas variantes à neutralização induzida por infecção ou vacinação, um estudo foi realizado sob coordenação do Ph.D. Guo-Lin Wang, do Beijing Institute of Microbiology and Epidemiology e publicado no New England Journal of Medicine

A proteína spike da cepa de referência do coronavírus foi comparado com as variantes D614G, B.1.1.7 e B.1.351. Ao submeter o soro convalescente de 34 pacientes 5 meses após a infecção com doença, bem como o soro de 50 participantes obtido 2 a 3 semanas após o recebimento da segunda dose de vacinas CoronaVac e Sinopharm, pesquisadores puderam mensurar as resistências geradas pelas vacinas às diferentes mutações do coronavírus. 

Primeiro, cientistas perceberam concentrações de anticorpos neutralizantes semelhantes no soro obtido de pacientes convalescentes e vacinados. Este é um mau sinal, pois sugere uma baixa resposta após a imunização induzida por duas doses, já que se espera uma resposta imunológica mais forte dos vacinados. 

Em seguida, cientistas avaliaram as atividades neutralizantes dos sistemas imunológicos dos voluntários contra as variantes em comparação com o vírus de referência. O soro convalescente (dos não-vacinados) foi significativamente mais eficaz do que o soro dos vacinados na neutralização do vírus D614G, teve um efeito semelhante na neutralização do B.1.1 .7, e foi significativamente menos eficaz na neutralização do vírus B.1.351. A baixa proteção fornecida pelas vacinas a uma das variantes de coronavírus é um fator altamente preocupante para a comunidade científica.

“Nossos achados sugerem que B.1.1.7 mostrou pouca resistência à atividade neutralizante do soro convalescente ou vacinado, enquanto B.1.351 mostrou mais resistência à neutralização tanto do soro convalescente quanto do soro vacinado do que o vírus do tipo selvagem”, escrevem os pesquisadores no artigo publicado. “A maioria das amostras de soro dos vacinados que foram testadas perderam atividade neutralizante. Nossos resultados também destacam a importância do monitoramento viral sustentado e da avaliação da eficácia protetora das vacinas em áreas onde as variantes estão circulando”.

Novas variantes 

Ala de hospital com pacientes de Covid-19 | Foto: Reprodução

Segundo a Rede Vírus do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) – Comitê que reúne especialistas, representantes de governo, agências de fomento do ministério, centros de pesquisa e universidades com o objetivo de integrar iniciativas em combate ao coronavírus – uma nova variante do coronavírus foi encontrada em Belo Horizonte (MG) nesta quarta-feira.

Os cientistas da Universidade Federal de Minas Gerais e da Universidade Federal do Rio de Janeiro sequenciaram 85 genomas de SARS-CoV-2 de amostras clínicas coletadas da região metropolitana da capital mineira. Reunindo 18 mutações de preocupação e interesse, essa variante  denominada de P.4 compartilha semelhanças com as linhagens P.1, P.2 e B.1.351. “Precisamos controlar a transmissão”, diz Mellanie Fontes-Dutra. “Até o momento estamos vendo que vacinas são eficazes, mas com esse rápido surgimento de novas variantes, estamos correndo o risco de ver o surgimento de variações que ponham a imunização em cheque.”

As “Variantes de Preocupação” (VOC – Variant of Concern, em inglês) são aquelas que apresentam mutações associadas a uma maior transmissibilidade ou ao escape do sistema imunológico, por exemplo. De acordo com o pesquisador Rafael dos Santos Bezerra, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universitade de São Paulo (USP), no momento, são consideradas variantes de preocupação as cepas do Reino Unido (B.1.1.7), do Brasil, com origem em Manaus (P.1), e da África do Sul (B.1.351 ou 501.V2). 

Por acumularem mutações como as N501Y, E484K e K417T, capazes de modificar a estrutura da proteína S, utilizada pelo vírus para infectar as células humanas, essas três variantes são consideradas atualmente as mais relevantes pela comunidade científica global. As mutações na proteína S podem tornar o vírus menos suscetível à resposta imunológica esperada pelas vacinas. 

Segundo Paulo Verardi, professor associado de Virologia e Imunologia na University of Connecticut, Estados Unidos, as variantes são preocupantes por vários motivos. Em primeiro lugar, as variantes do SARS-CoV-2 preocupantes geralmente se propagam de pessoa para pessoa pelo menos 20% a 50% mais facilmente. Isso permite que infectem mais pessoas e se espalhem mais rápida e amplamente, tornando-se a cepa predominante.

Por exemplo, a variante B.1.1.7 do Reino Unido que foi detectada pela primeira vez nos EUA em dezembro de 2020 é agora a cepa circulante predominante nos EUA, sendo responsável por cerca de 27,2% de todos os casos em meados de março. Da mesma forma, a variante P.1 detectada pela primeira vez em viajantes do Brasil em janeiro agora está causando estragos no Brasil, onde está causando um colapso no sistema de saúde e causou pelo menos 60.000 mortes no mês de março.

Em segundo lugar, as variantes preocupantes do SARS-CoV-2 também podem levar a doenças mais graves e aumento de hospitalizações e mortes. Em outras palavras, eles podem ter aumentado a virulência. De fato, um estudo recente na Inglaterra sugere que a variante B.1.1.7 causa doenças mais graves e mortalidade.

Paulo Verardi afirma que, embora as vacinas possam prevenir a Covid-19 moderada e grave, em particular hospitalizações e mortes, é imperativo presumir que as variantes atuais do Sars-CoV-2 continuarão a evoluir e se adaptar. Em uma pesquisa recente com 77 epidemiologistas de 28 países, a maioria acreditava que dentro de um ano as vacinas atuais poderiam precisar ser atualizadas para lidar melhor com novas variantes, e que a baixa cobertura vacinal provavelmente facilitará o surgimento de tais variantes.

“O que precisamos fazer?”, pergunta Paulo Verardi. “Precisamos continuar fazendo o que temos feito: usar máscaras, evitar áreas mal ventiladas e praticar técnicas de distanciamento social para retardar a transmissão e evitar novas ondas impulsionadas por essas novas variantes. Também precisamos vacinar o máximo de pessoas em tantos lugares e o mais rápido possível para reduzir o número de casos e a probabilidade de o vírus gerar novas variantes e escapar de mutantes. E, para isso, é vital que as autoridades de saúde pública, governos e organizações não governamentais abordem a hesitação e a equidade da vacina tanto local quanto globalmente.”

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