Apesar da crise financeira, há como seguir realizando investimentos no Brasil

Atual situação é dura e tende a piorar nos próximos meses, mas País precisa seguir em frente e a criatividade tão característica dos brasileiros pode acabar indicando o caminho a ser trilhado

Chrystiano Câmara em frente ao novo investimento do grupo. Para ele, “junto com a crise vêm asoportunidades” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Chrystiano Câmara em frente ao novo investimento do grupo. Para ele, “junto com a crise vêm as oportunidades” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Marcos Nunes Carreiro

Em janeiro, o Jornal Opção publicou reportagem mostrando como empresários goianos estavam fazendo suas empresas crescer à revelia do prognóstico de crise que se desenhava desde o fim do ano passado. Um dos empreendedores ouvidos foi Katsume Fujioka, diretor de expansão e logística do grupo que leva o sobrenome de sua família.

À época, ele contava que a intenção da empresa era expandir negócios para outros Estados com uma previsão de 10 novas lojas, uma vez que “mercado ruim representa uma oportunidade para que as empresas que têm o pé no chão cresçam”.

Quase três meses depois, com a crise apertando a vida dos brasileiros e ainda sem previsão de quando atingirá o seu pico, o prognóstico levantado por Fujioka se mantém e outros empresários goianos mostram que a crise é uma porta a ser aberta para aqueles que já haviam planejado o desenvolvimento de seus negócios.

Um exemplo atual que ilustra tal situação de maneira bastante clara é o Grupo Novo Mundo, que se consolidou nos últimos anos como uma das maiores redes de eletrodomésticos do País — presente em 11 Estados com mais de 200 lojas e com a pretensão de expandir a marca para mais outros cinco unidades da Federação em breve.

Comandado por Carlos Luciano Martins Ribeiro, o grupo investiu, ainda em 2011, na construção de um shopping voltado para um setor muito diferente do que o grupo até então estava acostumado a atuar: o Mega Moda Shopping.

Quatro anos depois, o empreendimento mostra estar consolidado em uma região de muito movimento — entre a Rua 44 e a Avenida Contorno, no Setor Norte Fer­roviário, nas proximidades da rodoviária de Goiânia —, atraindo compradores de vários Estados brasileiros.
O leitor pode dizer, porém, que esse foi um investimento feito há quatro anos, quando a situação financeira do País não era tão ruim quanto a atual.

Sim, é verdade. Porém, atrelado ao shopping, o grupo inaugurou, na semana passada, um hotel: o Mega Moda Soft Inn, considerado o maior hotel da capital goiana, com 270 quartos, e que têm o objetivo de aumentar ainda mais as vendas do shopping, visto que um tem acesso direto ao outro. Por isso, este caso pode ser usado como exemplo para dizer que, apesar da crise dar a impressão de que o País parou, ainda há pessoas fazendo investimentos.

Como investir

Coincidentemente à abertura desta reportagem, a primeira frase que o superintendente do Mega Moda Shopping, Chrystiano Câmara, diz sobre o assunto é: “Junto com a crise vêm as oportunidades”.

Mas a pergunta que todos os brasileiros têm se feito é: como alcançá-las? Ele responde: “Em momentos de crise, é necessário ser feito uma readequação. Tem que reinventar. O Mega Moda Shopping é um empreendimento planejado há quatro anos em que nós avaliamos o negócio por etapas. Se deu certo, mantemos; se não, corrigimos e seguimos para a próxima etapa”.

Logo, é possível dizer que a solução para conquistar as oportunidades passa por um planejamento feito com criatividade. Para Câmara, Goiás principalmente, tem muitos meios de se inovar, pois tem espaço para expansão de mercado, sobretudo devido à sua localização geográfica e as novas ferramentas que têm sido criadas no Estado, como o Porto Seco de Anápolis, que conta com um aeroporto de cargas e ainda tem ligação rodoviária e ferroviária — embora a Ferrovia Norte-Sul ainda não esteja em pleno funcionamento.

Contudo, há um ponto a ser questionado: a crise financeira não atinge apenas o setor comercial, mas também os consumidores. Logo, investir na expansão dos negócios não é perigoso? Afinal, não adianta aumentar a oferta se não haverá procura. A isso, Câmara é direto ao afirmar que a expansão significa nada mais que a readequação citada por ele anteriormente e que, por mais forte que seja a crise, o setor de atuação dos shoppings não é afetado diretamente:

“Uma situação de crise impacta mais os bem duráveis, como imóveis e carros ou mesmo o turismo. Agora, o mercado de shoppings mexe com o fim da cadeia, que é vestuário e produtos que as pessoas precisam no dia a dia. Esse mercado é o último a ser afetado porque ninguém vai usar roupa velha. Então, as pessoas vão continuar comprando. Quando esse mercado for atingido, aí a situação do País estará realmente complicada”.

Segundo ele, Goiás é um Estado produtor, que vende moda mais barato que os outros locais, o que atrai muitas pessoas de fora para comprar essa moda e revendê-la em outros lugares da Federação. “Isso movimenta o mercado. Só na nossa região [Setor Norte-Ferroviário, em Goiânia], por exemplo, temos aproximadamente 9.500 pontos comerciais, fora a Feira Hippie, que tem mais 9 mil pontos comerciais.

Ou seja, é um mercado que emprega quase 200 mil pessoas. Só o nosso empreendimento conta com mil lojas, sendo que cada uma gera 10 empregos diretos, pois as próprias lojas costumam produzir os produtos que vendem. Isto é, só nós em­pregamos cerca de 10 mil pessoas”.

Porque investir

Economista Greice Guerra: “Ou pagamos a conta ou quebramos” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Economista Greice Guerra: “Ou pagamos a conta ou quebramos” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

A situação apontada por Chrystiano Câmara também pode ser analisada por outro ponto de vista: o porquê de nem todos os empresários, dos mais variados setores de atuação no mercado, estarem investindo. Aqueles empresários que têm necessidade de crescer, expandir o negócio, que não têm outra opção, senão entram em um processo de recessão, estão investindo. Agora, aqueles que têm condições de manter e esperar para ver o desdobramento da economia, das taxas de juros, por exemplo, não estão investindo.

A análise é da economista e operadora da Bovespa, a Bolsa de Valores de São Paulo, Greice Guerra. Ela afirma que os investimentos, neste momento, estão sendo realizados de acordo com a necessidade de cada empresa e de cada investidor (da Bolsa). Isto é, aquele que precisa investir, o faz independente da crise; já o que consegue aguardar, está cauteloso.

O mesmo ponto de vista é apontado pela empresária e presidente da Associação Comercial, Indus­trial e de Serviços de Goiás (Acieg), Helenir Queiroz, para quem “o momento atual é mais propício para mexer nos processos, repensar o marketing e a busca de clientes. É um momento diferente”.

Isto é, sob esta ótica, investe quem não tem outra escolha. Seria o caso, por exemplo, da Coca-Cola que anunciou o aumento de seus investimentos em 50% para este ano. Em rara entrevista — concedida ao Valor Econômico — o presidente da Coca-Cola no Brasil, Xiemar Zarazúa, informou que a empresa prevê um ano difícil e, exatamente por isso, resolveu aumentar os investimentos no País de R$ 1,34 bilhão para R$ 2,7 bilhões, dos quais 50% serão para marketing, 20% para ativos de mercado e 30% para logística e construção de três novas fábricas.

Para Greice Guerra, é esse o perfil das empresas que estão investindo, visto que grupos como a Coca-Cola, que já têm certo tempo de mercado, precisam expandir negócios para não perder espaço ou ter prejuízo. “Até porque uma empresa com experiência e espaço no mercado tem como arcar com os custos de financiamento e até mesmo com uma possível retração”, observa.

Os dois casos, Novo Mundo e Coca-Cola, também mostram outro ponto, segundo Guerra: o de que as empresas estão investindo nelas mesmas, isto é, em aquisição de máquinas, equipamentos, profissionalização de mão de obra, abertura de mercado; tudo dependendo do segmento em que atuam — em contrapartida, há uma leve retração de investimentos na Bolsa de Valores. “O pessoal está mais cauteloso, principalmente porque a Bolsa está muito volátil”, explica Guerra.

E isso é necessário, pois, como argumenta Guerra, toda economia depende de investimentos, sendo que quanto mais investimentos, maior o horizonte de melhora do quadro econômico, pois aumenta empregos, renda, arrecadação etc. E há mais: “Não adianta parar a produção. A presidente não vai sair, a taxa de juros e a inflação não vão abaixar; além disso, nós teremos que pagar a conta do déficit. Então, a população precisa trabalhar e os empresários precisam investir, pois, ou pagamos a conta ou quebramos. Não tem como”, garante ela.

E, para investir, retomamos a fala do empresário goiano Chrystiano Câmara: tudo depende de criatividade e planejamento. Crise significa quebra e a solução para isso é criatividade. Afinal, na crise é quando as pessoas começam a ver novas oportunidades.

Goianos seguem postura do brasileiro e recuam em sua atuação na Bolsa de Valores

É certo que as empresas que estão investindo o fazem nelas mesmas, isto é, compram novos equipamentos e focam na profissionalização de mão de obra. Porém, há quadro contrário pode ser visto na Bolsa de Valores, sobretudo com relação aos empresários goianos.

Isso é em grande parte devido à desconfiança do mercado aumentada pelos escândalos da Petrobrás, que tem cerca de 30% do Ibovespa — o índice da Bovespa — e que, a cada nova notícia negativa, arrasta o índice para baixo.

Além disso, há o fator economia mundial. A retração da China, por exemplo, prejudica empresas do País como a Usiminas, pois é uma dos principais clientes da brasileira — adquire principalmente aço. Logo, no momento em que não compra mais aço, por exemplo, as ações caem e as usinas, que têm certo peso no índice, o puxam para baixo.

Por isso, os goianos que investem na Bolsa— a maior parte do setor produtivo —, sobretudo em empresas como Petrobrás, Vale, Natura e Renner, estão agindo com cautela. E esse tem sido o sentimento predominante da economia goiana como um todo, com casos de exceção como o do Grupo Novo Mundo.

Afinal, como bem diz Helenir Queiroz, a economia é baseada em expectativa e credibilidade. Logo, as duas partes que a movimentam — empresários e consumidores — precisam acreditar que irá melhorar.

O outro lado da moeda

Em crises econômicas, existe algo chamado adequação de mercado, em que o preço dos produtos e forma dos empresários fazerem negócios começam a se adaptar à nova realidade. E um dos setores que mais recebe os reflexos dessa adequação é o imobiliário. No período atual, percebe-se o seguinte quadro: preço dos imóveis e dos alugueis começaram a cair, isso porque bens duráveis começam a ser menos procurados pela população. Logo, há uma consequente redução no número de empreendimentos realizados pelas construtoras e incorporadoras.

Em São Paulo, é certo que as construtoras começam a reduzir o número de lançamentos, visto que 2014 foi um ano com vendas baixas e com o maior nível de estoque de imóveis residenciais dos últimos dez anos: quase 30 mil unidades. Por isso, a expectativa é para uma redução de aproximadamente 10% nos lançamentos, assim como nas vendas, em relação ao ano passado. E os preços? Devem diminuir.

Ilézio Inácio: “No último ano, minha empresa precisou dispensar cerca de 500 dos mil funcionários que tinha” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Ilézio Inácio: “No último ano, minha empresa precisou dispensar cerca de 500 dos mil funcionários que tinha” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Em Goiás, a situação é levemente melhor, embora não muito diferente. É o que aponta Ilézio Inácio Ferreira, da Consciente Construtora, para quem o Estado não corre, por exemplo, um risco de bolha imobiliária ou de ter um estoque tão grande de imóveis sobrando, uma vez que o mercado imobiliário goiano sempre cresceu de uma forma diferente do nacional.

“Sempre tivemos um desempenho acima da média. Isso porque somos o Estado em que se pratica o menor preço por metro quadrado. Não corremos, por exemplo, o risco de uma bolha, ou de preços inflados. Os crescimentos que ocorreram foram muito em função do aumento do nível das construções, que são muito superiores às de alguns anos”, conta.

Porém, o mercado imobiliário de Goiás tem sofrido algumas mudanças, como a redução de imóveis construídos. “Hoje, o número de unidades ofertadas está caindo. Já foi 13.500 em 2011 e agora está em aproximadamente 9 mil unidades. Está diminuindo. Se diminuir muito, há um risco de elevação de preços. Mas hoje está em um patamar que consegue regular o mercado”, argumenta o empresário.

Para ele, tudo tem a ver com a confiança do empresariado e com a oferta de financiamento para produção. Ele diz que o índice de confiança do empresariado caiu drasticamente nos últimos meses e isso mostra insatisfação do segmento. Logo, as empresas do setor estão entre aquelas que não estão investindo, mas se mantendo no mercado:

“Algumas atividades são de caráter de primeira necessidade, como alimentação. Quem planta lavoura não para de plantar, no máximo diminui. Nós incorporadores mantemos os nossos negócios, senão perdemos o cerne da nossa equipe. Temos um grupo de colaboradores que são essenciais para os nossos negócios e, por isso, executamos atividades que vão mantendo a empresa”, destaca.

Novos lançamentos imobiliários são frutos de planejamentos anteriores, mas representam apenas uma parcela do que poderia ser inaugurado | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Novos lançamentos imobiliários são frutos de planejamentos anteriores, mas representam apenas uma parcela do que poderia ser inaugurado | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Segundo Ferreira, os novos lançamentos imobiliários da capital goiana são aqueles que as empresas já haviam planejado de alguma forma. Em compensação, se havia previsão de lançar três ou quatro empreendimentos, apenas um foi, de fato, construído. “Esse é o quadro. Nos últimos 12 meses, por exemplo, minha empresa precisou dispensar cerca de 500 dos mil funcionários que tinha, isto é, 50%. Isso é sinal de alerta”, assegura.

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