As políticas econômicas de Trump podem beneficiar o Brasil? No longo prazo, talvez

Saída dos EUA do Tratado do Transpacífico abre oportunidade de negócios para os brasileiros, mas isso depende de vários fatores

É preciso esperar para ver o resultado das políticas econômicas de Donald Trump, mas a previsão dos economistas é de que os EUA irão se retrair, abrindo espaço para outras economias. Nesse cenário, no longo prazo, o Brasil pode ter boas oportunidades de acordos internacionais | Foto: Matzav

Em época de crise econômica, é quase natural que as análises sejam voltadas para dentro, isto é, para o interno. Porém, um mundo globalizado demanda que a economia seja vista também pelo macro, sobretudo quando o assunto envolve os Estados Unidos. Em relação a isso, aliás, não só o Brasil, mas o mundo fica atento à economia estadunidense, afinal trata-se da maior economia mundial.

E esse olhar tem sido frequente desde a posse do novo presidente dos EUA, Donald Trump. A razão: é considerado instável e suas políticas econômicas com certeza terão impacto sobre a economia de praticamente todos os países — a começar pelos países em desenvolvimento, como o Brasil.

Assim, todos viram quando, em seu primeiro dia como presidente (23 de janeiro), Trump assinou três decretos, sendo um deles para retirar seu país do Tratado do Trans­pacífico, acordo comercial firmado entre os EUA e mais 11 países banhados pelo Oceano Pacífico (Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Cingapura e Vietnã).

O tratado foi assinado em 2015, após anos de negociações, mas ainda não havia sido colocado em prática. O próprio Congresso dos EUA não ratificou o acordo, que ainda está em debate — e de maneira acentuada. O país tem, na verdade, opiniões bastante diferentes em relação aos benefícios do tratado. Os pró-TPP (sigla em inglês para Trans-Pacific Partnership) envolvem, em su­ma, três atores: gran­des empresários, congressistas republicanos e o ex-presidente Barack Obama.

A fala de Obama era de que o tratado seria bom para os negócios e trabalhadores estadunidenses, pois abriria mercado para as exportações do país e criaria renda e empregos para a população. Contudo, o ex-presidente enfrentou forte resistência de três setores principais: os sindicatos, os Médicos Sem Fronteiras, e a ala radical do partido Republicano conhecida como Tea Party — a senadora Elizabeth Warren (do Partido Democrata) também foi uma grande crítica, mas mais voltada para o fato de as negociações estarem sendo realizadas de maneira sigilosa.

No que o acordo beneficiaria os EUA? Num primeiro momento, havia uma chance de o país vender mais carros e comida para o Japão, por exemplo, enquanto importaria roupas e tênis mais baratos de países como o Vietnã. Além disso, poderia “proteger” sua indústria farmacêutica de genéricos mais baratos. Isso porque o tratado teria cortado tarifas para importações e exportações estadunidenses com esses países e, em troca, os EUA haviam negociado proteções trabalhistas, ambientais e de propriedade intelectual que as grandes empresas buscaram.

Porém, o argumento usado pelos anti-tratado — e que é endossado por Trump — é de que isso colocaria os empregos de manufatura dos estadunidenses em risco. O raciocínio de Trump segue o seguinte caminho: o de fazer o país grande novamente — esse foi inclusive seu slogan de campanha: “Make US great again”. E a ação principal para a realização desse objetivo é atrair as grandes empresas de volta para solo americano. Acontece que, a partir da década de 1970, a indústria estadunidense começou a mover sua produção para fora do país.

Empresas como a Apple mantém a fabricação dos componentes do iPhone, por exemplo, fora das fronteiras estadunidenses, em países cuja mão de obra é mais barata. Isso, na visão de muitos outros, levou ao fim dos empregos de manufatura do país. Aí entra o lema tão repetido por Trump: “America first”. Isto é, garantir primeiro empregos nos EUA para depois focar em acordos com outros países. Esse entendimento se soma à intenção de fortalecer a indústria estadunidense, algo que também foi bandeira de campanha de Trump.

Contudo, a ação do novo presidente pode ser ruim para os EUA de duas maneiras. A primeira depende de uma escolha: recuperar um pouco dos empregos ou aumentar o preço dos produtos. Existe uma razão para as empresas estadunidenses manterem as fábricas de seus componentes no exterior: mão de obra barata e menos impostos. Isso tira custos e aumenta os lucros, ao passo em que diminui o preço dos produtos.

Dessa forma, nacionalizar toda a produção industrial, como quer Trump, não só aumentaria o preço dos produtos — o que levaria a uma insatisfação popular, até porque a taxa de não ocupados nos EUA é baixa (4,9%, menos da metade da brasileira, que tem 11,8%) — como também faria o país perder competitividade. Vejamos: com o au­mento dos preços de carros nacionais, as pessoas passariam a procurar outros mais baratos, e prefeririam comprar, por exemplo, automóveis japoneses, que hoje são praticamente montados na China, país que oferece uma das menores mãos de obra do mundo.

Esse problema nos leva ao segundo ponto: o Tratado do Transpacífico envolvia 12 países que, juntos, representam 40% da economia mundial. Porém, tão importante quanto esses 12, é um que não entrou na roda de negociações: a China. O tratado era, para o governo Obama, tanto uma questão comercial quanto diplomática, visto que a intenção principal era criar, em conjunto com o Japão, uma zona econômica na bacia do Pacífico para contrabalancear o peso econômico chinês, a principal ameaça econômica para os EUA atualmente.

Aí está o problema, pois, ao retirar sair do tratado, os EUA abriram ainda mais espaço para a China, o que pode ser demonstrado pela fala de Xi Jinping, o chefe de Estado chinês, na reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, ocorrida no fim de janeiro. Segundo ele, a China ficaria feliz em assumir o papel de liderança no comércio global que os Estados Unidos renunciaram. E as movimentações nesse sentido já começaram.

A China quer firmar um acordo — o RCEP, sigla em inglês para Regional Comprehensive Economic Partnership — que deve incluir 16 países, da Índia ao Japão, excluindo os EUA. O objetivo chinês é expandir seus investimentos, exportações e influência em toda a Ásia. Para isso, o país já propôs, entre outras iniciativas, a criação de instituições financeiras como o Banco Asiático de Inves­timento em Infraestrutura. A China quer expandir.

Agora, se todo esse cenário é ruim para os EUA de Trump, pode ser bom para o Brasil, um país que perderia mercado com o tratado, visto que tanto asiáticos quanto estadunidenses, grandes importadores de produtos brasileiros, passariam a ter seu foco comercial centrado nas trocas entre si, comprando principalmente da Austrália, país que afeta diretamente o Brasil por ser oferecer produtos semelhantes — os australianos têm uma produção agrícola diversificada, exportando açúcar, trigo, algodão e cevada, por exemplo, mas também muita carne bovina, o que afeta o Brasil e, em específico, Goiás.

Além disso, os EUA são o maior mercado consumidor do mundo. Uma vez fora do tratado e buscando firmar parcerias bilaterais, os estadunidenses representam uma grande oportunidade para o Brasil. Agora, para aproveitar isso, o Brasil precisa se movimentar no sentido contrário ao que foi percorrido nos últimos anos, quando o país trocou EUA e Europa por parceiros latino-americanos como Colômbia, Argentina e México, que têm mercados menores.

O deputado federal e economista Giuseppe Vecci (PSDB) ressalta, por exemplo, que o Brasil tem quase 216 milhões de toneladas de grãos. “Temos a possibilidade de termos ganhos no comércio internacional, depois de ‘perder o bonde’ da história com o Mercosul, já que não fizemos acordos com grandes países, nem da Europa nem outros. Nem na OMC [Organização Mundial do Co­mércio], nas rodadas de Doha [Catar], conseguimos ter uma inserção mais qualitativa no comércio. Isso fez os países do Pacífico montarem esses tratados, que agora, com Trump, estão sendo desfeitos”, diz.

Esse cenário, segundo Vecci, cria uma nova perspectiva para o Brasil, desde que o país tenha uma visão mais agressiva de comércio internacional, de poder realizar acordos com outros países. “O Brasil ‘perdeu o bonde’ porque ficou aqui tentando ficar só junto ao Mercosul, com a Argentina em especial. Agora nós podemos fazer acordos dentro do Mercosul — e o ministro [das Relações Exte­riores] José Serra já está discutindo isso —, e, mesmo assim, também acordos individuais. Mas, para isso, o Brasil vai ter que ter uma abertura maior”, relata.
Para o economista, o Brasil é um país fechado, protecionista do capital nacional, e que precisará ter coragem de abrir seu mercado. “Isso vai trazer consequências negativas para muitas empresas brasileiras, mas ao mesmo tempo, com certeza, vai melhorar a nossa inovação, a nossa tecnologia e a gente ganhar competitividade em alguns setores, como é o caso da carne, das commodities minerais e da agricultura”.

O ministro José Serra, de fato, se movimenta em relação ao Mercosul, no sentido de flexibilizar os acordos bilaterais entre os sócios e terceiros, visto que, atualmente, os países do bloco são impedidos de fazer negócios que comprometam a Tarifa Externa Comum. Por isso, nos últimos anos, a saída encontrada pelo Brasil foi firmar acordos mais amplos, com redução de alíquotas de importação, mas também compras governamentais, investimentos, serviços etc.
Porém, todos os negócios en­volvem preferência aos membros do bloco. Em outras palavras, o Brasil só pode fechar um pacto comercial com outro país com a anuência de todo o bloco, o que não acontece com frequência, sobretudo devido à presença da Venezuela, último regime de esquerda do bloco. A conclusão vem nas palavras da economista Ana Carla Abrão:

“No médio e longo prazo, quanto mais a economia dos EUA se fecha, mais oportunidades um país como o Brasil começa a ter, o que também não acontece de forma automática, mas como consequência de uma política externa que precisa ser mais agressiva para ocupar o espaço que será tomado por quem for mais rápido e mais competente e tiver uma política externa direcionada para isso. Agora, precisamos ter uma abertura comercial de forma mais ampla. Trump abrirá oportunidades. Pre­cisamos saber aproveitá-las”.

Onde Goiás entra nessa história

Everaldo Leite: “O Brasil está quebrado e demora a se recuperar” | Jeferson Vieira: “Goiás seria prejudicado pelo Transpacífico” | Willian Rabelo: “Goiás investe em qualificação de mão de obra” | Fotos: Fernando Leite / Jornal Opção

Se Donald Trump, a exemplo do decreto que retirou os EUA do Tratado do Transpacífico, continuar a implementar políticas econômicas de protecionismo, é provável que, ao invés de impedir o avanço da China, faça é o contrário. Pelo menos é como avaliam os economistas, pois Trump estaria recuando os EUA e deixando espaço para outras economias.

Nesse cenário, o mais provável é que haja o desaquecimento do dólar, o que, para o Brasil, pode acabar representando um ganho de competitividade, pois os produtos de fora ficariam mais baratos. E esse seria o único impacto sobre o Brasil no curto prazo: via canal de câmbio, que pode ajudar o país nesse processo de recuperação da economia.

Todo e qualquer impacto seria no médio ou longo prazo, pois isso depende de uma ação efetiva do governo brasileiro no sentido de colocar o país no rumo da expansão de sua política externa. E isso não será realizado de maneira rápida, prevê o economista Everaldo Leite, tendo em vista todos os erros que o Brasil cometeu na área nos últimos anos. É certo que há uma correção de orientação, desde a saída do governo da ex-presidente Dilma Rousseff, mas não será rápido que o país irá sair de sua atual condição.

Para Everaldo, o espaço aberto pelo recuo dos EUA é para países que tenham maior preparo em áreas tecnológicas. “Em termo de commodities, o Brasil tem mercado livre com esses países. Então, se o país não tiver vantagens competitivas em relação aos outros, não adianta nada. E acredito que o Brasil não tem, hoje, a capacidade de aproveitar essa porta aberta para inserir produtos que não sejam commodities no mercado internacional”, afirma.

Ele relata que a indústria brasileira está parada, atuando com trabalho ocioso, por falta de investimentos. E é por isso que não há condições, na visão dele, de o Brasil aproveitar essa oportunidade. “Agora, no longo prazo, isso pode ser um estímulo para o desenvolvimento de novos produtos e tecnologias. A ideia é: para ter vantagem competitiva, é necessário ter tecnologia e preço. Hoje não tem. E isso nem para atração de empresas, porque o país não tem nem crédito nem mão de obra especializada”, observa.

Já o economista e professor da PUC-GO Jeferson de Castro Vieira enxerga o cenário como provavelmente positivo para o Brasil e, principalmente, para Goiás. “Sem os EUA, o Transpacífico vai morrer e isso abrirá mercado para Goiás. O tratado iria prejudicar o Estado, que perderia mercado em seu ramo mais forte, que é o da agricultura. Agora podemos nos aproximar novamente dos EUA, de quem nos afastamos desde o governo Lula. E os EUA são grandes parceiros”, explica.

Willian Rabelo, que é assessor de negócios internacionais da superintendência de comércio exterior da secretaria de Desen­vol­vimento de Goiás, analisa o caso da seguinte maneira:
“EUA e Austrália são países que fariam uma diferença muito grande no tratado. Os EUA são o maior mercado consumidor do mundo e a Austrália tem produtos que afetam diretamente o Brasil, especialmente Goiás na parte de carne bovina. Se o Transpacífico tivesse funcionado, seria interessante para o Brasil por causa de atração de investimentos chineses para a construção de uma ferrovia transoceânica, por exemplo, ligando o Pacífico ao Atlântico. Mas, como não deu certo, isso beneficia o Brasil no sentido de que a Austrália, como grande produtora, acaba não comendo uma parte do mercado que seria brasileiro e goiano”.

E se o tratado continuar, com a China substituindo os EUA? Nesse caso, explica Rabelo, o quadro seria muito semelhante, pois a China, assim como os EUA, é uma grande consumidora e está entre os cinco principais parceiros de Goiás, tanto para importação (componentes automotivos) quanto para exportação (principalmente complexo de soja e carnes). Assim, num caso de o tratado continuar, a Austrália acabaria também abocanhando esse mercado.

Agora, quando a oportunidade de negócio pode virar negócio, de fato? Rabelo diz que nada vem no curto prazo, pois nenhum acordo é firmado de maneira rápida. “Toda oportunidade de negócio demanda uma pesquisa, uma reavaliação, e isso demora. Então, no curto prazo, de 12 a 24 meses, os impactos não são visíveis”.

Quanto ao que ressaltou Eve­raldo Leite, de que o Brasil precisa apostar na exportação de produtos de valor agregado, ao invés de apostar apenas em produtos in natura, commodities, Rabelo concorda. Ele diz:

“O Brasil é um dos maiores produtores do mundo e alguns países, como a Índia, acreditam que o Brasil ajudará na segurança alimentar que eles precisam ter. Por isso, o Brasil, Goiás incluso, continua exportando commodities. Agora, exportar produtos com valor agregado seria melhor. Se conseguirmos, por exemplo, que nosso polo farmacêutico exporte mais, isso contribuiria muito para nossa balança comercial e para a economia de maneira geral”.
Em relação à qualificação de mão de obra, o assessor acrescenta que o governo goiano tem investido em tecnologia, o que tem possibilitado colocar gente qualificada no mercado de trabalho. “Porém, investimento em tecnologia não é algo que se faça no curto prazo. Essa cultura demora a dar resultados. Nesse sentido, Goiás está no sentido certo e conseguimos evoluir”, afirma.

Missões

Goiás tem feito, nos últimos anos, muitas missões comerciais para vários países e duas devem acontecer nos próximos meses. Ainda em fevereiro, uma missão goiana irá para Dubai e Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, e para a Arábia Saudita. Em julho, outra missão partirá rumo à Ásia.

Willian Rabelo explica que as missões comerciais são importantes, pois expõem Goiás, o que atrai o interesse dos países. Ele conta que, recentemente, o Escorts Group, da Índia, um dos maiores grupos produtores de equipamentos agrícolas do mundo, decidiu vir para Goiás, Anápolis especificamente, para montar uma fábrica de tratores. Segundo ele, isso só aconteceu devido a uma oportunidade que surgiu quando Goiás foi apresentado pela embaixada brasileira e a atração de investimento foi fechada por uma missão comercial.

“Agora, imagine o que uma atração dessas pode gerar tanto em termos de aporte financeiro quanto em termos de empregos. Imagine que uma empresa como essa vai gerar produtos que serão usados não só em Goiás como também no Brasil, na nova fronteira agrícola, e em vários países da América Latina. Então, Goiás é um centro logístico e nosso Porto Seco é um facilitador. Há produtos chegando ao Porto de Santos, por exemplo, e que demoram 14 dias para passar por todo o processo alfandegário. Quem faz o desembaraço aduaneiro no Porto Seco de Anápolis tem uma vantagem, pois temos um processo de três dias. Esse ganho de 11 dias reflete na empresa que faz a importação”, diz Rabelo.

A fábrica de tratores a ser instalada em Anápolis deve garantir um aporte inicial entre R$ 75 milhões e R$ 100 milhões. Se o negócio prosperar, ressalta Rabelo, como se espera, o grupo deve trazer outras atividades para o Estado. “E a Índia é apenas um exemplo de país que tem nos procurado para fazer investimento. Os Emirados Árabes Unidos também estão trazendo uma empresa, a Caracal, fabricante de armas que também se instalará em Anápolis. Falamos de investimentos iniciais na casa dos R$ 100 milhões mais os investimentos continuados”.

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