Barriga solidária: técnica de reprodução baseada em um ato de amor

Há limites para maternidade? Mesmo enfrentando dilemas éticos e legais de gestação de um filho, há histórias que provam que vale a pena o desejo de ser mãe

Aos 14 anos, Luciana Salatiel foi diagnosticada com hipoplasia uterina. A doença afeta o desenvolvimento do útero, impedindo o seu crescimento. Nessa idade, Salatiel tinha um terço do tamanho do útero de uma criança. Não havia nada que os médicos pudessem fazer para conseguir fazer o órgão voltar a se desenvolver. Com esse diagnóstico veio uma certeza: Lu não poderia gerar um filho. 

Lu Salatiel entendeu esse diagnóstico como um aviso de Deus. Se ela não poderia gerar filhos, de certo é porque Ele não gostaria que ela os tivesse. E de forma madura, ela começou a trabalhar dentro de si essa realidade. 

Apesar do sentimento de frustação e impotência que ao longo de sua vida muitas vezes a afastou de rodas de conversas com suas amigas que já eram mães, Salatiel vivia em paz com o fato de que não seria mãe. Mas essa verdade tão absoluta, passou a ser questionada quando com 11 anos de casada, seu marido sugeriu que eles tentassem ter um filho de alguma outra forma.

“Ele sempre disse que queria ser pai, que era um sonho muito grande dele”, conta Salatiel. A primeira alternativa que eles pensaram foi de fazer fertilização in vitro na irmã de Lu. “Minha irmã sempre disse, desde a adolescência, que ela teria os filhos dela e os sobrinhos”, conta. 

O que Salatiel e o marido iriam tentar fazer é conhecido como barriga solidária. No Brasil, não existe proibição para a prática, mas ainda não há nenhuma legislação a respeito e o assunto é ainda visto com muito preconceito por quem não conhece o assunto. 

A barriga solidária é diferente da barriga de aluguel. Mais conhecida e divulgada, contudo, estritamente proibida no Brasil, a maternidade por substituição ou como é mais conhecida, a barriga de aluguel, é quando se firma um contrato em que uma mulher aceita engravidar e dar à luz a uma criança que vai ser criada por outros. Nesse contrato que é firmado, a mulher receberá um pagamento para gestar o filho, além de ter todas as despesas da gravidez custeadas por quem a contrata. 

No Brasil, de acordo com a Constituição, a barriga de aluguel é considerada ilegal. A prática se enquadra na Lei de Transplantes (9434/97, artigo 15), no qual é proibido a venda de órgãos, tecidos e partes do corpo. A barriga de aluguel também é vedada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).

Em outros países essa prática já é bem mais conhecida. Os Estados Unidos, a Grécia, a Ucrânia e a Albânia permitem até mesmo que pessoas de outros países contratem o serviço de uma barriga de aluguel. Foi o caso do ator Paulo Gustavo e de seu marido, Thales Bretas, que contrataram os serviços de uma barriga de aluguel nos Estados Unidos para gerar seus filhos. 

Já a barriga solidária, como o próprio nome diz, é quando uma mulher concede seu útero para gerar o filho de outra pessoa sem receber por isso. É um ato de generosidade. Os únicos custos arcados, são as consultas médicas e os exames necessários durante a gravidez.

Para realizar a barriga solidária no Brasil, o processo é longo. Tudo começa com um médico especialista em fertilização. A mulher que se propor ceder o útero deve ter entre 18 e 50 anos, ter um filho vivo, ser saudável e ser parente de até quarto grau da mulher que fornecerá os óvulos, ou seja, a mãe biológica da criança. Quando nenhuma mulher da família se encaixa nas exigências, os pais podem tentar encontrar uma amiga que queria gerar a criança. Neste caso, uma série de documentações será exigida pelo CFM. Para conseguir o consentimento do Conselho, tanto os pais biológicos quanto a pessoa que será a barriga solidária deveram fazer exames e testes psicológicos para conseguir o consentimento do CFM. 

Lu Salatiel e o marido, Lucianno de Mendonça, implantaram em 2011 o primeiro embrião na irmã de Lu, Raquel. As expectativas eram altas, uma vez que Raquel já tinha tido filhos, era saudável, além de ser parente de Lu. Porém, o Beta positivo não veio. Diante da desilusão, o casal decidiu tentar outro caminho, o da adoção. 

Foram cinco longos anos no processo de adoção. Lu e o marido não colocaram nenhuma exigência sobre como queriam a criança. Eles não especificaram uma idade, nem mesmo pediram que a criança fosse saudável, mas mesmo assim, só para de fato entrarem na fila de adoção foram dois anos.

Lu definiu o processo de adoção como “dolorido, traumático e demorado”. No final do quinto ano na fila de espera, eles decidiram tentar novamente a barriga solidária. Porém, eles tinham mais um desafio. Sua irmã Raquel tinha sofrido um acidente grave e não poderia mais gerar os sobrinhos. Sendo assim, Lu e o marido partiram em busca de alguma amiga que pudesse ser a barriga solidária.

Para a surpresa de Lu, a namorada de seu sobrinho, Alana Cristina, ofereceu ser a barriga solidária. Ela já havia tido um filho e sempre viu a prática como ato lindo de amor. Com isso, o processo de fertilização in vitro foi feito no dia oito de agosto de 2017. No dia 18 do mesmo mês, veio a notícia que Lu e Lucianno esperavam há tantos anos: eles seriam pais.

Os noves meses que se seguirão foi de muita empolgação, mas também de apreensão e medo, porque Lu descobriu um câncer de mama durante a gestação. Porém, no dia 18 de abril de 2018, Pedro, o sonho tão aguardado do casal, se tornou realidade. E Lu Salatiel pode ver com os próprios olhos que ela poderia sim ser mãe.

Ver o Pedro diante de seus olhos foi uma sensação inexplicável. “A ficha só cai quando o médico coloca o bebê nos seus braços”, conta. Lu lembra da felicidade contagiante de seu marido. “Ele parecia o bobo da corte”, disse. Alana permaneceu com o casal até que o tratamento de Lu acabasse, para ajuda-la durante esses dias. Os obstáculos pareciam terem acabado, mas infelizmente, no Brasil, quem tem filhos de forma não-convencional está arriscado a sofrer preconceitos, principalmente de religiosos.

“Uma vez uma pessoa me disse que o meu filho não tinha alma, porque ele não tinha sido feito por Deus”, afirma Lu. Esse foi, segundo Lu, o comentário mais forte que ela já recebeu a respeito de seu filho. Mas não foi o único. 

Diante de tanta desinformação e preconceito a respeito da barriga solidária, Lu decidiu criar um canal no YouTube e contar sua história por meio de vídeos e na sua conta do Instagram. Sua luta é para conseguir criar uma lei que torne legal e mais viável a barriga solidária. Dentre seus principais oponentes, estão a bancada religiosa no Congresso.

A campanha de Lu Salatiel e sua história já alcançam mais de 65 mil pessoas só no Instagram. Apesar dos preconceitos e ataques que recebe, ela continua lutando para que mais pessoas que como ela, achavam que não poderiam ser mãe, descubram que esse desejo pode sim se tornar realidade. 

A rede de apoio se estabeleceu de uma forma tão forte que foi por meio do Instagram que a Lu conheceu Luciene Melo, a mulher que se tornaria a sua segunda barriga solidária. 

Melo e Salatiel se tornaram amigas depois de trocarem várias mensagens ao longo dos anos, e quando Luciene soube que Lu estava tentando ser mãe mais uma vez, ela se ofereceu. Hoje ela está grávida de 27 semanas e espera o Lucas.

 Para tentar tirar os estigmas que envolvem a barriga solidária, Luciene e Lu gravam conteúdos em que contam como anda a gravidez e quais os sentimentos envolvidos. Melo deixa bem claro que ama a criança que está gerando, mas que em momento algum os sentimentos dela se confundem e fazem ela pensar que o filho que gera é dela. “É uma chavinha que muda na sua cabeça”, relata. 

A respeito da criação de uma lei jurídica sobre a prática de barriga solidária, o Conselho Federal deu início ao processo. Os próximos passos devem ser demorados, mas que com certeza vão contribuir para que histórias como a de Lu Salatiel ganhem mais espaço e levem esperança para quem deseja ter um filho, mas não pode.

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