Cientistas criticam tentativa de Bolsonaro de controlar dados sobre desmatamento

Negação de dados do Inpe alerta comunidade científica para convicções políticas à prova de argumentos

Ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes exonerou Ricardo Galvão | Foto: Bruno Peres/MCTIC

No dia 2 de agosto, após reunião entre ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foi confirmada a exoneração do responsável pelo instituto. Em uma declaração de mea culpa a jornalistas em Brasília, o diretor Ricardo Galvão assumiu a responsabilidade pela “situação de perda de confiança” criada pela maneira como se expressou, e disse entender a decisão de exonerá-lo. 

No início de julho, diante da publicação de evidências de aumento no desmatamento da Amazônia, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que a divulgação destes dados prejudicava o Brasil em suas relações exteriores. O presidente também alegou que Ricardo Galvão deveria estar “agindo a serviço de alguma ONG”, e que os dados eram mentirosos. O ex-diretor rebateu as acusações: “Temos a maior série histórica de dados de desmatamento de florestas tropicais respeitada mundialmente. Tenho 48 anos de serviço público e nunca recebi nada mais do que além do meu salário com o servidor público. [Bolsonaro] disse que os dados do Inpe não estavam corretos segundo a avaliação dele, como se ele tivesse qualificação para fazer análise de dados.”

O ministro Marcos Pontes, a mando de Jair Bolsonaro, demitiu Ricardo Galvão pela situação de animosidade, mas não questionou a correção dos dados do Inpe. O próprio presidente afirmou: “Você pode divulgar os dados, mas tem que passar pelas autoridades até para não ser surpreendido. Até por mim, eu não posso ser surpreendido por uma informação tão importante como essa daí”. Segundo Ricardo Galvão, ficou acordado que o Inpe não será penalizado pela situação e um novo diretor foi apontado.

Um ponto, entretanto, parece ter sido atropelado e esquecido: os dados do Inpe estavam ou não corretos? Como é possível que acusações de falsificação de imagens de satélite pelo Inpe sejam preteridas por conta de ânimos políticos exaltados? Os dados que alarmaram o governo indicam aumento de 88% e 278% na taxa de desmatamento de junho e julho, em relação ao mesmo período do ano passado. 

Bolsonaro Inpe Dados Desmatamento

Laboratório de Integração e Testes (INPE) | Foto: Divulgação / INPE

Verdadeiro ou falso

Para determinar a veracidade ou fundo político das informações, pode-se comparar as imagens usadas pelo Inpe com as de outros serviços de satélites, de outros países. Entretanto, “o método do Inpe é seguro porque é baseado em inspeção visual. Eles checam visualmente imagens de satélites com intérpretes treinados e fazem comparação de áreas florestais com áreas desmatadas”, afirma Leandro Parente, pesquisador do Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento da Universidade Federal de Goiás (Lapig-UFG).

A fonte da confusão parece ter sido o sistema utilizado para se medir o desmatamento. O Prodes é a unidade de medida utilizada para acompanhar o desmatamento, este só será publicado em novembro. O aumento no desmatamento foi noticiado com base no sistema Deter (Desmatamento em Tempo Real), um projeto que tem função de alertar a autoridades, orientar ações de fiscalização, descobrir o desmatamento no momento em que acontece.

Segundo Leandro Parente, há correlação entre alertas do Deter e desmatamento, mas a medida não deve ser usada para comparação histórica | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Leandro Parente explica: “O Deter é focado em alertas, não contabiliza o desmatamento anual. O aumento noticiado (88% e 278%) diz respeito à quantidade de alertas, não à área devastada. O número de alertas tem alta correlação com desmatamento, mas não é a mesma coisa”. Enquanto um alerta pode significar desmatamento ilegal, ele não é utilizado para acompanhar a preservação, já que pode ser espúrio. 

O cientista, que trabalha com imagens de satélite em seu doutorado, lembra que outro fato complicador é que a tecnologia usada por Prodes e Deter é a mesma, mas os objetivos dos programas são diferentes. Além disso, o cientista afirma: “Um alerta acontecido em maio pode ser notado pelo Inpe apenas em julho. O dado com certeza não está sendo inventado, não há como distorcer os números, mas há uma margem de erro”.

Enquanto o sistema Deter utiliza imagens do satélite sino-brasileiro Cbers (China–Brazil Earth Resources Satellite), o Prodes se baseia em dados do satélite americano Landsat. Considerando a área da Amazônia, é necessário um esforço conjunto para monitorar toda floresta. Outros serviços também fotografam a região da floresta tropical, como o World Map, da universidade de Maryland, e podem ser utilizados para cruzar dados, verificando a veracidade ou não dos dados do Inpe. 

Método histórico

Bolsonaro Inpe Dados Desmatamento

Engenheiro agrônomo Anatoly Kravchenko utiliza satélites para monitorar desmatamento | Foto: Italo Wolff / Jornal Opção

Anatoly Kravchenko trabalhava com aerofotografias desde antes do lançamento dos primeiros satélites. Professor aposentado da Escola de Agronomia da UFG, o russo naturalizado brasileiro fazia fotografias do solo através da porta aberta de ultraleves e aviões bimotores durante a década de 1960. “Tinha o problema da distorção das margens da fotografia e dificuldades com escala. Além disso, nós tínhamos de fazer várias fotos e montá-las em um grande mapa.” Na década de 1970, Kravchenko tinha de solicitar às forças armadas americanas autorização para comprar imagens dos primeiros satélites em órbita.

Hoje, com aproximadamente 1900 satélites rodeando a terra, o trabalho de Anatoly Kravchenko se tornou mais fácil. Ele compra as imagens de satélites americanos, coreanos, brasileiros e as processa em seu computador, em busca de ocupações ilegais na área ambiental. Segundo ele, “qualquer um consegue observar o avanço, dia após dia, do desmatamento. Não há mais como esconder. Será que as autoridades não veem isso? É claro que veem. Podemos enxergar com precisão de até 30 centímetros, acompanhando com atualizações diárias a queda de cada árvore.”

O especialista em georreferenciamento lembra que não é preciso ir à Amazônia para encontrar as irregularidades. “No parque estadual Serra de Caldas podemos ver ocupação na fralda da serra, que a lei proíbe de ser desmatada. Em volta do reservatório João Leite percebemos como está tudo ocupado com fazendas. Notamos como a terra é carregada para dentro da água num processo de assoreamento que acompanha a correnteza. Está escancarado para autoridades que queiram ver e tomar alguma atitude”.

Controle dos dados

A sinalização da intenção de Jair Bolsonaro de controlar a divulgação dos dados, portanto, é limitada. Enquanto as análises e as fotografias do acompanhamento ambiental por satélite são divulgados publicamente na plataforma Terra Brasilis, outros serviços fazem o monitoramento. É possível fechar a plataforma e dificultar o trabalho do processamento das imagens, o que dificultaria o entendimento das informações pelo público, mas não a impossibilitaria. 

O que analistas de georreferenciamento como Anatoly Kravchenko fazem ao comprar imagens de serviços satelitários é adquirir uma grande quantidade de dados, em diversas bandas espectrais – diversas informações em várias faixas de luz eletromagnética. A informação é convertida para a faixa do visível conforme o interesse do cientista e transforma-se em uma fotografia de luz natural, mas que na verdade possui muito mais detalhes ocultos. 

“Eu posso misturar as bandas espectrais e encontrar coisas que procuro. Alguns materiais refletem mais ou menos ondas de radar, por exemplo. A onda de radar não tem problema de nuvens, o que a torna ideal para ver a floresta amazônica, mas sua resolução é diferente”, exemplifica Anatoly Kravchenko. 

A plataforma Terra Brasilis, que facilita o entendimento por parte da população, é o que está sob jurisdição governamental. “O que seria possível fazer é fechar a plataforma”, diz Leandro Parente, especulando sobre o pedido de Jair Bolsonaro de receber primeiro os dados alarmantes do Inpe. “Você pode comprar imagens de outros satélites, mas o processamento para entender o desmatamento é trabalhoso”.

Repercussão na comunidade científica 

Cientista critica Bolsonaro Inpe Dados Desmatamento

Representante da SBPC Goiás afirma que desvalorização da ciência é um projeto | Foto: Reprodução / Ubes

A comunidade científica reagiu à exoneração de Ricardo Galvão de forma uníssona. Márcia Pelá, secretária regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência Goiás, afirma: “Fazemos um trabalho científico sério e vemos mais um ataque que vai levar o Brasil ao obscurantismo. O presidente rebate ciência com achismo. A quem interessa não apresentar dados públicos? Isso é uma escolha política, uma estratégia.”

Márcia Pelá lembra que a ciência não representa a verdade absoluta, mas dados alcançados com metodologia científica apontam fatos com mais confiabilidade do que outros métodos. “Se houvesse outros dados, outra linha de pensamento… mas não há. O que vemos é um projeto de desacreditar a ciência para que a convicção de um grupo valha tanto quanto o trabalho duro de outro”.

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência encaminhou à Presidência da República uma moção em defesa do Inpe no dia 01 de agosto. No documento se lê: “Em ciência, os dados podem ser questionados, porém sempre com argumentos científicos sólidos, e não por motivações de caráter ideológico, político ou de qualquer outra natureza. Desmerecer instituições científicas da qualificação do INPE gera uma imagem negativa do País e da ciência que é aqui realizada. Manifestamos nossa preocupação com as ações recentes que colocam em risco um patrimônio científico estratégico para o desenvolvimento do Brasil e para a soberania nacional.”

Marcos Marinho afirma que radicalização de Bolsonaro é um apelo a sua base | Foto: Reprodução / Twitter

O cientista político Marcos Marinho especula sobre a origem do descrédito na ciência, visto nos últimos anos. “Com o avanço das tecnologias, qualquer pessoa pode ter voz e reverberar sua opinião; pode jogar qualquer ideia maluca no Google e encontrar outros que pensam como ele. Não é necessário fazer ciência trabalhosa para entrar na discussão, o embate do senso comum está legitimado pelo número de pessoas que acreditam em uma ideia (mesmo que maluca) contra cientistas especializados, que progridem lentamente em suas descobertas. 

Segundo Marcos Marinho, a estratégia do presidente com seu recente disparar de controvérsias é cristalizar cada vez mais a base que o elegeu. Na visão do cientista político, aqueles que votaram em Bolsonaro por antipetismo estão indo em direção a outras figuras mais moderadas, como João Dória. Neste sentido, o presidente é reforçado por radicalizar seu discurso: “Bolsonaro não compõe com ninguém. Faz um governo fraco de ministros fracos e propostas que não se apresentam. A reforma da Previdência e novo Código Tributário têm sido encabeçados por Rodrigo Maia. A esquizofrenia tem sido um último recurso”, finaliza.

2 respostas para “Cientistas criticam tentativa de Bolsonaro de controlar dados sobre desmatamento”

  1. Guilherme disse:

    Quem controla esses dados são vocês, cientistas, com suas agendas políticas de interesses escusos…

  2. ziro disse:

    É óbvio que estão avançando sobre a amazônia, aquelas terras valem uma fortuna….

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.