Aliança de centro e esquerda contra Bolsonaro é um movimento natural

Tática faz parte de uma moderação de discursos, com objetivo de conquistar novos eleitores fora de suas bases e, consequentemente, angariar mais votos

Com o pleito marcado para 2 de outubro deste ano, articulações dos mais variados tipos se desenrolam com o objetivo final de vencer a disputa e alcançar o almejado cargo, seja no Executivo ou Legislativo. Entre as estratégias, a própria criação das federações pode ser vista como uma união de forças em prol da vitória. No entanto, com a característica de permanência das federações – que, uma vez estabelecidas, tem prazo obrigatório mínimo de quatro anos – alianças informais também são trabalhadas: como a caminhada de partidos de esquerda ou direita ao centro, afim de captar mais eleitores e aumentar as chances de ter um candidato eleito.

Eleito em 2018, com Jair Bolsonaro (PL) interrompeu 14 anos de governo de um partido de esquerda – o Partido dos Trabalhadores -, instaurando uma direita conservadora. Já em 2022, na tentativa de fazer com que essa direita conservadora saia do poder, legendas de centro e de esquerda passam a se juntar, com o objetivo de conseguir chegar mais uma vez ao poder e derrotar seu adversário, que mesmo após quatro anos demonstra força o suficiente para intimidar seus concorrentes. Para o cientista político Pedro Mundim, esse cenário também ocorre a nível local. Ele exemplifica, por exemplo, a aliança do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil) – que busca a reeleição – ao presidente estadual do MDB, Daniel Vilela. “Querendo ou não, Daniel está “à esquerda” de Caiado, mais ao centro. Então no caso dessa união, quem está vindo mais ao centro é o Caiado”, explica.

No entanto, esse movimento é visto de forma ainda mais acentuada a nível nacional, na longa caminhada em que todos os pré-candidatos empenham para derrotar Jair Bolsonaro (PL) no pleito. Na última pesquisa eleitoral publicada – divulgada nesta sexta-feira, 11 -, por exemplo, realizada pelo Ipespe, ainda que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esteja bem acima de seus concorrentes, com 43% das intenções de voto, o atual presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), se encontra logo atrás do petista. Ainda que com apenas 28% das intenções de voto, Bolsonaro possui uma larga margem afrente dos demais políticos que pleiteiam o cargo de presidente do Brasil.

Isso, porque os candidatos classificados como ‘terceira via’ – uma possível alternativa fora da polarização entre Lula e Bolsonaro – se encontram todos abaixo de 10% das intenções de voto. Ciro Gomes (PDT) e o ex-juiz Sergio Moro (Podemos), por exemplo, possuem apenas 8%. João Doria (PSDB) é o próximo da fila, com 3%, e é seguido por Simone Tebet (MDB), Eduardo Leite (PSDB) e André Janones (Avante). Todos os últimos três candidatos registraram 1% de intenções de voto, separadamente. Dessa vez, o candidato do Novo, Felipe d’Avila, chegou a ser citado, mas não chegou a 1% de menções. Do mesmo modo, Alessandro Vieira (Cidadania) também não foi citado por nenhum correspondente.

Ainda na esfera nacional, o cientista político Lehninger Mota explica sinteticamente esse movimento como uma tentativa de partidos de esquerda e de centro-esquerda de elencarem Bolsonaro como um inimigo da democracia, justificando a união de possíveis antigos rivais. Com isso, Lehninger se refere a atual filiação de Geraldo Alckmin, ex-candidato a presidência da República, ao PSB, para que possa se candidatar a vice-presidente, na chapa encabeçada por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nas eleições de 2022. Assim, para sustentar o argumento, se engendra o discurso de “todos pela democracia”. Quem também explica esse fenômeno é o cientista político Guilherme Carvalho, que justifica essa tática com a própria estratégia eleitoral utilizada por Bolsonaro em 2018.

Isso, porque ao se candidatar a presidência da República pela primeira vez, Bolsonaro utilizou de meios jamais tão utilizado por outros candidatos, como a exploração dos meios digitais para que seus ideais fossem disparados expressivamente, capturando mais e mais possíveis eleitores em pouco tempo. “É preciso unir forças para derrotar a estratégia que elegeu Bolsonaro e que poderia se reprogramar mais uma vez”, explica Guilherme. Esse movimento, no entanto, para o cientista político Pedro Mundim, não é algo extraordinário a este pleito específico, mas algo passível acontecer em todas as eleições, e não apenas com a esquerda.

Nas eleições de 2022, a aliança de Alckmin com Lula não é apenas para beneficiar o primeiro – ainda que, para Guilherme, ao analisar o modo de campanha de Alckmin, esta seja a forma mais próxima que o presidenciável irá chegar da Presidência da República -, mas também em prol de potencializar a campanha do petista. Para explicar melhor essa estratégia, Mundim menciona a “Teoria do Eleitor Mediano”, que fala sobre a importância dos eleitores de centro: ou seja, os que estão fora da polarização entre extremos; que não são “nem Lula”, “nem Bolsonaro”, e que representam uma grande parte da população brasileira.

Assim, como a base eleitoral polarizada de Lula e Bolsonaro dificilmente conseguirão angariar eleitores do lado oposto, seu principal trabalho é conseguir eleitores do terceiro grupo: o de eleitores do centro. “É esse eleitor mediano que faz a balança pender para um lado e para o outro. Dependendo da distribuição, inclusive, nenhum dos dois consegue vencer as eleições sem convencer os eleitores do centro”, complemente. É exatamente nesse aspecto que uma aliança com Alckmin, no cenário atual, também é benéfica para que a estratégia implementada por Luiz Inácio Lula da Silva seja bem sucedida.

Toda essa tática pode ser traduzida como um percurso de moderar os próprios discursos dos candidatos mais radicalizados. Para exemplificar, ao se pensar em uma linha, é possível pontuar Lula e Bolsonaro em extremos opostos, e os demais candidatos distribuídos ao longo do traço: uns mais á esquerda, outros mais à direita, mas todos bem mais ao centro do que os que se encontram nos polos mais radicais. Assim, a aliança de Lula com Alckmin faz com que o ex-presidente petista caminhe do extremo para um pouco mais ao centro (à sua direita), e finalmente consiga capturar os eleitores que tanto precisa para garantir a vitória no pleito.

Isso explica, inclusive, a mudança de partido de Alckmin, que deixou o PSDB após 33 anos, em dezembro de 2021, uma vez que a aliança de Lula com um candidato do PSB – hoje considerado um partido de centro-esquerda – é muito mais natural do que seria com o PSDB. “A caminhada ao PSB é estratégica. Alckmin pode vir a se tornar um vice-presidente da República e, inclusive, influenciar de forma local, abrindo espaço para seu aliado, Marcio França, ir para o governo de São Paulo”, comenta a cientista política Ludmilla Rosa.

Para o PT, no entanto, essa moderação de discurso foi realizada em diversos momentos ao longo de sua trajetória. Mundim relembra, inclusive, as eleições de 1889, em que Lula, como um sindicalista consolidado, quase venceu o pleito. “No entanto, em 1994 e 1998 ele perdeu no primeiro turno para o Fernando Collor, então percebeu que se ele continuasse fazendo campanhas radicalizadas, só ganharia por sorte. Assim, Lula deixou de ser o sindicalista de 1989 para ser o presidenciável de 2002, ano em que ganhou seu primeiro mandato”, detalhou o cientista político.

Essa aliança do PT com o PSB, de certa forma, se mostrou tão intensa em 2022, que foi cogitada uma possível federação entre ambos os partidos. No entanto, a cientista política Ludmilla Rosa relembra que essa possibilidade atualmente se encontra completamente afastada. “Os partidos tiveram um recuo no sentido de se formatar em conjunto de forma formalizada, mas o aspecto político dessas alianças e desse campo de centro-esquerda permanece”, diz. Ela ainda pontua que como partidos desse campo ideológico – como o PV, PSB, PCdoB e PSOL – não vão ter candidatura própria, irá ocorrer uma “grande coalizão de partidos”, de modo que o apoio dessas legendas irá orbitar ao redor de Lula, o único a representar ideologicamente todas essas siglas.  

Apesar de, nos países ao redor do mundo, essa estratégia também ser utilizada tanto em legendas de direita, quanto de esquerda, Mundim acredita que esse movimento ocorre de forma um pouco diferenciada quando se trata de Jair Bolsonaro. Isso, porque seu discurso naturalmente radicalizado faz parte de sua identidade, a identidade criada durante sua campanha eleitoral. Com isso, essa tática de aderir discursos mais moderados não é realizada de forma tão “natural” como está a ocorrer com o ex-presidente petista. “No entanto, Bolsonaro faz da mesma forma”, complementa o cientista político.

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