Avanço do coronavírus no interior e na periferia põe fim da quarentena em xeque

Plataforma da UFG mostra que a Covid-19 está se espalhando. Impacto da flexibilização do isolamento social começa a ser sentido esta semana

O avanço do coronavírus detectado pela Plataforma Covid Goiás, da UFG

A disseminação do coronavírus nos municípios do interior e na periferia de Goiânia, concomitantemente ao crescimento no número de casos notificados de Covid-19, coloca em xeque a flexibilização da quarentena em Goiás. O impacto do retorno de várias atividades econômicas, a partir do dia 22 de abril, com a consequente queda do nível de isolamento social, começará a ser percebido nesta semana – e se prolongará por, pelo menos, mais uma.

É que o período entre a contaminação pelo coronavírus Sars-CoV-2 e a manifestação de sintomas, que leva à procura da rede de saúde e, em cerca de 10% dos casos, a quadros graves, varia entre 10 a 15 dias. Portanto, o reflexo da reabertura de empresas que estavam fechados deve ser sentido a partir do dia 2 de maio, com intensificação durante as duas próximas semanas.

“Uma coisa é abrir o comércio. Outra, são as pessoas agirem como se nada estivesse acontecendo”, alerta o infectologista Boaventura Braz de Queiroz, do Hospital de Doenças Tropicais (HDT). Ele lembra que a retomada das atividades não exclui as medidas de proteção individual, como a higienização das mãos (com água e sabão ou álcool em gel), uso de máscara (que se tornou obrigatório em Goiás) e não aglomeração.

A superintendente de Vigilância em Saúde da Secretaria de Saúde de Goiás, Flúvia Amorim, diz que, a partir do relaxamento da quarentena, é preciso atenção ao novo cenário. “O desafio é o monitoramento de casos e a disponibilidade de leitos [nos hospitais]. É preciso evitar que a demanda seja maior que a capacidade”, diz. Segundo Flúvia Amorim, com a ocupação abaixo de 80%, o Estado ainda tem fôlego para agir.

O coronavírus chega a cada vez mais bairros de Goiânia | Foto: Reprodução Plataforma Covid Goiás / UFG

A grande preocupação é com o aumento da mortalidade, que é o último estágio do ciclo da doença. Primeiro, ocorre a elevação do número de casos, posteriormente, o de internações. Somente depois começam a ser registradas mais mortes. Outro problema é que os testes, por enquanto, estão feitos em pessoas com sintomas.

Atualmente, o Laboratório Central (Lacen) tem capacidade para realizar 250 testes por dia, mas, segundo Flúvia Amorim, tem operado abaixo da capacidade. Depois que o material chega ao laboratório, o Lacen tem entregado 50% dos resultados em até 72 horas – o restante, em até sete dias.

Conforme lembra o infectologista Boaventura Braz de Queiroz, a subnotificação é uma realidade. Ele lembra que um estudo da Universidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, revelou que, para cada caso de Covid-19 confirmado no Brasil, existem oito não registrados. “Não temos noção de quantas pessoas estão assintomáticas”, diz.

A flexibilização da quarentena, segundo Boaventura, ocorre em um momento de aceleração da doença no Brasil. “Já estamos no pico em cidades como São Paulo, Manaus e Fortaleza, que estão enfrentando a falta de UTIs [Unidades de Terapia Intensiva]”, cita.

Plataforma da UFG acompanha os casos

Em Goiás, o relaxamento das medidas de isolamento coincide com o avanço das infecções pelo coronavírus no interior e na periferia de Goiânia. O professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) Diego Tarley, que colabora com o Laboratório de Processamento de Imagens e Georreferenciamento (Lapig), fez, a pedido do Jornal Opção, o levantamento da linha histórica da doença em Goiás.

A velocidade com que o vírus se espalha impressiona. Em 12 de março, dia em que a UFG lançou a Plataforma Covid Goiás – cujo grupo de pesquisadores é coordenado pelo professor Manuel Eduardo Ferreira – havia três casos notificados em Goiás: dois em Goiânia, um em Rio Verde. Quatro dias depois, os registros já haviam triplicado e Anápolis entrou no rol dos municípios com circulação do coronavírus. Até o fim de março, mais nove municípios entraram na lista: Aparecida de Goiânia, Jataí, Catalão, Valparaíso de Goiás, Silvânia, Luziânia, Águas Lindas de Goiás, Itumbiara e Paranaiguara. Na quinta-feira, 30, havia registros em 56 cidades goianas.

Em Goiânia, o mesmo fenômeno ocorre. No dia 12 de abril, quando a plataforma da UFG começou a divulgar os dados por bairros, os casos de concentravam nas regiões Sul e Sudeste, as que concentram a maior parte dos bairros nobres da capital. “Desse dia até o dia 28, percebe-se o avanço para bairros situados nas regiões periféricas de Goiânia, como Norte, Nordeste e Oeste”, escreve Diego Tarley. Até o sábado, 2, 125 bairros tinham casos notificados.

Professor Diego Tarley e a ferramenta Covid Goiás | Foto: Pessoal

Movimento esperado

Segundo a superintendente Flúvia Amorim, da SES, esse é um movimento esperado. “A Covid-19 começou entre as pessoas de maior poder aquisitivo, que viajam ao exterior. Quando elas voltam e começa a transmissão local, a doença se dispersa”, explica. No caso do interior, a lógica é a mesma: os primeiros casos foram em cidades-polo, como Rio Verde, onde moradores de outros municípios procuram serviços, consomem e fazem negócios.

“No final da semana que vem pode ser que a gente chegue aos mil casos. Considerando o número de casos que vemos todos os dias”, afirmou a superintendente. “Se continuarmos nessa proporção, poderemos chegar aos mil casos, sim”, estima. “O que temos feito desde o começo com as recomendações e restrições foi controlar a aceleração. O aumento, já esperávamos. É uma doença que ninguém tem proteção”, afirma.

Essa velocidade com que o vírus se espalha preocupa, pois, assim como ocorre em todo o Brasil, vai alcançando regiões menos preparadas em termos de assistência médica.  A epidemiologista diz, contudo,que o Sistema Único de Saúde (SUS) em Goiás é estruturado de forma a atender a esse público. Existem seis macrorregiões sanitárias. Em cada uma, há polos regionais e locais. Assim, segundo Flúvia, o sistema está estruturado para realizar o fluxo de atendimento.

Com dados atualizados até o sábado, 2, a Plataforma Covid Goiás apontava que, dos 24 municípios goianos com mais de 50 mil habitantes, apenas Quirinópolis, no Sudoeste do Estado, e Cristalina, no Entorno do Distrito Federal ainda não haviam registrado nenhum doente com a Covid-19. Porém, mesmo localidades pequenas, como Anhanguera, menor município do Estado, com 1,1 mil habitantes, havia registrado dois casos.

Vírus já está em todos os municípios com mais de 500 mil habitantes

Desde que foi registrado o primeiro caso no Brasil, no dia 29 de fevereiro, o coronavírus tem se espalhado pelo Brasil. De acordo com a Plataforma MonitoraCovid-19, desenvolvida por pesquisadores da Fiocruz e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), todos os municípios com mais de 500 mil habitantes têm registros de casos. Dos 276 municípios que têm entre 100 mil e 500 mil habitantes, 259 têm diagnósticos positivos para a Covid-19.

No total, já são 1048 cidades com casos confirmados da doença. A maior parte deles (73%) concentra-se nas regiões metropolitanas, onde moram apenas 33% da população. Entre os 2.452 municípios com até 10 mil habitantes, 100 têm pessoas contaminadas com o coronavírus Sars-CoV-2.

Em entrevista à BBC Brasil, o pesquisador Ricardo Dantas disse que a tendência é que os casos se disseminem pelo interior do País. Ele aponta o Entorno do Distrito Federal como uma das regiões mais ameaçadas, por causa da grande concentração populacional e precárias condições sociais.

 

 

 

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