“Atenção, é golpe!”: criminosos migram para ambiente virtual

Facilidade operacional e vantagem financeira atraem quem antes operava em modalidades com mais risco de confronto ou prisão em flagrante

“Atenção, é golpe. Estão pedindo dinheiro em meu nome pelo whatsapp”. Essa foi a mensagem estampada nas redes sociais da empresária Juliana Cordeiro Alves na última semana. Ela tentava alertar os amigos mais próximos que criminosos usavam sua foto e seu nome em um aplicativo de troca de mensagens. Tratava-se de uma das modalidades criminais que se tornou mais recorrente dos últimos tempos: golpe do novo número.

Dois amigos e um familiar da Juliana caíram no golpe. Acreditaram estar falando com a empresária e fizeram transferências para contas de laranjas, acreditando estar ajudando em um momento de emergência financeira. O prejuízo somado é de R$ 6,3 mil. “Fomos a polícia e denunciamos, mas não acredito que será possível reaver esse dinheiro”, comenta.

O designer gráfico Thiago Melo também é uma vítima. No caso dele, os golpistas usaram uma conta falsa do Whats para pedir dinheiro. Segundo ele, houve uma coincidência, pois de fato ele devia um valor para uma pessoa, e achou que se tratava dessa dívida. Assim, ele fez a transferência para uma conta indicada pelo golpista. E só após alguns dias descobriu que tinha caído em um golpe. “ A primeira coisa que pensei foi em denunciar. Consultei um advogado, mas já sabíamos que seria muito difícil de achar o criminoso, pois eles trocam de telefone muito rápido. Acabou que deixei de lado, mas hoje em dia eu aprendi muito. Muita cautela e pedir mais informações antes de ajudar ou fazer alguma transferência”, relata.

Assim como no caso da empresária e do designer gráfico, os golpistas estão encontrando maneiras cada vez mais criativas para conseguir transferências bancárias por meio de golpes digitais, sem haver ameaças ou expor sua imagem. Quem não foi alvo desse tipo de crime, com certeza conhece alguém que foi vítima. Essa é uma comprovação da percepção das autoridades policiais em relação à migração da prática de crimes contra o patrimônio para as fraudes on-line.

Os crimes cibernéticos mais comuns são clonagem de redes sociais, como o WhatsApp e o Instagram, onde os autores pedem dinheiro para conhecidos, além de boletos falsos emitidos para clientes e até mesmo envolvendo relacionamentos falsos. Quem pratica crimes dessa natureza é considerado estelionatário digital.

Para ilustrar o quanto os criminosos estão operando no ambiente virtual, em Goiás essa modalidade de estelionato digital aumentou de 66% entre 2020 e 2021. Ao todo, as ocorrências registradas na  Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Cibernéticos (DERCC) no último ano  chegaram a 629. Em 2020, o registro foi de 377. 

O distanciamento social causado pela Covid-19 desde março de 2020 intensificou os contatos virtuais e acabou tendo um “efeito colateral” fora da esfera da saúde pública. Em 2020 e 2021, os casos de estelionato explodiram. Os golpistas aproveitam o uso das plataformas digitais, contato prioritariamente pelo telefone com centrais bancárias e o uso cada vez mais frequente de aplicativos de entrega para fazer vítimas.

Com as pessoas ficando mais em casa, mais suscetíveis ao uso de meios virtuais e indo menos às agências bancárias, os golpistas conseguiram mascarar melhor suas reais intenções. Mas quando se fala em crimes cibernéticos logo se imagina um exército de de hackers escrevendo códigos que não infectar nossos aparelhos digitais. Mas não é o que ocorre na maioria absoluta das vezes. O truque pelos criminosos é mais antigo do que a internet e é chada de engenharia social.

O delegado titular da DERCC, Olemar Miranda Santiago, aponta que criminosos, mesmo sem conhecimentos técnicos do ambiente virtual passaram a se especializar em maneiras simples de abordagem que acabam por dar grandes lucros para criminosos. Á engenharia social é uma “arte” de manipular e obter vantagens. De acordo com o policial civil, no ano passado a forma mais utilizada consistia em habilitar um celular em nome de terceiros  (sem estes saberem). Em seguida se escolhe uma pessoa, pela qual o criminoso vai se passar por ela. Copia-se uma foto da rede social e a partir daí começa a enviar mensagens para o círculo família ou de amigos, dizendo que aquele é o novo número e precisa de uma transferência financeira de forma urgente para quitar uma dívida ou comprar algo naquele momento.

“A lábia e a artimanha para induzir uma vítima ao engano é o principal instrumento desse tipo de golpista. A maior parte deses golpes se concentram em dois tipos de crime: o estelionato e o furto mediante fraude”, explica o delegado Olemar Miranda Santiago.

Migração para o crime cibernético

Enquanto alguns crimes mais violentos como o roubo de carros, assalto a mão armada, saidinha de banco e outros que levam a maior risco a vida, tem o índice reduzido, os crimes em ambientes virtuais cresce. Os números indicam haver uma migração na modalidade criminosa. Segundo o delegado Olemar Miranda, os golpes nas redes sociais se tornaram atraentes no mundo do crime por evitar conflitos e dificultar as prisões em flagrantes.

“A migração para os golpes em ambientes virtuais ocorre por variados fatores. O lucro financeiro do crime geralmente é igual ou maior do que outro. A integridade física do próprio criminoso é muito menor, pois ele não se sujeita a uma reação da vítima ou uma troca de tiros com a polícia. Como o golpe é feito a distância, não há o registro de câmeras de segurança. Então há uma equação aí de risco e benefício que se torna atraente para o estelionatário”, lista o delegado.

O advogado goiano Rafael Maciel, é especializado em Direito Digital e também concorda que há atrativos no ambiente virtual que motivaram a migração de criminosos para essa modalidade de golpes. “O que criminoso migra suas atividades para a área cibernética pela facilidade operacional e vantagem financeira”, avalia. “Não tenho dúvidas de que há uma migração e também uma preferência do meio digital para cometimento de crime. Hoje não é necessário ser um hacker para aplicar golpes neste ambiente”, completa. 

Outro facilitador para os golpes aplicados por meio de redes sociais é a abrangência. Afinal, no mundo virtual não há limites geográficos. Assim, os golpistas podem  se manter distantes de suas vítimas e bem escondido de policiais. O rastreamento e recuperação de dinheiro também fica mais difícil em crimes desta modalidade. 

Leis e investigações

Os crimes cibernéticos como fraude, furto e estelionato praticados com o uso de dispositivos eletrônicos como celulares, computadores e tablets passarão a ser punidos com penas mais duras, desde o início de 2021. Passaram a ser agravantes para as penas crimes como invasão de dispositivo, furto qualificado e estelionato ocorridos em meio digital, conectado ou não à internet.

Conforme a nova redação do Código Penal, o crime de invasão de dispositivo informático passou a ser punido com reclusão, de um a quatro anos, e multa, aumentando-se a pena de um terço a dois terços se a invasão resultar em prejuízo econômico. Antes, a pena aplicável era de detenção de três meses a um ano e multa. 

No contexto global, o Brasil é o 7ª país que mais
recebe ataques de dados relacionados
à segurança pessoal ou
financeira do usuário.

A penalidade vale para aquele que invadir um dispositivo a fim de obter, adulterar ou destruir dados ou informações sem autorização do dono, ou ainda instalar vulnerabilidades para obter vantagem ilícita.

Já se a invasão provocar obtenção de conteúdo de comunicações eletrônicas privadas, segredos comerciais ou industriais, informações sigilosas ou o controle remoto não autorizado do dispositivo invadido, a pena será de reclusão de dois a cinco anos e multa. Essa pena era de seis meses a dois anos e multa antes da sanção da nova lei.

Na pena de reclusão, o regime de cumprimento pode ser fechado. Já a detenção é aplicada para condenações mais leves e não admite que o início do cumprimento seja no regime fechado.

No âmbito da investigação o primeiro passo é a instauração do inquérito policial ou termo circunstanciado, que é feito após a denúncia do crime em alguma delegacia. Em seguida começa a fase da apuração de provas. A investigação procura manter na íntegra todas as provas, pois, para este tipo penal, todo ato feito por algum dispositivo eletrônico deixa algum tipo de rastro codificado em alguma rede de dados, inclusive na deep web. Em geral as investigações são feitas por meio de uma análise técnica, que permite verificar a autoria e materialidade dos crimes.

Dicas de como evitar cair em Golpes

•Mantenha seu software e seu sistema operacional atualizados

•Use software antivírus e mantenha-o atualizado

•Use senhas fortes

•Nunca abra anexos em e-mails de spam

•Não clique em links em e-mails de spam ou em sites desconhecidos

•Não forneça suas informações pessoais, a menos que tenha certeza

•Entre em contato diretamente com a empresa para confirmar pedidos suspeitos

•Esteja atento às URLs dos sites que você acessa

•Fique de olho nos seus extratos bancários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.