Apesar da forte estiagem, rios goianos não correm risco de secar

Mesmo com baixa do nível das águas nos principais mananciais do Estado, especialistas e estudiosos asseguram que não há risco de leitos secarem

Goiás tem 5% de toda água doce disponível para uso no Brasil

Goiás tem 5% de toda água doce disponível para uso no Brasil

Frederico Vitor

Apesar da falta de chuva nesta época do ano, órgãos responsáveis pelos recursos hídricos do Estado descartam qualquer possibilidade de racionamento de água em Goiás, como vem acontecendo em São Paulo. Neste período de estiagem, boa parte dos rios goianos apresenta considerável baixa de seus níveis, e alguns praticamente ficam secos. Apesar dos alertas pela importância de preservação da mata nativa nas margens, nascentes e encostas, não há registro de que os rios goianos estejam secando.

A longa estiagem, altas temperaturas e umidade quase mínima do ar têm contribuído para o rebaixamento mais acentuado dos níveis dos rios, como observado, por exemplo, no Rio Vermelho, que abastece a histórica cidade de Goiás. Dois de seus afluentes, os Ribeirões Bacalhau e Bagagem, estão completamente secos por esses dias. A volta do período chuvoso, porém, deve normalizar esses mananciais.

São Paulo, o Estado mais populoso do Brasil (43 milhões de habitantes), passa por uma das mais graves crises hídricas da história. O sistema que fornece metade da água potável consumida na capital, a maior cidade da América do Sul, secará em 45 dias se não chover. O Sistema Cantareira, que abastece 10 milhões de pessoas na região, está com menos de um quarto de sua capacidade.

Até mesmo cachoeiras, pontos turísticos do interior paulista, estão secando com a falta de água no Sistema Cantareira. A região abriga mais de uma centena de quedas d’água, a maioria de menor porte, mas muitas delas já não têm mais água caindo.

O Brasil é o país mais rico do mundo em recursos hídricos, com 12% de toda a água doce do planeta. Contudo, esta abundância não se reflete de forma homogênea por todo o território. A Região Norte, com 6% da população brasileira, acumula aproximadamente 70% de toda água doce disponível para uso. Já a Região Nordeste, com 29% da população, possui apenas 3,2% da água doce disponível. A Região Centro-Oeste é a segunda mais rica em disponibilidade de recursos hídricos (15,3%).

Goiás é contemplado com cerca de 5% de toda a água doce disponível para uso no Brasil, enquanto o Distrito Federal tem apenas 0,05%, o que o torna a unidade da federação com o menor potencial hídrico de todo o País. No Estado, a principal atividade produtiva consumidora de água é a agricultura, com 84% do total, seguida por abastecimento humano (9%) e indústria (7%).

Os rios que banham o Centro-Oeste estão divididos em três grandes bacias hidrográficas: Amazônica, Tocantins-Araguaia e Bacia Platina. A Bacia do Tocantins-Araguaia é dona dos recursos hídricos que desaguam nos rios Tocantins e Araguaia. A superfície da bacia é de 967.059 km², fazendo dela a maior entre as que se encontram totalmente dentro do território brasileiro. Ela está nos Estados de Goiás, Mato Grosso, Tocantins, Maranhão, Pará e Distrito Federal. Apesar desses fatores naturais favoráveis, essa aparente “riqueza” pode estar ameaçada por muitos vilões, ainda mais quando o assunto é quantificar recursos hídricos.

O adensamento populacional urbano e o avanço da fronteira agrícola, além da mineração e outras fontes poluidoras, são aspectos que desequilibram a atual tranquilidade referente às fontes de água. Nas cidades, as deficiências na coleta e tratamento de esgoto, a excessiva impermeabilização do solo e destruição das nascentes são alguns dos vilões. Já no campo, preo­cupa o avanço das plantações sobre a vegetação nativa, a retirada de água por meio dos pivôs centrais, utilizados para irrigação de plantio.

Sem deixar de citar também o uso incorreto de fertilizantes, a falta de zelo no descarte das embalagens de agrotóxicos, que muitas vezes contaminam o solo, e consequentemente, o lençol freático.

A região Noroeste de Goiás, de modo geral, está inserida numa situação conhecida como deserto verde. Nos meses de fevereiro a março é um verdadeiro paraíso, porém nesta época do ano é possível ver o Rio Palmeirinha, que abastasse a cidade de Mundo Novo, completamente seco. A bacia do Crixás Sul, região de Mundo Novo e São Miguel do Araguaia, é uma região que apresenta problemas hídricos, mas nada classificado como calamidade.

Na região Sudeste, na bacia do Rio Corumbá, não há registro de intermitência de seca e cheia. A região Noroeste apresenta o registro de muitos mananciais que secam neste período do ano. Na região Norte não é registrado problemas, mas na região Nordeste de Goiás, onde há um ambiente geológico árido, há problemas com a qualidade da água, mas não existe seca de mananciais. No município de Campos Verdes, região do Noroeste Goiano, banhado pelo Rio dos Bois, há a característica de intervalo de níveis hídricos daquele leito. A região do baixo Araguaia é a que mais há ocorrência de seca temporária de mananciais.

 

Reservatórios das hidrelétricas estão baixando 

Superintendente Bento de Godoy: “Apesar da estiagem, há uma situação dentro da normalidade“

Superintendente Bento de Godoy: “Apesar da estiagem, há uma situação dentro da normalidade“

A estiagem em Goiás está provocando uma redução no nível dos reservatórios das hidrelétricas do Estado. Em Itumbiara, no Sul Goiano, foram registrados apenas 68 milímetros de chuva na região da barragem. Com isso, a seca prolongada reduziu a capacidade da barragem para 27%. Embora o nível esteja baixo, o lago ainda está dez metros acima do mínimo necessário para a geração de energia.

A situação mais grave é em São Simão, no sul do Estado. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a hidrelétrica opera com menos de 20% do volume de água do reservatório. Em Três Ranchos, no sudeste de Goiás, a barragem da Usina de Emborcação opera com 40% da capacidade máxima, e o volume do lago tem diminuindo no decorrer dos anos. Na hidrelétrica de Serra da Mesa, responsável pelo abastecimento da região Norte do Estado, o lago está com pouco mais de 30% do volume máximo.

Apesar do quadro pouco favorável, de acordo com Bento de Godoy Neto, superintendente de Recursos Hídricos da Secretária Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídrico (Semarh), há uma situação dentro da normalidade. Nesta época, é natural a redução da vazão dos rios, mas não chega ser uma situação de calamidade. É fato que há uma seca histórica e mais prolongada, por isso, o governo tem agido e vem se antecipando aos problemas hídricos.

Exemplos dessas medidas é a elaboração do Plano Estadual de Recursos Hídricos, que traz o diagnóstico dos recursos hídricos de Goiás e as ações que devem ser feitas no futuro. “O Estado está agindo no sentido de gestão de água, estamos nos antecipando a problemas para não viver a mesma situação que São Paulo vive hoje”, diz Bento Neto.

Como citado no início da reportagem, o Rio Vermelho em Goiás tem secado neste período de estiagem. O Jornal Opção ouviu o secretário municipal de Meio Ambiente do Munício de Goiás, o geólogo Pedro Alves Vieira, que é professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG) com mestrado na área de Geomorfologia e doutorado em Ciência Ambiental.

De acordo com ele, não há dados científicos que confirmem que o Rio Vermelho esteja secando. O que ocorre é que historicamente os períodos de baixa de água tem se intensificado nos últimos 20 anos. “Há picos de cheias e picos de baixa, mas para mim, o rio está dentro da normalidade.”

O Rio Vermelho, em sua alta bacia, tem dois afluentes, os Ribeirões Bacalhau e Bagagem, que nesta época de estiagem permanecem secos até o período chuvoso. Segundo Pedro Vieira, a prefeitura tem instalado régua fluviométrica para acompanhar o nível da água do rio nos últimos anos.

O que vem preocupando é o Lago dos Tigres em Britânia. Há hidrógrafos e outros técnicos estudando o fenômeno da seca do lago para encontrar explicações com base em dados científicos. “É mais um alerta para chamar a atenção de que a água está diminuindo muito, este período seco está mais forte do que antes.”

 

Goiânia tem água garantida pelos próximos 35 anos

Lúcia Helena Santos: “Colapso hídrico não ocorre de uma hora para outra” José Vicente Granato: “Em caso de emergência é feito reforço com poços tubulares”

Lúcia Helena Santos: “Colapso hídrico não ocorre de uma hora para outra”
José Vicente Granato: “Em caso de emergência é feito reforço com poços tubulares”

E a região Metropolitana de Goiânia, estaria salva de uma crise hídrica como em São Paulo? Até os próximos 35 anos o abastecimento de água para capital é garantido. Gerente da Saneago na área de Produção de Águas da Região Metropolitana, Lúcia Helena Santos Pinheiro informa que são dois os rios a abastecer a cidade: Meia Ponte e João Leite. No segundo, existe um barramento que trabalha há quase cinco anos e que vai garantir o abastecimento de água para a capital pelos próximos 35. “Atualmente, os níveis do reservatório encontram-se no máximo, diferentemente do que vem ocorrendo em outros Estados.”

Lúcia Helena explica que em épocas de seca é verificada a redução dos níveis de água, mas a Saneago consegue captar toda vazão, que atualmente é calculada em 2.500 litros por segundo. Deste modo o período de estiagem não tem prejudicado a captação de água para o sistema que abastece Goiânia. “O colapso hídrico não ocorre de uma hora para outra. Vão somando ações de degradação e de vazão das bacias.”

O engenheiro da Saneago José Vicente Granato afirma que são feitas medições periódicas de vazão. Quando há uma seca prolongada e a vazão não possibilita o abastecimento do sistema, é feito o reforço emergencial com poços tubulares profundos. Ele explica que o manancial subterrâneo é menos sensível à seca imediata. “Se houver, por exemplo, uma grande seca de rios, o mesmo não ocorreria com os leitos subterrâneos.”

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