Os analistas do governo federal dizem que a crise econômica está começando a ser superada e que o país voltará a crescer. O mercado é menos otimista. A recessão recrudesceu, mas ainda está viva

Entre as reformas tão necessárias ao País está a bancária: os brasieiros enfrentam o crédito mais caro do planeta | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Afonso Lopes

Quem escuta a versão das autoridades econômicas do governo do presidente Michel Temer ou dos principais líderes governistas no Congresso Nacional pode até acreditar que a mais forte recessão da história do país chegou ao fim. Mas qualquer rápida olhada nos jornais e sites dedicados à análise econômica acaba imediatamente com essa crença. Existe unanimidade em relação a um fato: o buraco é bastante fundo e, pelo jeito, não há um alçapão pronto para ser aberto e afundar ainda mais. Ou seja, a recessão já não é mais a mesma, embora ainda não se possa afirmar que o Brasil finalmente conseguiu superá-la completamente.

É exatamente nesse ponto que entram as tais reformas que o governo insiste em aprovar. A primeira delas passou, e limitou o crescimento das despesas globais no mesmo ritmo da taxa inflacionária. A segunda na ordem de importância é a reforma da previdência social, mas nunca é simples mexer com o futuro das pessoas, especialmente quando o assunto é segurança financeira após a vida produtiva. Vai ficar para mais tarde. Antes, o governo quer se testar com outra mudança muito mais barulhenta do que negativa: a reforma trabalhista.

Para a oposição, esbaforida em impropérios e bobagens semânticas absolutamente inacreditáveis, falou-se até em retrocesso de 100 anos caso a reforma seja aprovada. Na verdade, o conjunto de medidas aprovado pela Câmara dos Deputados é pouco mais do que uma melhor flexibilização das arcaicas regras estabelecidas no meio do século passado. Por si só, a reforma não conseguiu atingiu um ponto nevrálgico do emprego no Brasil: o altíssimo custo indireto da contratação. Os salários pagos no Brasil são muito baixos, é verdade, mas a política de compensação por penduricalhos geridos pela administração pública, como é o caso do FGTS, apenas amenizam o rendimento aviltante e encarece o emprego. Talvez o fato mais positivo da reforma é o fim da contribuição sindical obrigatória, que provocou uma alucinante realidade no país: o Brasil é o país campeão absoluto em número de sindicatos. Se isso fosse positivo para o trabalhador, certamente os salários não seriam tão baixos como são.

Um dos fatores que ainda segura a retomada do crescimento é exatamente o altíssimo número de trabalhadores que bate perna dia após dia nas empresas sem encontrar uma vaga de trabalho. Já são quase 15 milhões de pessoas nessa situação. E olha que nessa estatística são contabilizados apenas aqueles que continuam procurando emprego. Os que desistiram, e vivem hoje a precariedade suprema dos bicos e atividades informais, ficam fora da taxa oficial. Se a esses dois contingentes foram somados aqueles que mesmo empregados, gostariam de poder trabalhar um pouco mais, então essa multidão chega a quase 30 milhões de pessoas, equivalente a quase dez vezes a população do Uruguai. Esses 30 milhões estão consumindo somente o absolutamente indispensável, gerando assim um efeito colateral perverso e negativo na recuperação da atividade econômica como um todo.

Por fim, e até agora ninguém falou realmente sobre isso, é fundamental uma reforma bancária. Desde 2003, quando o governo Lula derrubou a norma constitucional que estabelecia limite de 12% de juros reais ao ano, os bancos não têm nenhum outro tipo de controle. Cobram quanto eles quiserem. Em 2003, a Selic rondava a casa dos 22%/23%, e o juro do cheque especial custava escandalosos 9,5%. Hoje, após a queda do limite, a Selic está em torno de 10% ao ano, mas o cheque especial subiu para 15% ao mês. O brasileiro, tanto o consumidor como o setor produtivo, enfrentam o crédito mais caro do planeta. Se não mudar isso, a economia do país vai se recuperar, mas o ritmo jamais será o desejável por todos. l